Prémio Miller Guerra: Mário Moura estreia galardão
DATA
21/06/2013 07:00:08
AUTOR
Jornal Médico
Prémio Miller Guerra: Mário Moura estreia galardão

Depois de receber o prémio de 50 mil euros, numa cerimónia presidida pelo Ministro da Saúde, Paulo Macedo, o Presidente Honorário da APMGF apontou o dedo ao Governo. "Isto está tudo agravado por causa do Gasparzinho",

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Nasceu e estudou em Coimbra, mas foi em Setúbal que fez o essencial da sua carreira. Mário Moura, 85 anos, é o primeiro vencedor do Prémio Miller Guerra, no valor de 50 mil euros, instituído pela Ordem dos Médicos e pela Fundação Merck Sharp Dohme para distinguir a dimensão humanista da Medicina em Portugal.

A cerimónia de entrega do galardão ocorreu no passado dia 29 de Maio e foi presidida pelo ministro da Saúde, Paulo Macedo tendo contado ainda com as participações do presidente e vice-presidente do júri, respetivamente o bastonário José Manuel Silva e o presidente da Fundação Merck Sharp Dohme, Toscano Rico.

Mário Moura, que ainda hoje exerce em Setúbal, cidade onde foi, desde bombeiro a membro da Comissão de Trabalhadores da fábrica da Secil e da Comissão de Justiça e Paz, sempre acreditou que "a relação médico/paciente é a base" da Medicina, defendendo uma visão holística dos doentes. Uma visão que lhe valeu a distinção agora atribuída. Em comunicado, as entidades responsáveis pela iniciativa explicam a escolha: "das candidaturas apresentadas, a de Mário Moura foi, para o júri, a que melhor se adequava a um prémio que pretende distinguir médicos que se tenham notabilizado pela vertente humanística do exercício da sua profissão". "Profissional de excepção, Mário Silva Moura distinguiu-se no exercício da Medicina Familiar, em Setúbal, e também na Medicina do Trabalho e na Medicina do Desporto" refere ainda o comunicado.

Na cerimónia de entrega do galardão, Mário Moura justificaria, também ele, a escolha, com a sua particular forma de ver a Medicina: "este é um prémio que sublinha o envolvimento comunitário e eu fui sempre um médico que se envolveu na sua comunidade, na cidade de Setúbal, na política e nos assuntos locais".

E como sempre acontece quando lhe é dada a oportunidade de intervir... Não deixou escapar a oportunidade para enviar recados à tutela. Referindo-se à crise que o país atravessa e à situação difícil por que passam muitos pensionistas, o decano da Medicina Familiar atirou: "Isto está tudo agravado por causa do Gasparzinho". Relativamente à sua própria situação, confidenciou: "Recebia 2100 euros, agora já vou nos 1400 e ainda vai aumentar o desconto para a ADSE".

E foi precisamente a ADSE o alvo onde Mário Moura centrou as críticas mais pesadas da sua intervenção. A ADSE é "o maior furo do seu ministério" e esse é um sítio por onde o Governo devia ter começado a cortar, disse, dirigindo-se directamente a Paulo Macedo. "Se alguém quer fazer racionamento económico, ali está um dos pontos em que tem que se fazer alguma coisa. Julgo que os hospitais privados vivem em parte disso", afirmou, referindo o caso de internamento da sua mulher, durante o qual se apercebeu que "não há controlo para os gastos".

Já Paulo Macedo, salientou, na sua intervenção, a justeza da escolha do júri: "O prémio entregue a Mário Moura é mais do que justo. Antes de mais, porque se trata de alguém com uma carreira reconhecida pelos doentes e cidadãos. Espero, inclusive, que o seu exemplo sirva de estímulo aos milhares de médicos que trabalham no nosso país", afirmou, para logo acrescentar: "ser médico, é muito mais do que ser técnico".

 

Um vasto currículo de homenagens

Mário Moura conta, no seu currículo, inúmeras homenagens. Entre elas, destacam-se o prémio "Médico do Ano", atribuído em 1989 pelo Jornal Médico de Família e a "Medalha Hipócrates", atribuída em 1994, pela "Societas Internacionalis Medicinae Generalis", correspondente a "Clínico Geral Europeu do Ano".

A cidade de Setúbal também já o distinguiu com a Medalha de Honra "Paz e Liberdade". E, em 1998, o então Presidente da República Jorge Sampaio entregou-lhe a comenda de Grande Oficial da Ordem do Mérito da República. O Ministério da Saúde atribuir-lhe-ia a sua Medalha de Ouro em 2007.

Em 2011, Mário Moura foi novamente homenageado pelo Jornal "Médico de Família", de que foi fundador e director, desta feita com o "Prémio Carreira".

 

O Prémio Miller Guerra

O Prémio Miller Guerra é atribuído de dois em dois anos e é pecuniariamente muito relevante - 50 mil euros -, que nesta primeira edição se destinou a escolher um profissional da área da medicina geral e familiar. Em 2015 realizar-se-á a segunda edição, que premiará um médico da carreira hospitalar.

Para além de José Manuel Silva e de Toscano Rico, o júri deste ano foi composto pelos presidentes das secções regionais do Norte, Centro e Sul da Ordem Médicos e por um membro da direção da Fundação Merck Sharp Dohme. Marcelo Rebelo de Sousa foi o membro da sociedade civil cooptado pelas duas organizações, tendo o júri contado igualmente com um membro médico da comunidade académica indicado pelo Conselho de Reitores, António Rendas, e com os presidentes da Associação dos Médicos de Medicina Geral e da Associação dos Médicos de Carreira Hospitalar.

Quando o prémio foi instituído em 2012 decorria, precisamente, o centenário do nascimento do Professor João Pedro Miller Pinto de Lemos Guerra. Transmontano de Vila Flor, licenciou-se em Coimbra e prosseguiu a sua careira científica investigando semiologia neurológica ao lado de Egas Moniz. Professor universitário em Lisboa, diretor do serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria, membro da Academia de Ciências, bastonário da Ordem dos Médicos, impulsionador do célebre Relatório das Carreiras Médicas, foi também deputado da "Ala Liberal" com Sá Carneiro, Magalhães Mota, Mota Amaral, Pinto Balsemão, entre outros.

Em todas estas atividades Miller Guerra sempre se distinguiu pela inteligência e vasta cultura geral, pela curiosidade científica e pela disponibilidade permanente para os outros. É essa dimensão humanística, tal como o exemplo de uma carreira exemplar ao serviço dos doentes e do progresso da assistência médica em Portugal, que o prémio com o seu nome pretende homenagear.

 

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
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O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.