Daniel Serrão: um Príncipe da Medicina e um exemplo ético para os jovens médicos
DATA
09/01/2017 10:17:35
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Jornal Médico
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Daniel Serrão: um Príncipe da Medicina e um exemplo ético para os jovens médicos

Faleceu o Prof. Doutor Daniel Serrão, aos 88 anos, vítima de problemas respiratórios decorrentes ainda de um atropelamento que sofreu há mais de dois anos, segundo fonte familiar em declarações à Agência Lusa.

Ao longo da sua vida destacou-se pelos trabalhos que desenvolveu nos campos da Anatomia Patológica e Bioética, tendo sido especialista em ética da vida.

Nasceu a 1 de março de 1928 em Vila Real, na freguesia de São Diniz, em Vila Real de Trás-os-Montes. Completou o Curso Geral dos Liceus em Aveiro com 18 valores e, um ano depois, termina o Curso Complementar de Ciências, com a mesma nota. Já na Universidade do Porto termina o curso de Medicina com uma média final de 17 valores decorria o ano de 1951. Dez anos depois concorre a professor extraordinário de Anatomia Patológica, sendo aprovado por unanimidade.

De outubro de 1967 a novembro de 1969, esteve mobilizado, em Luanda, prestando serviço no Hospital Militar como anatomopatologista. Concorreu a Professor Catedrático em 1971 sendo aprovado por unanimidade, assumindo a direção do Serviço Académico e Hospitalar de Anatomia Patológica.

De 1975 a 1976 esteve demitido de todas as suas funções em consequência de um saneamento, que foi anulado por decisão do Conselho da Revolução, tendo-lhe sido pagos os vencimentos dos doze meses durante os quais foi impedido de exercer as suas funções académicas e hospitalares. Montou e dirigiu um laboratório privado de Anatomia Patológica que, de julho de 1975 até dezembro de 2002, realizou um milhão e seiscentos mil exames histológicos e citológicos para hospitais públicos e para clientes privados. Foi jubilado a 1 de março de 1998.

Foi também membro eleito do Bureau do CDBI de 1996 a 2000 e de 2004 a 2008. Entre 1997 e 2008 ocupou o cargo de presidente do Working Party on The Protection of the Human Embryo and Foetus (CDBI CO-GT3). Daniel Serrão foi ainda membro do Conselho Científico das Ciências da Saúde do Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC) desde 1980 até à sua extinção pelo Decreto-Lei 188/92 (12 anos).

Ocupou os cargos de presidente da Comissão de Fomento da Investigação em Cuidados de Saúde, do Ministério da Saúde, desde 1991 até 2008, de presidente do Conselho de Ética da Saúde do Hospital da Ordem da Trindade e de presidente do Conselho Médico da Medis.

Daniel Serrão foi ainda conselheiro do Papa em virtude de ser membro da Academia Pontifícia para a Vida. Fez parte, durante dez anos, do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV).

Desempenhou igualmente os cargos de orientador de 17 dissertações de Mestrado em Bioética dos cursos da Faculdade de Medicina, Instituto de Bioética e Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (UCP) de Braga e de professor nos Mestrados de Bioética da UCP.

Recebeu vários prémios ao longo da vida, um dos quais o Prémio Pfizer, com que foi distinguido em 1958, 1961 e 1971, e o Prémio Nacional de Saúde, atribuído pela Direção-Geral da Saúde (DGS), em 2010.

Daniel Serrão foi ainda agraciado com a Medalha de Mérito da Ordem dos Médicos (2002), a Medalha Serviços Distintos do Ministério da Saúde grau Ouro e a Medalha de Mérito Militar do Ministério da Defesa.

Em 2008 recebeu do então Presidente da República Cavaco Silva a Grã Cruz da Ordem Militar de Santiago de Espada.

Presidente da República recorda o “professor e investigador notável”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa já apresentou condolências à família de Daniel Serrão, recordando o “professor e investigador notável”.

“Com o falecimento de Daniel Serrão, desaparece, além de uma personalidade de assinalável dimensão cultural, um professor e investigador notável, que tanto contribuiu para a renovação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e, depois, para a afirmação da Universidade Católica Portuguesa”, lê-se numa mensagem divulgada hoje na página de Internet da Presidência da República Portuguesa.

