O impacto do efeito placebo na prática clínica
DATA
08/11/2013 04:16:39
AUTOR
Jornal Médico
O impacto do efeito placebo na prática clínica

A relação entre o profissional de saúde e o doente, cada vez mais ameaçada por factores como uma cada vez maior intervenção das tecnologias e a diminuição do tempo de consulta, é o verdadeiro efeito placebo e ainda o tratamento mais barato e potencialmente eficaz no tratamento de doenças. Este é um dos temas em destaque em "O Admirável Placebo", o novo livro da cardiologista Teresa Gomes Mota, publicado há dias.

Para a autora, "com a utilização de placebos na intenção de demonstrar os efeitos dos medicamentos, acabou também por se comprovar cientificamente a importância do apoio social e da interacção entre o profissional de saúde e o doente, o chamado contexto terapêutico, para o tratamento das doenças".

"Do meu ponto de vista, o efeito placebo traz esta mensagem importante: a sofisticação das tecnologias pode complementar, mas não substitui o valor do encontro terapêutico. Para mais julgo que as pessoas não se devem situar como vítimas passivas das doenças, uma vez que contêm em si, simultaneamente, os problemas e as soluções. E como médicos, temos por missão ajudar as pessoas a tomar consciência deles.

Acredito que com a ajuda da nossa presença atenta, simples, verdadeira, compassiva, pouco a pouco, o nosso doente acaba por abrir a porta e um admirável efeito placebo acontece", conclui Teresa Gomes Mota.

O livro analisa ainda um conjunto de emoções negativas relacionadas com o efeito placebo. Este tem vindo a ser erroneamente associado a certos traços de personalidade - pessoas "fracas", influenciáveis, histeria - ou com baixo QI, ou reduzido nível cultural, ou mesmo mais a mulheres do que a homens. Ainda que a investigação científica não comprove estas assunções, elas estão de certa forma socialmente enraizadas. Por outro lado o aumento do efeito placebo tem vindo a perturbar os resultados de ensaios clínicos, inviabilizando a comercialização de alguns fármacos promissores e deitando por terra grandes investimentos da indústria. Por último, pelo facto de também poder ser desencadeado por terapêuticas sem comprovação científica, o efeito placebo é por vezes associado a charlatanismo, ou a terapêuticas pouco validadas.

"O Admirável Placebo" reflecte um longo trabalho clínico, de pesquisa da literatura científica e uma particular valorização da relação médico-doente; esta obra contém uma revisão actualizada e acrescenta pontos de vista originais.

Trata-se de um trabalho muito abrangente que demorou dois anos a ser concretizado. Ainda que com o principal foco na medicina convencional, apresenta uma visão que procura ser inclusiva de outros paradigmas médicos e holísticos; disserta sobre um conjunto de pontos de vista praticamente ainda não explorados cientificamente e que poderão constituir bases para o desenvolvimento de projectos de investigação como, por exemplo, o papel da oxitocina como mediador do efeito placebo, ou a vinculação como preditor do efeito placebo.

Teresa Gomes Mota é licenciada em Medicina, especialista de Cardiologia e Mestre em Educação Médica. Integra o Conselho de Administração da Fundação Portuguesa de Cardiologia. Foi Consultora Hospitalar de Cardiologia do Hospital de Pulido Valente até 2004 e Assistente da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa até 2007. Desenvolveu, coordenou e implementou diversas campanhas de prevenção cardiovascular e de promoção da saúde, como o Garra, Educa, Passaporte Para a Vida, Campanha Educacional Para a Redução da Tensão Arterial, Consigo no Coração e Ganhar Saúde, Juntos é mais Fácil, com inclusão de milhares de pessoas. Publicou: do "Do outro lado da bata" - Climepsi 2004; "Emagrecer. Eu consigo!" - Edições Asa II 2006 (premiado com o Gourmand World Cookbook Awards 2006 na categoria Melhor Livro de Nutrição e Saúde do Gourmand Portugal Awards). "Alma de Isabel - de Aragão ao Chiado" - Ed. de Autor 2010.

As certezas enganadoras sobre os Outros
Editorial | Mário Santos
As certezas enganadoras sobre os Outros

No processo de reflexão da minha prática clínica, levo em conta para além do meu índice de desempenho geral (IDG) e da satisfação dos meus pacientes, a opinião dos Outros. Não deixo, por isso, de ler as entrevistas cujos destaques despertam em mim o interesse sobre o que pensam e o que esperam das minhas funções, como médico de família. Selecionei alguns títulos divulgados pelo Jornal Médico, que mereceram a minha atenção no último ano: