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José A Santos: os assaltos de verão
DATA
24/09/2013 06:02:50
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos: os assaltos de verão

São assaltos protagonizados por verdadeiros inocentes, não por ladrões. Esses mesmos que nos interpelam, puxando-nos do fundo do anonimato da mesa com tais questões ou graçolas como "come à vontade! Se te sentires mal, está aqui o médico!", são na realidade dotados de um carinho dirigido à pessoa que somos

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jose_agostinho.jpgÉ Setembro e aproxima-se o final do Verão de 2013! E que fantástico foi este Verão!... Abundaram os dias de sol suave e morno, não foram tão emergentes as vagas de calor tórrido e o nosso mar esteve mais cálido e brando! Estes poderão ser alguns dos pontos que se destacam desta época estival e, talvez, ser distintivos relativamente a outros verões mais recentes. Porém, há carimbos comuns a todos os anos, conferindo características tão próprias que só os verões poderiam ter: as enchentes das praias, o regresso dos emigrantes portugueses, os assaltos de Verão, o esvaziamento das cidades, entre outros.

É certo que, neste preciso momento, o meu caro leitor se questiona: "os assaltos de Verão?!". E com razão! Trata-se de uma referência pouco agradável ao Verão em Portugal. Porém, peço-lhe que me deixe tranquilizá-lo: esses assaltos não correspondem ao roubo de material alheio. Muito mais do que isso! Referem-se a este fenómeno de que grande parte de nós, enquanto médicos, vivenciamos durante as mais suaves e reconfortantes festas de férias com família ou amigos!... Confuso?... Então, vamos lá!

É um domingo de festa em meados de Agosto! O sol acordou generoso e convida a um espreguiçar bem lento depois de uma noite angelical. A temperatura convida à mais ligeira das roupas, o calçado nunca foi tão fácil de calçar (ou não fosse o vulgar chinelo)...e o esvoaçar das gaivotas faz, certamente, afastar para longe qualquer problema de trabalho... Por muito que se adore a sua profissão, sabe bem uma pausa consistente que nos crie alterações mnésicas para as coisas do dia-a-dia. (Aliás, qual é mesmo a nossa profissão?! Ah, médico!...) Nesse dia há grande almoçarada com os amigos naquele espaço único de todos os anos, debaixo da sombra das videiras e que decorre com o passar vagaroso das horas daquela tarde que já se assume como um dos marcos do ano. Vêm os amigos de sempre, os amigos dos amigos e alguns familiares! O ambiente torna-se profundamente festivo! Em cima da mesa, claro está, predominam as bebidas, as comidas deliciosas e gritantemente calóricas... Os salgados e os doces... Que se misturam com os sorrisos e olhos bem reluzentes daqueles que se juntam e se abraçam da forma mais sincera que pode haver entre pessoas que se gostam verdadeiramente.

À mesa, há uma amálgama de vozes de onde se resgatam provocações saudáveis, elogios, anedotas, disparates... Fala-se também da vida... Ri-se das suas vicissitudes... Confessam-se os embaraços... Nesta tarde em que os tons de voz são altos e ninguém se importa, o clínico (qualquer um de nós, portanto!) abusa do seu copo, come um pouco mais (ah pois! "também é filho de Deus!")...perde-se nas horas naquele canto que é só seu... E dilui-se subtilmente no ócio mais cristalino. No entanto, uma grande parte dos médicos reconhecerá aquele momento rompedor deste continuum de dolce farniente que emerge abruptamente daquela neblina de vozes animadas: alguém diz qualquer coisa em tom mais alto e termina com "não é, doutor?". E assim, num único segundo,... O suave jazz inebriante daquela tarde pára de tocar como se o disco ficasse subitamente riscado. Confuso e com todos os olhos postos em si e no seu canto, aquele clínico pede para repetir a questão que, pelos vistos e na ausência de outro médico à mesa, era dirigida a ele! "Estes petiscos só nos fazem subir o colesterol, não é, doutor?!", pergunta o anfitrião do convívio, um velho amigo que nos fita com olhar de brincadeira. Alguns risos brotam com esta amistosa provocação... E mais outros tantos brotam com a resposta cliché "não está errado o que se come nas festas, mas sim o que se come entre as festas!". É claro que diz isto com um sorriso aparentemente descontraído enquanto averigua sub-repticiamente se existem alguns restos no seu prato que denunciem os seus próprios excessos (ufa, felizmente o prato apenas tem umas migalhas e um palito!).

Trata-se de uma questão simples e inocente, que nada teria de mal se, após a resposta, o ameno desencadear das horas retomasse o mesmo rumo e se a Stacey Kent voltasse cantar o seu jazz ao fundo. E até retoma... Porém, o problema está no efeito dominó daquele "abrupto perguntar". Após a Stacey Kent ter voltado a entoar suavemente em seus ouvidos, o clínico volta a ser assaltado pela frase de uma senhora de 50 anos (amiga de um dos amigos) que passou a observá-lo a partir do momento em que o anfitrião denunciou que havia um médico à mesa. "Oh doutor, desculpe... Mas a propósito disto do colesterol, gostava de lhe perguntar se acha que devo tomar medicação quando tenho um colesterol de 215!". Et voilá, volta-se a ouvir o disco riscado! O clínico descentra-se da sua conversa local para passar uma opinião cuidada à sua interpeladora. Claro que, ao longo da tarde, esta mesma senhora aproveita um momento de silêncio do clínico para se levantar e voltar a abordar, agora de forma mais próxima, outras questões da sua saúde... E o clínico, que esquecera naquela manhã qual a sua profissão, jamais esquecerá novamente até ao dia seguinte!

Estas interpelações são, portanto, os assaltos de verão que vos falava. São estas que nos roubam a suave inocência de navegantes sem rumo numa tarde preguiçosa de Verão e que fazem um saque à nossa mais deliciosa entrega aos simples abusos do quotidiano. Mas são assaltos protagonizados por verdadeiros inocentes, não por ladrões. Esses mesmos que nos interpelam, puxando-nos do fundo do anonimato da mesa com tais questões ou graçolas como "come à vontade! Se te sentires mal, está aqui o médico!", são na realidade dotados de um carinho dirigido à pessoa que somos ou de uma valorização pela medicina que exercemos. Daí que, inocentemente, estes interpeladores nos relembrem a arte que fazemos diariamente, julgando-nos tão orgulhosos do que exercemos como um artista pintor se orgulha dos seus quadros. E sejamos francos, uma boa parte de nós orgulha-se, de facto, da sua arte! Para além disso, o tema saúde está presente em qualquer mesa de verão, sendo este também um dos aspectos mais típicos dos convívios estivais. É difícil, portanto, escapar às vagas destes assaltos. Apesar de nos roubarem o doce fastio das férias, a verdade é que estes assaltos poderão deixar-nos, no saldo final, até bem mais ricos, ao darem-nos tantas histórias de vida dessas pessoas que as partilham só porque somos médicos. E que apaixonantes histórias de vida são algumas delas!... Com tal, num ápice, estes assaltos transformam-se em autênticas dádivas.

Assim é a vida! Boa reentrée!

 

José Agostinho Santos
Médico de Família
Unidade de Saúde Familiar Dunas, ULS - Matosinhos

 

 

 

 

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