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Rui Cernadas: Questões de dinheiros, mas não só!
DATA
13/12/2011 04:19:31
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: Questões de dinheiros, mas não só!

“A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance”, lia-se há muitos anos atrás no Diário de Notícias, de 23 de Junho de 1964, num discurso do então Presidente da República Américo Tomás…

 

rui_cernadas.jpg“A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance”, lia-se há muitos anos atrás no Diário de Notícias, de 23 de Junho de 1964, num discurso do então Presidente da República Américo Tomás…
Também eu me sinto cheio de boa vontade…
Alguns números devem fazer-nos meditar.
Os tempos dos euros eram ainda inimagináveis e os escudos valiam muito, tanto, tanto que ainda hoje muitos são os que raciocinam e contabilizam em escudos e em contos.
Mas tal como em muitas outras coisas, o tempo voou ou correu célere.
E chegados a esta altura, debate-se o país com uma situação económica e financeira muito grave e delicada em que as contas, a austeridade e o rigor parecem não chegar nunca…
Portugal consome em cuidados de saúde qualquer coisa como um pouco menos de 10% da totalidade da riqueza produzida, toda a gente o sabe.
O Orçamento de Estado para 2012 está aí e sabe-se como será difícil e duro para todos, contribuintes em particular…
Na conjuntura global porém, há dados que merecem, a confirmar-se, algum agrado. Por exemplo, quanto ao investimento do Estado na região Norte de Portugal, cujo montante relativamente ao exercício de 2011 irá duplicar.
Com efeito, o PIDDAC reservou ao Norte uma distribuição per capita de cerca de 220 euros, contra os 108 euros atribuídos em 2011, significando que no norte o programa de investimento prevê 19% do total a investir, cerca de 811 milhões de euros.
Por comparação com a região de Lisboa e Vale do Tejo e para dar ideia dos números, esta receberá cerca de 7,2%.
O problema – para o Norte – é que a empresa Metro do Porto irá reter 40% do montante a investir na região, isto é, mais de 320 milhões de euros.
Não sei se vai ajudar, mas a Metro com a quarta maior dívida à banca (2.340 milhões) e o terceiro pior resultado em capitais próprios negativos (- 1.158 milhões de euros), também não teve resultados operacionais brilhantes em 2010 – foi a pior empresa com 351,8 milhões de euros negativos!
Pela parte que nos toca, a Saúde, os resultados líquidos de 2010 colocaram 5 hospitais ou centros hospitalares nos dez piores.
O Centro Hospitalar (CH) Lisboa Ocidental com mais de 42 milhões negativos ficou ao nível da Carris, em Lisboa e teve o pior dos comportamentos hospitalares.
O Centro Hospitalar Lisboa central, com mais de 37 milhões negativos quase igualou os STCP (Porto).
E depois, também em negativos, tivemos o Centro Hospitalar Setúbal (-30,5 milhões), o Hospital Garcia da Orta (-25,3 milhões) e o CH Médio Tejo (-23,2 milhões).
Será só uma questão de culturas, entre Norte e Sul?
Ou uma questão de dinheiros?

Esperemos para ver como será…
Entretanto, porque cada vez mais se fala de e em números, mais um se quiserem ter a paciência de me ler.
A ADSE financiará em cerca de 200 milhões de euros os diversos serviços de hospitalização privada…
O Centro Hospitalar Lisboa Norte poderá estar a dever mais de 250 milhões de euros a fornecedores ou seja qualquer coisa como à volta de 12,5% do total das dívidas do Ministério da Saúde…
Estamos a gastar anualmente perto de 320 milhões de euros em pagamento de horas extraordinárias, a médicos e enfermeiros, em serviço a hospitais e cuidados primários, para além das compensações em folgas, num cenário complexo agravado pelo facto de a uma redução de horas poder não corresponder qualquer redução da despesa dado o pagamento de base diferente…
Outras vezes, não há números…
Por exemplo, na afirmação da Dr.ª Isabel Vaz, da “Espírito Santo Saúde”, que sustentava que “há hospitais que vão ter de fechar”…
O que desejaríamos era muito simples. Que o dinheiro dos contribuintes possa ser bem aplicado e gerido, que se atinjam níveis de elevada qualidade na actividade clínica e que a eficiência dos serviços possa por si só garantir a redução dos custos.
E já agora, como diria o Presidente Américo Tomás, que se tente fazer o impossível: acreditar nas pessoas, porque afinal as pessoas ainda são o capital mais precioso para a mudança…

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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