Carl Steylaerts: Meme
DATA
25/11/2011 09:20:39
AUTOR
Jornal Médico
Carl Steylaerts: Meme

Os memes são parte das famílias. Mas também das subdivisões das famílias, como "ser o filho mais velho" - memes muito fortes, uma vez que são "instruídos" desde o primeiro dia de vida

Barack Obama com Geoffrey Canada. O presidente norteamericano elegeu a Harlem Children's Zone como um projecto exemplar

 

carl.jpgGenes e memes são comunicáveis e transferíveis, como as doenças, mas os memes representam a grande distinção entre fauna e flora. Foi Richard Dawkins quem primeiro registou este conceito no seu livro Selfish genes, de 1976.

O conceito de meme reporta para a ideia de mimética, de algo que pode ser imitado. Comportamento, tradições, religiões, instintos, símbolos e ideias podem ser transmitidos de uma mente para outra através da escrita, discurso, gestos, rituais e, talvez, de outras formas ainda não determinadas. Os memes comportam-se como os genes, são capazes de se auto-replicar e respondem a pressões selectivas.

Assim que assimilar este conceito e olhar à sua volta, vai perceber a importância e ubiquidade inequívoca do meme. Bom comportamento, mau comportamento, moda, tendências, propaganda, anúncios,... amor.

Tal como existe terapia genética, há terapia memética. Recentemente li um artigo de Steven Potter, um médico de Cincinnatti que advoga que dentro de 10/20 anos, a terapia genética permitirá criar pessoas mais inteligentes, atléticas e bonitas. Mas estas serão tão bélicas, conflituosas e prejudiciais para a natureza como a nossa espécie actual.

Nada de novo debaixo do sol. A não ser que se introduza a terapia memética.

Um bom exemplo de terapia memética foi dado por Geoffrey Canada na Harlem Children's Zone. 1970: Harlem, Nova Iorque: criminalidade, drogas, prostituição, homicídios, resumindo: guerra. 1990: no mesmo sítio, a mesma guerra, nada mudou apesar dos esforços de muita gente. Então, o Sr. Canada disse: para mudar as coisas aqui, temos que começar pelo princípio e isso é antes do início da vida. Apresentemos uma escolha ao casais à espera de um filho: quer que o seu filho se torne num toxicodependente, assassino, prostituta, criminoso ou gostaria que ele tivesse outras opções de carreira?

E assim nasceu a Harlem Children's Zone.

2010: o mesmo local, uma zona de 100 quarteirões, 10 mil crianças e um estudo da Universidade de Harvard que deixou claro que as crianças daquela zona vão à escola, estudam a sério e têm resultados reconhecidos a nível nacional: muito bom! Obama elegeu a Harlem Children's Zone como um projecto exemplar.

Mas, não há rosa sem espinhos: falta de recursos que impediram ajuda a todas as crianças, usando-se um sistema de "lotaria" para saber quem integraria o projecto. Mas talvez os espinhos possam, em parte, explicar o sucesso da Harlem Children's Zone: todos os que entraram, permaneceram. Luta pela sobrevivência.

Os memes são parte das famílias. Mas também das subdivisões das famílias, como "ser o filho mais velho" - memes muito fortes, uma vez que são "instruídos" desde o primeiro dia de vida. E tal como preconizado pela terapia memética de Geoffrey Canada, são extremamente úteis na mudança de comunidades inteiras. Melhores genes, com menos cancro e outras doenças, um pouco mais de inteligência, talvez até uma maior longevidade, seria bastante agradável. Melhores memes, com menos violência, mais respeito, altruísmo e até mesmo amor, seria ainda melhor.

Numa entrevista ao jornal The Guardian, o famoso físico Steven Hawking, respondeu da seguinte forma à pergunta "Qual é o mais difícil dilema ético que a ciência enfrenta hoje em dia?": "é sobre a engenharia genética. Deveria ser possível, a breve trecho, aumentar dramaticamente a inteligência e esperança de vida de algumas pessoas. O avanço neste caminho pode representar o despontar de uma super-raça. A evolução não se compagina com justiça social. Não foi justo para os neandertais serem substituídos pelos humanos modernos".

Na minha opinião, o professor Hawkings sobrestima o poder dos genes.

Enquanto médicos de família, trabalhamos na fronteira da batalha entre genes e memes. Vemos diariamente o resultado de "maus genes" e de "maus memes". Canalizar milhões de dólares, euros, yuans, ienes e outras moedas para a terapia genética e apenas alguns trocos para a terapia memética não mudará muita coisa. Isto porque, na luta pela vida, a sobrevivência do mais forte não é apenas para o que tem melhores genes. É para o que tem os melhores genes e os melhores memes, simultaneamente.

Tal como Jared Diamond provou em Collapse ainda não conseguimos encontrar o que tanto procuramos... o melhor de dois mundos.

http://www.ted.com/talks/lang/eng/susan_blackmore_on_memes_and_temes.html

http://www.ted.com/talks/lang/eng/jared_diamond_on_why_societies_collapse.html

 Carl Steylaerts, MD
Tesoureiro honorário da WONCA Europa

 

 

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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