José Agostinho Santos: Insuficiência Vaidosa Crónica
DATA
24/11/2011 09:07:26
AUTOR
Jornal Médico
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José Agostinho Santos: Insuficiência Vaidosa Crónica

Estou aqui a pensar se alguém já terá reparado nesta distribuição bimodal da ocorrência dos eventos científicos?

 

jose_agostinho.jpgEstou aqui a pensar se alguém já terá reparado nesta distribuição bimodal da ocorrência dos eventos científicos?

Atravessamos esta época particular do ano, especialmente festiva a nível científico, em que fazemos uma pausa na nossa actividade assistencial e nos reunimos com o resto da família clínica em ambiente acolhedor dentro de um auditório. Desde Setembro que se têm vindo a decorar todos os cantos oportunos das unidades de saúde com cartazes alusivos a Jornadas ou Congressos e, nos meses de Outubro e Novembro, os eventos científicos multiplicam-se diante dos nossos olhos,  deixando-nos tão maravilhados quão desorientados no limbo entre "ir a este" e "não ir àquele".

Ouvem-se, pelos corredores das nossas unidades, frases calorosas como "Bom congresso!", "Boa sorte!", "Faz uma boa viagem até lá!" ou, curiosamente, "Aproveita estes dias para descansar!".

É mesmo bonita esta época "jornadícia"!...

Outra altura também rica em eventos coincide com os meses Março, Abril e Maio. Não teremos que ir muito longe para encontrar eventos representativos deste padrão bimodal: basta situarmos no calendário o Encontro Nacional de Clínica Geral e o Congresso Nacional de Medicina Familiar.

Perante este cenário artístico composto pelos cartazes coloridos em constante atropelo nesta parede, fico espantado com a informação atractiva que retiro com os meus olhos: Jornadas de Urologia para Medicina Familiar, Jornadas de Dermatologia para Medicina Geral e Familiar, Jornadas de Reumatologia para a Medicina Familiar... Os temas a abordar em cada uma das Jornadas conquistam-me ao apelarem às minhas fragilidades clínicas. Abro a minha agenda e vou registando as datas, dançando um tango com as consultas e os compromissos pessoais e com todo o cuidado para não pisar, com o meu dedo, em nada nem ninguém. Até que, em pleno registo fluído, me ocorre esta questão que julgo ser tão absurda quão pertinente: para quando umas Jornadas de Medicina Geral e Familiar para Urologia, Jornadas de Medicina Geral e Familiar para Dermatologia ou Jornadas de Medicina Geral e Familiar para Reumatologia? Se alguém me souber responder a esta questão, peço que me envie a resposta. Eu gostava muito de ir.

Dou comigo a questionar-me se os nossos prezados colegas hospitalares não serão também portadores de fragilidades clínicas dentro da Medicina Familiar? Não terão eles doentes que, atendendo à sua patologia crónica, fiquem também anos e anos nas suas listas?... Como tal, não sentirão também a necessidade de avaliar e envolver a família no processo terapêutico dos seus pacientes? Não terão eles uma gigante dimensão psicológica do seu doente a trabalhar? Não se sentirão, por vezes, incapazes de gerir uma consulta que se torna um tanto menos especializada na sua área mas não suficientemente abrangente ao ponto de justificar uma referenciação para um colega de outra especialidade? Não quererão alguns deles aperfeiçoar competências para uma abordagem biopsicossocial, de modo a serem mais eficazes junto de alguns dos seus doentes? E não gostariam eles de participar numas Jornadas de Medicina Geral e Familiar para Colegas Hospitalares, onde se trocassem experiências de gestão de uma consulta um pouco mais generalista? Onde se pudesse discutir o conceito da modelação holística? São algumas questões, entre tantas outras possíveis...

Isto faz-me reflectir, por sua vez, sobre um provável diagnóstico de Insuficiência Vaidosa Crónica na nossa especialidade, com longos anos de evolução lenta. Não será?... Pergunto-me se não teremos um sistema vaidoso laxo, que tem sido causador de um acumular do imenso conhecimento na abordagem do doente enquanto pessoa, não sendo impulsionado até ao coração do contexto clínico português. Têm-se gerado edemas clínico/científicos que, ironicamente, têm tornado difícil a marcha confiante e um ortostatismo afirmativo neste meio. E se assim é, talvez se deva somente ao nosso sistema vaidoso pouco impulsionador, pois, o conhecimento na medicina familiar é único, valioso e essencial para todo um meio clínico.

Não estará na altura de se adoptarem medidas posturais anti-estase (ainda mais do que aquelas que, felizmente, se têm vindo a executar)? E não será boa ideia usar uns meios de compressão científica de classe elevada, de maneira a minimizar esta nossa Insuficiência Vaidosa Crónica? Não seriam estas Jornadas de Medicina Geral e Familiar uns excelentes meios de compressão?...

Acredito que teremos muito a partilhar com os nossos colegas hospitalares, assim como creio que, desta partilha, o maior beneficiado seria o doente... e, portanto, todos nós. Ou não seremos nós também doentes de um colega?...

Já ouvi dizer, algumas vezes, que um bom médico de família tem, entre outras características, um pouco de urologista, um pouco de dermatologista, um pouco de reumatologista... Certamente que um bom urologista, um bom dermatologista ou um bom reumatologista terá que ter um pouco de médico de família...

Esta é só mais uma reflexão, neste espaço do Jornal que me é cedido. Vou continuar a combinar com a minha agenda as inscrições nas Jornadas...Até breve!

 

José Agostinho Santos

USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora

 

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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