Presidente da ARS nega encerramento de serviços
DATA
09/10/2013 11:43:28
AUTOR
Jornal Médico
Presidente da ARS nega encerramento de serviços

O presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) garante não estar previsto o encerramento de qualquer serviço de cirurgia cardiotorácica em Lisboa, apesar de uma auditoria concluir que há demasiada oferta nesta área

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O presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) garante não estar previsto o encerramento de qualquer serviço de cirurgia cardiotorácica em Lisboa, apesar de uma auditoria concluir que há demasiada oferta nesta área.

Luís Cunha Ribeiro falava à agência Lusa a propósito de uma auditoria realizada a pedido da ARSLVT pelo cirurgião belga Paul Sergeant que avaliou os serviços de cirurgia cardiotorácica em Lisboa e recomendou a concentração de serviços, deixando de fora o Hospital de Santa Cruz.

Foram auditados os serviços dos hospitais de Santa Marta, Santa Cruz, Santa Maria e o semipúblico Hospital da Cruz Vermelha.

"Para já não está previsto o encerramento de qualquer unidade de saúde [auditada]. Está tudo em aberto", garantiu.

Luís Cunha Ribeiro esclareceu que a auditoria - cujas conclusões se recusou a comentar - não recomenda o fim deste serviço no Hospital de Santa Cruz.

No documento, a que a Lusa teve acesso, são apontados vários caminhos para a cirurgia cardiovascular, mas nenhum deles inclui a permanência da cirurgia cardiotorácica no Hospital de Santa Cruz.

Luís Cunha Ribeiro frisou que as auditorias são pedidas para ajudar nas decisões e assegurou que estas vão surgir, não revelando quando.

Questionado sobre o custo desta auditoria, Luís Cunha Ribeiro disse que Paul Sergeant prescindiu do valor, por considerar que a mesma se enquadra no âmbito do seu trabalho universitário.

 

Auditor belga exclui Hospital Santa Cruz da reestruturação da cirurgia cardiotorácica

Contratado para o efeito pelo Ministério da Saúde, o cirurgião belga Paul Sergeant esteve a auditar os serviços de cirurgia cardiotorácica em Lisboa e recomendou a concentração de serviços, deixando de fora o Hospital de Santa Cruz, mas considerando que "faz sentido" manter o semipúblico Hospital da Cruz Vermelha.

As conclusões do relatório, a que a agência Lusa teve acesso, estão a preocupar os profissionais do Hospital de Santa Cruz, nomeadamente os médicos do serviço auditado, que não sabem o que a tutela vai fazer com as recomendações de Paul Sergeant, nas quais não está definido um futuro para esta unidade de saúde.

Mas também nos outros hospitais públicos visados - Santa Marta e Santa Maria - o relatório não foi bem recebido, tendo mesmo levado o diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (Santa Maria e Pulido Valente) a escrever à Ordem dos Médicos para que esta se pronunciasse.

Concluiu Paul Sergeant que, com uma melhor organização, são suficientes dois hospitais públicos para a prática de cirurgia cardiotorácica, embora defenda a continuidade do acordo que o Estado tem com o Hospital da Cruz Vermelha, que é semipúblico, para suprimir eventuais necessidades nesta área.

A auditoria identificou uma "considerável duplicação de actividades e serviços na região de Lisboa, sem que tal resultasse em benefícios para os doentes ou a sociedade". As listas de espera também mereceram críticas do cirurgião, bem como a ausência de uma monitorização das mesmas e dos doentes após as cirurgias.

Paul Sergeant considera que devem existir dois centros de cirurgia cardíaca, "bem estruturados e bem organizados", em Lisboa, e que a escolha natural são os hospitais de Santa Marta e Santa Maria.

A cirurgia torácica deve ser concentrada no Hospital de Santa Maria e a cirurgia congénita no Santa Marta, defende o cirurgião, para quem os transplantes cardíaco e pulmonar devem fazer-se no Hospital de Santa Marta, em "estreita colaboração" com o de Santa Maria.

Rui Ferreira, coordenador do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares e um dos auditores que acompanhou Paul Sergeant, esclareceu à Lusa que se trata apenas de recomendações: "Têm de ser os decisores políticos a decidir".

O especialista - que exerce no Hospital de Santa Marta, uma das instituições auditadas - nega que seja sugerido o fim do Hospital de Santa Cruz, embora no relatório não seja indicado qual o seu papel nas áreas auditadas.

Sobre a celeuma que estas recomendações estão a provocar, Rui Ferreira disse compreender, mas defendeu que "os profissionais têm de se habituar a que haja uma avaliação dos resultados".

A realização desta auditoria por "uma entidade estrangeira" mereceu o "repúdio" e a "indignação" do Colégio de Especialidade de Cirurgia Cardiotorácica da Ordem dos Médicos, que critica esta nomeação "sem que para tal fosse dada explicação adequada e sem ouvir as entidades que, legalmente, têm a responsabilidade de supervisionar a qualidade e idoneidade dos serviços hospitalares".

"Parece haver, neste caso, outros interesses que não os directamente relacionados com a qualidade dos serviços e o bem-estar dos doentes que os procuram", lê-se no documento com a posição deste Colégio.

A Lusa tentou obter, sem sucesso, uma reação do Hospital de Santa Cruz. Da parte do Hospital de Santa Maria, a directora clínica reconheceu que esta "não foi uma auditoria clássica com visita formal, sem consulta de processos, sem avaliação sólida e sem propostas concretas".

Segundo Maria do Céu Machado, algumas das mudanças propostas nesta auditoria já estão em curso. "Nestes últimos meses foram elaboradas normas quanto aos circuitos, marcação de doentes e intervenção médica e de enfermagem", adiantou.

A administração do Hospital da Cruz Vermelha disse à Lusa que não conhece o relatório da auditoria e que, por isso, não se pronuncia.

 

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
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O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.