Rui Cernadas: Tanta pressa…
DATA
24/11/2011 08:42:22
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: Tanta pressa…

A cada momento, seja na televisão ou no café - essa coisa que ainda existe, felizmente, aqui em Vila Nova de Gaia - ouço falar diante de mim, ou ao meu lado, sobre a pressa que nos move

 

rui_cernadas.jpgA cada momento, seja na televisão ou no café - essa coisa que ainda existe, felizmente, aqui em Vila Nova de Gaia - ouço falar diante de mim, ou ao meu lado, sobre a pressa que nos move.

Pressa que se lê também nas notícias que aparecem e desaparecem como que por mistério das páginas dos jornais e revistas, tratadas na maioria dos casos com pouco rigor e sentido de esclarecimento público.

Nos supermercados, nas filas bastas, ou nos corredores das repartições de finanças ou duma qualquer loja do cidadão, à minha frente ou atrás de mim, ouço queixas sobre a demora dos atendimentos.

E nas nossas consultas e gabinetes, apesar de procurarmos cumprir ao minuto os horários, ouço reclamações sobre a pressa que a todos contagia, anima ou revitaliza.

Tanta pressa, aliás, espalhou-se de norte para sul e de leste para oeste, envolvendo todos os escalões etários e credos, numa febre que nos deve intrigar face às taxas de aposentados e de desempregados e de beneficiários de rendimentos sociais de apoio...

Ao mesmo tempo, reparo no que nos rodeia e lá vejo, com a regularidade que os eventos determinam, pessoas que esperam dia e noite, às portas das lojas que vão lançar em primeira mão certos livros ou telemóveis, ou jogos ou consolas, bem como os que esperam dias para comprar bilhetes para concertos musicais de grandes vedetas ou jogos de futebol.

Por um lado, pessoas que se sentem no uso dos seus direitos - com o direito à expressão do seu desagrado - por aguardar por serviços ou bens que, livremente, optaram por adquirir, usufruir ou testar.

Em muitas situações, sem terem qualquer noção sobre o custo real dos mesmos ou sequer ideia quanto ao seu valor intrínseco...

Por outro lado, indivíduos que se manifestam, decerto legitimamente, apressados como se soubessem fazer do tempo uma apropriada e rentável utilização.

Sob qualquer ponto de vista intrigam-me os dados e as certezas, acumuladas e repetidas, que nos demonstram o descuido de quantos ignoraram ou fizeram tábua rasa dos relatórios e análises económicas e financeiras produzidas ou até, pasme-se, dos pareceres e relatos do Tribunal de Contas.

Na verdade, interrogo-me sempre nessas ocasiões:

 - "Que diabo... Como é que este desgraçado país, com tanta gente acelerada e aparentemente com vontade de não perder tempo e de pressupostamente querer ir depressa trabalhar, chegou a este estado?"

Afinal como é que chegámos ao ponto de descalabro financeiro que conhecemos, se é que de facto, conhecemos?

Tenho para mim que, realmente, somos o país do buraco!

Foram por cá, nas empresas públicas de transportes e nas outras, nas parcerias publico-privadas, nas obras públicas e auto-estradas, nos hospitais EPE, no continente e na Madeira!

Mas acredito mesmo que, por tradição cultural e estrutural, sejamos, claramente, o país do buraco!

Vejam os exemplos dos buracos mais apreciados, no bolo-rei ou no pão-de-ló, entre outros mais antigos ou mais recentes.

Além de que, como povo com história milenar e grandes heróis, não ignoramos alguns traidores e medrosos a quem outros buracos não consentiram grandes aventuras ou façanhas!

E se falo de pressas, também posso falar de stress.

Todos se queixam de stress.

Como da falta de tempo.

Acho até que, de algum modo, fica ridículo e proletário não se afirmar o stress que nos deve distinguir e promover...

Um stress que, perdida a comparticipação especial prevista na célebre portaria dos descontos acrescidos, não configurou alterações significativas na vida quotidiana dos portugueses mais vivos e mais mexidos.

A pressa e o stress serão característicos dos latinos?

Dos portugueses são... certamente.

Mas há boas e históricas razões...

Uma delas, a de que não soubemos, depois de dividir e repartir o mundo em Tordesilhas, com Castela, conservar nada... ou quase nada, excepto talvez a Madeira.

Mas mesmo essa, bem essa, poderá perceber-se agora, o buraco talvez explique o facto de a termos sabido conservar portuguesa!

 

Rui Cernadas

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#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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