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Mário Moura: no meio da tempestade….
DATA
24/09/2013 06:08:07
AUTOR
Jornal Médico
Mário Moura: no meio da tempestade….

Na minha imaginação ouço música de Wagner em fundo e de quando em quando, o louco de Nietzsche atravessando a cena gritando impropérios como, "acabem com o SNS", ou "privatizem a saúde", ou ainda "façam seguros de saúde", deixando assim no ar um agravamento do ambiente tempestuoso em que o nosso SNS está vivendo neste país em crise profunda

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Entre médicos, enfermeiros e outro pessoal, o Serviço Nacional de Saúde perdeu alguns milhares de funcionários, dizem os jornais do dia em que escrevo.

Já há dias que os meios de comunicação vêm informando também que no próximo orçamento do Estado haverá um corte na Saúde de 200 milhões de euros.

Isto para não falar de toda a tragédia que o país está vivendo com o recurso aos empréstimos da troika, com o aumento enorme do desemprego, com dezenas de milhar de emigrantes, com o aumento da pobreza, com os cortes nas pensões que vão arrasando a classe média do país, etc., etc., etc..

Estamos no meio duma tremenda tempestade.

Na minha imaginação ouço música de Wagner em fundo e de quando em quando, o louco de Nietzsche atravessando a cena gritando impropérios como, "acabem com o SNS", ou "privatizem a saúde", ou ainda "façam seguros de saúde", deixando assim no ar um agravamento do ambiente tempestuoso em que o nosso SNS está vivendo neste país em crise profunda.

Mesmo assim, as pessoas vão continuando a ser assistidas, seja nos cuidados de saúde primários, seja nos hospitais, e os nossos índices sanitários não têm sofrido apreciáveis oscilações.

Sejam as pessoas aderentes a correntes da chamada direita ou da chamada esquerda, pensando politicamente, a verdade é que o nosso Serviço Nacional de Saúde é qualquer coisa que está já entranhada na vivência nacional.

Se quisermos pensar nas mudanças radicais que o "25 de Abril" trouxe ao nosso país, vem logo ao pensamento de qualquer pessoa "a liberdade" e "o serviço nacional de saúde". Por isso, esta tempestade em que o nosso barco navega não pode deixar de nos levar a bom porto, não pode afundar-se, mesmo com água a bordo.

O Ministério da Saúde parece pensar que não pode deixar afundar o barco e o pessoal dos vários serviços, com mais queixumes ou mais impropérios, vai cumprindo e sacrificando-se para que "a coisa " funcione.

E em reuniões clínicas e conferências, apesar de tudo isto, paira no ar a ideia de que "afinal valeu a pena" fazer sacrifícios, empenhar-se em mudanças e continuar com as unidades de saúde familiar (nos cuidados de saúde primários), a fazer apelos à poupança e à luta contra os desperdícios nos hospitais.

Deixem o louco gritar, não atendam a retóricas ideológicas neo-liberais e continuemos a confiar no nosso SNS e especialmente nos seus cuidados de saúde primários, primeira linha de atendimento, de educação para a saúde, duma política de prevenção (que não crie doenças artificialmente!), que mantenha essa bonita expressão que se ouve com frequência: "o meu médico", cheia de carinho e consideração.

Que estamos numa época de grandes carências para o país, que o povo anda (dizem trabalhos estrangeiros) infeliz, que as diferenças entre os mais pobres e os mais ricos vai paradoxalmente aumentando e criando revoltas e mal-estar, que a corrupção campeia e os responsáveis por coisas condenáveis ficam em geral impunes, é verdade e condiciona toda a organização e gestão, até, do nosso Serviço Nacional de Saúde.

Daí que tenha de existir uma vontade forte do ministério e das entidades que intervêm na Saúde e no pessoal que sofre directamente as consequências de má gestão e da falta de soluções para coisas prioritárias.

Os médicos e os enfermeiros e os restantes técnicos têm diante deles uma tarefa enorme.

Mas a população conta com esse esforço e empenhamento - o SNS não pode morrer, mesmo no meio duma tremenda tempestade!

 

Mário da Silva Moura
Presidente Honorário da APMGF  

 

Saúde Pública

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