Só 10% dos doentes terminais têm acesso a cuidados paliativos
DATA
24/03/2014 11:26:22
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Jornal Médico
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Só 10% dos doentes terminais têm acesso a cuidados paliativos

Nacional_Lei_Bases_Cuidados_PaliativosDo universo de portugueses que necessitam de cuidados paliativos (CO) 90% não tem acesso a este tipo de cuidados. O alerta é da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) que lamenta que a lei de bases deste nível de cuidados, aprovada a 25 de Julho de 2012 na Assembleia da República e publicada a 5 de Setembro do mesmo ano, ainda esteja ainda por regulamentar, perpetuando erros na referenciação de doentes.

Segundo presidente da APCP, o actual panorama dos cuidados paliativos em Portugal é “altamente negativo”. Ainda assim, reconhece, foram desenvolvidos esforços para melhorar a situação. Recorrendo a dados de relatórios de entidades oficiais, Manuel Luís Capelas indica que “No máximo, só 10% da população terá a este tipo de cuidados. Estamos a deixar muitos destes doentes a serem cuidados noutra tipologia de serviços que não são os mais adequados para dar resposta cabal às suas necessidades”, afirmou.

A burocracia na referenciação de doentes é um dos problemas apontados pelo responsável, que já está diagnosticado há muito e que a lei de bases para o sector queria alterar. “A ideia da lei de bases, era agilizar e tornar a referenciação numa referenciação clínica, que tivesse em conta a prioridade dos doentes e não a questão burocrática da ordem numa lista de espera”, explicou Manuel Luís Capelas.

Para o presidente da Associação, sem a regulamentação da lei, a rede nacional de cuidados paliativos pura e simplesmente parou, o que “leva a aumentos de tempos de espera”. De facto, cerca de 50% dos doentes referenciados nem sequer chegam a ser admitidos nas unidades porque morrem entretanto”, lamentou.

A falta de equidade no acesso a estes cuidados é outro dos problemas que se verifica, havendo distritos que continuam sem quaisquer recursos neste nível de cuidados.

Em vésperas do Congresso Nacional de Cuidados Paliativos, que começa na próxima quinta-feira, no Algarve, Manuel Capelas, apela a que a legislação seja regulamentada, recordando que o grupo de trabalho criado pelo Governo para o efeito já cumpriu a sua tarefa.

Durante o Congresso serão apresentados os resultados de um estudo de revisão realizado por Bárbara Gomes, que confirma os benefícios dos cuidados paliativos domiciliários.

Segundo a investigadora, a maioria das pessoas com doença avançada prefere morrer em casa, uma hipótese que duplica de probabilidade quando os doentes recebem cuidados de saúde domiciliários. “Esta meta-análise é um marco importante porque demonstra, pela primeira vez, evidência clara e fidedigna de benefícios que justificam um investimento na prestação de cuidados paliativos domiciliários”, apontou Bárbara Gomes à agência Lusa.

No grupo de controlo do estudo, a percentagem de doentes cujo óbito ocorreu em casa variou entre os 25 e os 30%. Já no grupo sujeito a intervenção paliativa essa percentagem foi superior a 50%, o que revela que as possibilidades de “morrer em casa duplicam com a intervenção de paliativos domiciliários”.

Em Portugal, está a decorrer, até 2016, um projecto de investigação que vai explorar as preferências dos doentes terminais sobre o local de morte e também qual a relação custo-efectividade em relação ao tipo de cuidados prestados.

Actualmente, a oferta de cuidados paliativos ao domicílio é “bastante reduzida”, havendo cerca de 14 equipas para um universo de mais de 60 mil doentes, explica Bárbara Gomes.

“O objectivo é que todas as pessoas com doença avançada e seus familiares possam pedir para ser vistos por estas equipas, mas para tal elas têm de existir”, afirma a investigadora, doutorada em cuidados paliativos pelo Cicely Saunders Institute, do King's College, de Londres.

 

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