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Peritos discutem em Lisboa tratamento do cancro do recto sem cirurgia
DATA
13/02/2014 14:17:55
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Jornal Médico
Peritos discutem em Lisboa tratamento do cancro do recto sem cirurgia

[caption id="attachment_6750" align="alignleft" width="300"]Fundação Champalimaud 1 Para discutir esta abordagem, que pode incluir a possibilidade de tratar não cirurgicamente o cancro do recto, a Fundação Champalimaud vai juntar na sexta-feira e sábado, em Lisboa, especialista de vários países[/caption]

Há doentes com cancro no recto que são submetidos a uma cirurgia mutilante quando o tumor poderá já ter desaparecido com os tratamentos de radio e quimioterapia, defendem especialistas, que querem discutir novas estratégias de combate à doença. Há décadas que o tratamento do cancro no recto, um dos mais frequentes em Portugal, se baseia quase sempre na cirurgia, que implica tirar o ânus e construir um artificialmente (colostomia), o que pode “perturbar muito a imagem e qualidade de vida dos doentes”. Carlos Carvalho, oncologista nesta área, explicou à agência Lusa que a abordagem, actualmente, passa por fazer radio e quimioterapia, antes da cirurgia, mas marcando sempre a operação para retirar depois o tumor. “Alguns centros internacionais, em primeiro lugar no Brasil, começaram a ter a coragem de aguardar antes da cirurgia e perceberam que, por vezes, o tumor desaparecia com a radio e a quimio. Algumas cirurgias são feitas para retirar um tumor que pode praticamente ter desaparecido”, argumentou. Para discutir esta abordagem, que pode incluir a possibilidade de tratar não cirurgicamente o cancro do recto, a Fundação Champalimaud vai juntar na sexta-feira e sábado, em Lisboa, especialista de vários países. Carlos Carvalho, médico da Unidade de Digestivo da Fundação, assume que esta ideia não é inovadora nem pode ser aplicada a todos os doentes com cancro do recto, mas diz ser a primeira vez, mesmo a nível mundial, que se juntam especialistas para debater o assunto de forma organizada. O oncologista espera ainda que, no encontro, sejam acordados princípios orientadores de protocolos de tratamento nos centros oncológicos, a nível internacional. Esta nova abordagem, que começou a ser testada pela cirurgiã brasileira Angelita Gama, centra-se no avanço dos exames de imagem, que permitem um tratamento mais personalizado de cada cancro, combinado com o uso de radio e quimioterapia. “Percebemos que não se deve avançar para a operação sem avaliar primeiro o doente”, sintetiza Carlos Carvalho.

[caption id="attachment_6751" align="alignleft" width="300"]billheald Segundo números registados numa unidade norte-americana e avançados pelo britânico Bill Heald, um dos mais prestigiados cirurgiões do mundo nesta área, que actualmente integra o Grupo de Cancro Colo-Rectal do Centro Clínico Champalimaud, em Lisboa, um terço dos doentes pode estar a ser operado ao recto sem ter já o tumor[/caption]

Bill Heald, cirurgião britânico que estará presente no encontro da Fundação Champalimaud, disse à agência Lusa que um terço dos doentes pode estar a ser operado ao recto sem ter já o tumor, segundo números registados numa unidade norte-americana. “Há um sofrimento que pode ser desnecessário”, defende, referindo-se à amputação do recto. Para Bill Heald, a cirurgia ainda tem um papel muito importante neste tipo de tumores, mas não deve ser fixada a data da operação para seis semanas após o fim da quimio e radioterapia, como é habitual. “A questão da operação tem de ser colocada no fim do tratamento. As cirurgias não devem estar marcadas antes de o doente ser observado e serem verificados os resultados”, argumenta.

[caption id="attachment_6752" align="alignleft" width="300"]angelitagama A nova abordagem, que começou a ser testada pela cirurgiã brasileira Angelita Gama (na imagem), centra-se no avanço dos exames de imagem, que permitem um tratamento mais personalizado de cada cancro, combinado com o uso de radio e quimioterapia[/caption]

Há menos de dois anos, a médica brasileira Angelita Gama publicou um artigo na revista científica "A Cancer Journal for Clinicians" onde defende que não pode ser usada uma única estratégia para tratar todos os tumores do recto. Segundo o artigo, o grupo coordenado por esta médica tratou várias centenas de doentes e, em mais de um quarto das vezes, houve regressão total do tumor com radio e quimioterapia. De acordo com o relatório do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, a taxa de incidência padronizada do cancro do recto em Portugal é de 17,5 em 100 mil pessoas.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
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“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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