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Rui Cernadas: os médicos e o respeito social
DATA
03/11/2013 23:00:09
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: os médicos e o respeito social

O esforço que se pede aos médicos é maior ainda do que o que se solicita aos cidadãos

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A posição dos médicos na sociedade divide argumentos, cenários e opiniões.

Em Portugal parece ser reconhecido historicamente que aos médicos se lhes atribuía, para além do "poder" de receber as vidas confiadas, um capital de conhecimento e de saber infindáveis, bem como um sentido ético que deles fazia, quantas vezes, verdadeiros juízes de paz.

Culturalmente, a proximidade não se confundia com o desrespeito e a acessibilidade não dava lugar à banalização do relacionamento médico-doente.

Mas os tempos passaram depressa e o sentido da proletarização da classe médica acabou por abrir as portas a um outro tipo de posicionamento sociológico dos médicos nas comunidades.

É verdade que muitas famílias e terras passaram a ter filhos que com esforço e dificuldade variáveis, obtiveram as suas licenciaturas em Medicina, num movimento que, de resto, mais tarde e mais amplamente, foi acompanhado de outros sinais ditos de modernidade nos costumes e nas razões.

O maior acesso ao ensino, a par dos apoios sociais e do desenvolvimento económico, abriu novas portas, estradas e caminhos. As faculdades de Medicina depois de terem até, após a revolução de Abril de 74, fechado as portas sem admissão de novos alunos, recomeçaram paulatinamente a admitir novos estudantes, entretanto mais ainda por força da criação de novas escolas médicas, designadamente, fora das tradicionais universidades do Porto, Coimbra e Lisboa.

Como sempre e como em tudo, a qualidade acaba pervertida pelo número e o aumento brutal do número de médicos - estamos em 2013 já às portas do desemprego médico - basta lembrar que temos nesta altura cerca de 10 mil médicos internos em distintas fases de formação...

Talvez por isso, também, se explique - será que se justificará alguma vez - desvios ou desmandos que caíram em terreno de ilegalidade ou acção penal.

É sempre cómodo ou fácil atirarmos as culpas para outros ou até simples e prático, fecharmos os olhos ou alhearmo-nos do que nos pode verdadeiramente incomodar ou despertar.

Aos médicos, a principiar pelos seus próprios dirigentes associativos de classe, compete recuperar o tal capital perdido...

Se possível, diria eu, sem seguir o modelo a que o país recorreu, o da perda de autonomia e submissão a uma qualquer troika que nos venha limitar as opções e impor os trajectos e escolhas ou proibir os sonhos.

O esforço que se pede aos médicos é maior ainda do que o que se solicita aos cidadãos.

Há que reencontrar o sentido mais nobre dos nossos deveres e obrigações, profissionais e éticas, no tratamento dos nossos doentes e na relação com eles, seus familiares e cuidadores.

Mas também na dignificação da articulação com outros profissionais de saúde, na perspectiva correcta de que o desempenho clínico é a cada dia mais pluridisciplinar.

Os doentes, como cidadãos e contribuintes, por exemplo, não devem ser ou servir como escudos ou moedas de troca em disputas com farmacêuticos, ainda que na defesa coerente, pelos médicos, dos seus próprios interesses.

A classe médica precisa de reconquistar o respeito que as suas comunidades lhes reconheceram e concederam no passado, não tão longínquo assim.

Mas mais do que o respeito, precisa de, absolutamente, ganhar a confiança que o juramento hipocrático nunca perdeu de vista...

 

Rui Cernadas

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