Vejo com facilidade uma escola, um tribunal ou até uma esquadra a funcionar em modelo USF
DATA
30/05/2013 13:04:44
AUTOR
Jornal Médico
Vejo com facilidade uma escola, um tribunal ou até uma esquadra a funcionar em modelo USF

As vantagens do modelo USF são muitas e alicerçam-se em diversos estudos. Desde logo, fomenta a qualidade. E depois, facilita o acesso, promove maior satisfação nos utentes que as utilizam, maior satisfação no trabalho e compromisso ("engagement") nos profissionais que lá trabalham

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André Biscaia, médico de família e investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, foi a personalidade escolhida pela direcção da USF-AN para presidir à Comissão Científica do 5º Encontro Nacional das USF. E foi também ele a quem coube proferir o discurso inaugural do evento.

O médico da USF Marginal, do Centro de Saúde de Cascais, aproveitou a oportunidade para contextualizar a situação actual vivida nos cuidados de saúde primários (CSP), recordando aos presentes o longo caminho efectuado para que a população tenha hoje serviços de saúde de qualidade.

 "No relatório mundial de 2008 da OMS aparece, logo na página três, um estudo sobre Portugal em que se demonstra, estatisticamente, o papel dos profissionais de saúde nesta melhoria. Estes e o sistema de saúde português têm de ter, necessariamente, algo a ver com esta evolução" apontou o especialista, para acrescentar: "O sucesso desta evolução resultou de múltiplas utopias cumpridas desde 1970; de haver alguém a quem a realidade pareceu demasiado incrível e idealizou outras soluções, outro mundo, um mundo melhor. E, depois, lançou-se à obra e cumpriu essa utopia".

Os cuidados de saúde primários (CSP) não escaparam a esta vontade de alguns em fazer melhor: "já foram muitas as utopias, as realizações ideais, impossíveis, que foram sendo concretizadas, desejando-se sempre avançar e melhorar. Como se pode ver na análise dos vários momentos de reforma que se foram sucedendo desde 1970, com os CS de 1ª geração, 1974-82 com o SNS, 1983-94 com os CS de 2ª geração, 1995-2001 com modelos organizacionais experimentais dos CSP, 2002-2004 com as parcerias público/privados, até à actual reforma dos CSP.

Os objectivos foram-se sucedendo e cumprindo: da acessibilidade universal, da equidade, passando pela modernização da gestão e dos equipamentos, à procura da eficiência e da excelência do serviço", recordou.

 

USF em três dimensões

Para André Biscaia, é possível ver as USF em três dimensões: como cuidados de saúde, como equipas de profissionais e como modelo de serviço público do SNS.

A dimensão "cuidados de saúde" caracteriza-se por cuidados com resposta atempada, próxima, mais fácil, de qualidade e para mais pessoas. A dimensão "equipas multiprofissionais" traduz-se em auto-organização, autonomia emparelhada com a necessária responsabilização e eficiência na actuação.

Já o modelo de serviço público, obriga a que os cuidados estejam centrados no cidadão e na micro-eficiência e sejam sustentáveis e inovadores.

"É um modelo que é nosso - de cada português, projetado para o futuro, encerrando ainda muitas potencialidades e muito ganhos, e que pode, inclusive, por ser português, estar no terreno há oito anos e ter provas dadas, inspirar reformas noutros sectores do serviço público; vejo com facilidade uma escola, um tribunal ou até uma esquadra a funcionar neste modelo", garante.

As vantagens do modelo USF são muitas e alicerçam-se em diversos estudos. Desde logo, fomenta a qualidade. E depois, facilita o acesso, promove maior satisfação nos utentes que as utilizam, maior satisfação no trabalho e compromisso ("engagement") nos profissionais que lá trabalham. Por outro lado, permite obter mais dados relevantes sobre a actividade - a monitorização de indicadores nunca foi tão intensa e abrangente - viabilizando a contratualização de serviços entre as unidades e administrações de saúde.

Mas há mais: resulta em maior produtividade e desenvolve maior racionalidade na prescrição de medicamentos e meios complementares de diagnóstico e terapêutica, levando a menores custos.

 

Nem tudo são rosas...

Mas também há dados que preocupam, igualmente suportados por evidência. Estudos que informam que as equipas das USF, principalmente as USF em Modelo A não estão contentes com o andamento do processo de reforma, em particular com os organismos governamentais e da administração central. "Nestes estudos, vemos que a insatisfação com o processo de reforma é crescente e que os coordenadores insatisfeitos já são mais de 60% quando em 2009 eram os satisfeitos e os muito satisfeitos que somavam mais de 60%", concretiza André Biscaia.

Os mesmos estudos também dizem que se assiste a uma paralisação da evolução do número de USF. Uma estagnação tanto mais incrível, diz, quanto as USF, e principalmente as USF em Modelo B, foram dos únicos serviços públicos que mereceram nota positiva no memorando da Troika e recomendações de aumento do seu número.

"As administrações regionais de saúde estão a apostar no sistema de informação e de apoio informático à consulta que menos satisfaz os profissionais; o processo de contratualização continua a ser entendido como imposto e não discutido, a não ter em conta as especificidades locais e com alguns indicadores e metas sem o necessário suporte científico" acrescenta o investigador do IHMT.

 

Crise... Com impactos visíveis

Nunca fugindo ao tema "crise", André Biscaia deu, em Lisboa, testemunho de como a mesma é sentida no dia-a-dia da USF onde exerce. "Na nossa USF, fazemos todos os anos um estudo de satisfação dos cidadãos com os serviços, num censo de um dia. Verificámos nesses estudos que cerca de 25% das pessoas já tiveram dificuldades na compra de medicamentos, em ir à consulta ou até em comer por não terem possibilidade de pagar. É esta a nova realidade com que temos de lidar e para a qual temos de encontrar soluções", relatou.

Para o médico de Cascais, os cuidados de saúde são um direito social inalienável, mas que não significa ter algo, no mesmo sentido que ter um telemóvel. "Significa, antes, entrar numa relação de responsabilidades mútuas com os demais cidadãos e entre nós, cidadãos, e o Estado - uma relação que nos ajuda a constituirmo-nos enquanto cidadãos, que nos configura como povo". Assim sendo, defende, é imprescindível a discussão sobre quais os cuidados primários que devem ser garantidos à sociedade e quem decide quais são.

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.