Uma visita guiada à mais antiga associação de apoio a pessoas com diabetes do mundo
DATA
30/05/2013 12:52:54
AUTOR
Jornal Médico
Uma visita guiada à mais antiga associação de apoio a pessoas com diabetes do mundo

Em dia de efeméride, fomos conhecer a APDP e falámos com o seu Director Clínico, Professor João Filipe Raposo, que nos brindou com uma viagem à história e ao trabalho que a instituição desenvolve

 

Comemorou, no passado dia 13, 87 anos de existência, o que faz dela a mais antiga associação de apoio a pessoas com diabetes do mundo. A sua génese e os objectivos que persegue, estão intimamente associados ao seu fundador, Ernesto Roma, que um dia "descobriu", nos Estados Unidos da América, durante uma viagem que pretendia ser de estágio de psiquiatria, que a diabetes podia ser tratada, com uma "nova" hormona: a insulina. De regresso a Portugal e inconformado com as dificuldades que a população mais pobre enfrentava para aceder ao novo medicamente, decidiu juntar forças e combater o problema. Com os recursos doados por beneméritos de várias proveniências, muitos deles comerciantes da baixa de Lisboa, passou a tratar a população diabética sem recursos. Nascia, assim, a então designada Associação Protectora dos Diabéticos Pobres, mais tarde redenominada Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDT). Em dia de efeméride, fomos conhecer a Instituição e falámos com o seu Director Clínico, Professor João Filipe Raposo que nos brindou com uma viagem à história e ao trabalho que a instituição desenvolve

Versão integral apenas disponível na edição impressa

 

 

Jornal Médico - A APDP é uma sociedade com história. Gaba-se, aliás, de ser a mais antiga associação de diabéticos do mundo. Fale-nos um pouco dessa história.

Entrevista_APDP-1.jpgJoão Filipe Raposo - O nascimento da APDP está muito relacionado com o confronto que sempre acontece quando comparamos a realidade portuguesa com a de outros países, mais evoluídos. E com o seu principal impulsionador, o Dr. Ernesto Roma.

 

Que foi o seu fundador....

Sim. O Dr. Roma tinha estado nos Estados Unidos (EUA) para onde se deslocou com o objectivo de fazer um estágio de psiquiatria. Foi nessa estadia que tomou contacto, por mero acaso, com a insulina, uma "nova" hormona que permitia, pela primeira vez, salvar crianças que até ali morriam, em média, seis semanas após o diagnóstico.

De regresso a Portugal, decidiu dedicar-se a esta área, abandonando a ideia inicial de seguir psiquiatria.

 

E começaram os problemas...

É verdade. Como sabe, naquela época (início da década de vinte do sec. XX), Portugal não tinha um Serviço Nacional de Saúde. Os medicamentos não eram comparticipados. E a insulina era extremamente cara. Daí que só algumas pessoas conseguiam tratar-se.

 

Ou seja... Quem não tinha dinheiro, continuava a morrer.

Exactamente! Foi nesse contexto, que o Dr. Ernesto Roma decidiu criar, em 1926, a APDP.

 

Sigla que inicialmente correspondia a outra designação...

Chamava-se, então, Associação Protectora dos Diabéticos Pobres. Reunia beneméritos de várias proveniências, muitos deles comerciantes da baixa de Lisboa, que financiavam o tratamento, com insulina, da população diabética sem recursos.

O paradigma inicial que motivou a criação da APDP evolui muito rapidamente, associando a doença às questões da alimentação e da actividade física. Chegava-se, assim, à educação da pessoa com diabetes e dos profissionais de saúde que tinham a responsabilidade de a acompanhar.

À época, esta nova perspectiva de envolver o doente activamente na gestão da sua doença era algo verdadeiramente revolucionário... E ainda hoje é tema de discussão.

 

E assim surge a Associação Portuguesa de Gastronomia.

Que acabaria por ser extinta na década de 70. Com a Associação Portuguesa de Gastronomia, foi criada uma "cozinha da diabetes", onde os doentes descobriam qual a relação dos alimentos com a diabetes e onde aprendiam a cozinhar alimentos saudáveis, ajustados à sua doença. Esta cozinha funcionou até aos anos cinquenta, tendo reaberto em Fevereiro deste ano, nas novas instalações da Escola da Diabetes.

 

A formação de técnicos é outra das vossas vertentes de acção

Desde sempre que na APDP se reconheceu que, tal como era preciso formar os doentes, também era preciso que os profissionais de saúde recebessem formação específica na área da diabetes. Assim, desde a década de setenta que organizamos, de uma forma estruturada, cursos dirigidos a profissionais de saúde. Isto para além dos estágios que sempre se facultaram a todos os profissionais que mostraram interesse em conhecer o trabalho que desenvolvemos na Associação.

Hoje em dia, a APDP desenvolve trabalho em quatro grandes áreas de intervenção: associativa, clínica, formação (de que já falámos atrás) e a área da investigação. A primeira, é a área associativa, onde, entre muitas outras coisas, transmitimos a doentes e seus familiares, os direitos que lhes são garantidos. E também os deveres que têm que cumprir.

 

Ser sócio da APDP não significa "ser diabético"...

Não. Tal como no início a APDP contou com um grupo de beneméritos que queriam ajudar a população diabética mais carenciada, hoje temos como sócios todas as pessoas que reconhecem que os objectivos da Associação são úteis e que merecem ser apoiados. Pessoas que também sabem que a diabetes é uma doença que está a aumentar entre nós e que os custos que lhe estão associados, também eles sempre crescentes, podem colocar o país numa situação ainda mais difícil do que a que vive hoje. Qualquer pessoa pode, pois, ser sócio da APDP.

 

Outra grande área.... É a clínica

De facto. Em 2012 realizámos mais de 50 mil consultas médicas envolvendo diversas especialidades, tendo sido observados mais de 18 mil doentes.

O atendimento, como já referi, é multidisciplinar, envolvendo, para além de médicos, outros profissionais de saúde, entre outras, nas áreas da alimentação, da enfermagem, do pé diabético e da psicologia. 

 

O que investigam na APDP?

A APDP é integra algumas parcerias, quer com a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, em projectos de investigação básica, de conhecimento dos mecanismos da doença, tentando transpor esses conhecimentos para o nível clínico - a medicina translacional. Fazemos parte de uma rede de investigação na área da diabetes e também participamos activamente em projectos próprios, nomeadamente na área da epidemiologia.

Por outro lado, também incentivamos a investigação realizada em Portugal, através da criação do Prémio Ernesto Roma, destinado a premiar o melhor trabalho nesta área. É atribuído de dois em dois anos e é anunciado, normalmente, em Maio, mês em que se comemora o aniversário da Associação.

 

E este ano têm mais um prémio... Ernesto Roma.

É verdade. Este ano lançámos o Prémio Ernesto Roma para os Cuidados de Saúde Primários (CSP), procurando, deste modo, realçar a importância deste nível de cuidados na abordagem da pessoa com diabetes. Como saberá, é nos CSP que é acompanhada a maioria das pessoas com diabetes, pelo que estamos a contar com bons trabalhos sobre as melhores práticas, de investigação epidemiológica e clínica, e na área da qualidade. Tudo em parceria com a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, com a qual estabelecemos um protocolo de colaboração.

O prémio será entregue, pela primeira vez, em Maio de 2014.

 

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.