Marcelo Rebelo de Sousa recorda que, “particularmente relevante foi o seu papel pioneiro – com, entre outros, Luís Archer e João Lobo Antunes – para a importância académica e a autonomia disciplinar da Bioética”.

Ministro da Saúde recorda príncipe humanista da Medicina

O ministro da Saúde classificou Daniel Serrão como “um dos príncipes humanistas da medicina portuguesa”, sublinhando a sua “visão de grande profundidade” sobre a ciência e a vida.

Em declarações à Agência Lusa, Adalberto Campos Fernandes enalteceu as características de alguém com quem teve a ocasião de conviver ao longo das últimas décadas, reconhecendo nele “um dos príncipes humanistas da medicina portuguesa”, uma figura marcada pela “sua ponderação, a capacidade que teve de transformar a bioética numa individualidade ao nível da investigação e do conhecimento”.

Para o responsável da tutela, Daniel Serrão foi também “um dos pensadores sobre o sistema de saúde e em particular sobre os desafios que se colocam ao Serviço Nacional de Saúde (SNS)”.

Afirmando que este está a ser “um fim de semana muito difícil para Portugal e para os portugueses”, a propósito da morte de Mário Soares, Adalberto Campos Fernandes classificou Daniel Serrão como “um homem bom, uma personalidade que tinha da ciência e da vida uma visão de grande profundidade”.

Recordando que em muitas matérias pensava e pensa de maneira diferente do Prof. Doutor Daniel Serrão, o ministro da Saúde declarou: “Uma sociedade que pensa de uma só maneira é uma sociedade pobre, uma sociedade que despreza aquilo que mais rico existe na ciência e na inovação que é a diferença é uma sociedade que não está bem consigo própria.”

Daniel Serrão é “um homem de convicções no plano da Bioética, da visão que tinha do mundo e da sociedade e da humanidade e, nessa matéria, essa diferença é uma diferença fundada numa profunda convicção e de valores que tinha na vida”, adiantou.

Sobre as diferenças em relação a algumas matérias mais polémicas, Adalberto Campos Fernandes disse: “Isso só nos dá mais força para reconhecer e respeitar a sua obra e o seu pensamento”.

“Ele era e sempre foi um homem da saúde em Portugal”, concluiu.

SRNOM recorda “um dos príncipes da Medicina”

A Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos (SRNOM) recorda a memória do Prof. Doutor Daniel Serrão destacando “as suas opiniões desassombradas contra a clonagem de embriões humanos, que considerava ser um crime científico. Foi responsável por um notável impulso para o desenvolvimento da Anatomia Patológica em Portugal, além de uma dedicada atenção concedida à reflexão sobre o futuro, a estrutura e a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde e a sua projeção nacional e internacional no campo da patologia e da ética médica e bioética”.

Entre múltiplas homenagens, distinções e prémios àquele que considera ser “um dos príncipes da Medicina”, a SRNOM destaca a sua nomeação pela Academia das Ciências como membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e designação como membro da Pontificia Accademia per la Vita, a convite do Papa João Paulo II, em 1994.

“Uma figura de referência no campo da Ética e da Medicina, um exemplo e uma referência para os médicos e para a sociedade civil. Honrar o seu vasto património intelectual e humanístico, que fará sempre parte da nossa memória individual e coletiva, é uma obrigação de todos nós”, sublinha.

Universidade do Porto recorda humanismo que deixa “legado perene”

O reitor da Universidade do Porto, Sebastião Feyo de Azevedo, também prestou homenagem ao médico e professor Daniel Serrão, que lembrou pelo seu humanismo, deixando um “legado perene”.

Em comunicado, o reitor da Universidade do Porto recordou que Daniel Serrão foi “um brilhante estudante da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto”, instituição onde se viria a afirmar “como um dos professores de maior destaque (…) quer pela sua obra científica, quer pela sua vasta intervenção pública em prol dos valores humanistas”.

“O seu trabalho científico na área da Bioética é, aliás, justamente reconhecido internacionalmente, tendo sido um dos primeiros professores de Medicina em Portugal a dedicar-se ao debate em torno das questões éticas da profissão. O seu desaparecimento seria, por isso, uma perda irreparável para a Universidade do Porto, em particular para a sua Faculdade de Medicina, não fosse o facto do prof. Daniel Serrão ter deixado um legado perene em toda a academia”, acrescentou Sebastião Feyo de Azevedo.

O nome de Daniel Serrão ficará “para sempre ligado à formação de brilhantes gerações de médicos e investigadores científicos na Universidade do Porto”, mas o reitor da instituição académica salientou que “será, porventura, o seu humanismo, a sua humildade e a sua relação de proximidade com estudantes e colegas pelo qual o Prof. Daniel Serrão mais será recordado na comunidade académica”.

Rui Nunes recorda "grande obreiro" da introdução da bioética

O também especialista em bioética afirma ter tido “o privilégio” de acompanhar Daniel Serrão ao longo de cerca de 30 anos e de privar com ele na Faculdade de Medicina do Porto.

“Uma das personagens mais marcantes da vida portuguesa nos finais do sec XX e princípios do sec XXI, em primeiro lugar porque, sendo um católico convicto, tinha uma visão humanista da sociedade e uma curiosidade científica ímpar, o que lhe permitiu ter uma abrangência muito grande em diferentes atividades e em diferentes setores da sociedade portuguesa”, recordou à Agência Lusa Rui Nunes.

Esse caminho feito em conjunto, permitiu-lhe testemunhar que Daniel Serrão “foi um dos grandes obreiros da introdução em Portugal da Bioética, enquanto novo domínio científico multidisciplinar e que no fundo contribuiu decisivamente para muitas das evoluções entretanto ocorridas na sociedade”.

“Ou seja, ele foi um pioneiro nesta área do conhecimento, ajudou a criar uma escola que penso que é hoje de referência na universidade do Porto e também na cena internacional e para além deste avanço técnico e científico e académico naturalmente traduziu-se em evoluções importantes da sociedade portuguesa, como agora se constata com a legalização do testamento vital e outros passos que tiveram essa visão precursora em Daniel Serrão.”

O presidente da Associação Portuguesa de Bioética sublinha ainda que o médico falecido teve “essa clarividência de perceber que o mundo estava em mutação, isto há 30/40 anos atrás, que sobretudo no domínio das ciências da vida, da biologia, da genética, da reprodução, da transplantação de órgãos e das questões éticas do fim da vida humana, que a ética tradicional não respondia aos desafios da sociedade contemporânea e que era preciso introduzir em Portugal uma maneira diferente de pensar”.

“E eu creio que foi bem-sucedido, tive o privilégio modestamente de colaborar nessa trajetória e de testemunhar esta evolução ao longo dos últimos 30 anos em Portugal”, frisou.

Assunção Cristas lamenta morte de "um mestre"

A líder do CDS-PP, Assunção Cristas, lamentou a morte de “um mestre que levou a ética às fronteiras da vida e aos limites da ciência médica”.

"A morte, hoje, de Daniel Serrão é uma notícia triste, mas que nos convoca para a grandeza da vida deste médico e para o seu legado - um mestre que levou a ética às fronteiras da vida e aos limites da ciência médica”, refere Assunção Cristas, numa nota enviada à Agência Lusa.

A líder do CDS-PP recorda o “professor Catedrático jubilado e referência da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que discutia e estudou a vida como humanista, filósofo e cientista - Daniel Serrão tinha uma visão global, sem barreiras, sobre tudo o que é humano”.

“Seja pelo percurso da ciência, ou pelo da Fé, entre a natureza e a transcendência dedicou-se ao outro, ou seja, a todos”, referiu acrescentando que “hoje todos somos mais livres, porque Daniel Serrão questionou os nossos limites, porque estudou, discutiu, aconselhou. O seu legado responsabiliza-nos para continuar esse percurso”, considerou.

800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde
Editorial | Jornal Médico
800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde

Se não os tivéssemos seria bem pior! O reforço do Programa Operacional da Saúde com 800 milhões de euros pode ser entendido como sinal político de valorização do setor da saúde. Será uma viragem na política restritiva? O Serviço Nacional de Saúde (SNS) de 40 anos precisa de cuidados intensivos! Há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções. É urgente pensarmos na nova década com rigor e disponibilidade sincera.

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