OM: “O ano comum não está a resolver problemas, só os está a criar”

O Jornal Médico esteve à conversa com o presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos (CRNOM), Alexandre Lourenço, que abordou as dificuldades vividas na formação dos jovens médicos como um dos temas quentes da reunião desta manhã com os diretores do internato médico.

Em declarações ao Jornal Médico, o presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos (CRNOM), Alexandre Lourenço, afirmou que “o ano comum não está a resolver problemas, só os está a criar, e a forma como está organizado não é eficiente” apontando, para o facto, duas causas principais: o excesso de médicos do ano comum e a falta de objetivos e de organização dos mesmos. Questionado sobre possíveis soluções, o responsável avançou que a Ordem já há duas propostas em cima da mesa, uma das quais criada pela OM e que se encontra em debate com o Ministério da Saúde, de modo a reestruturar totalmente o ano e a sua própria organização, facto que colheu o agrado dos internatos médicos. A segunda, sendo muito semelhante, pretende também alterar os processos formativos existentes.

“Muitos dos problemas que existem tem a ver com uma falta de visão na formação geral e específica dos internatos”, aponta Alexandre Lourenço sublinhando que “falta resolver um problema grave: há mais de 2000 pessoas a fazer o ano comum. Os hospitais e os centros de saúde não têm capacidade de os ‘absorver’ a todos porque, neste momento, já têm dificuldade em fazê-lo em relação aos internos da especialidade”.

Na reunião, que incluiu hospitais publicados e privados, coordenadores de saúde pública (SP) de Medicina Geral e Familiar (MGF) foram ainda mencionadas as alterações feitas na estrutura da SP, urgindo “uma mudança nos programas de formação nos próximos tempos”. A discussão deverá ser alargada às comissões de SP, especialistas da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP).

“Estamos a receber propostas avulso e não há um fio condutor. Para a Ordem é muito importante a aposta na qualidade dos médicos e da sua formação. Queremos ter uma Medicina melhor organizada e com melhor resposta às populações daqui a 10 anos”, defende.

Excesso de alunos poderá impor medida de numerus clausus

O excesso de estudantes de Medicina é um problema que tem vindo a ser apontado por vários setores da Saúde e que não passou à margem deste encontro. Segundo declarações de Alexandre Lourenço, estima-se que faltem cerca de 600 médicos de família em Portugal e que estejam, atualmente, a realizar o internato complementar de MGF outros 1800, formandos que estarão, a breve trecho, acima das necessidades do país. “Temos mais de 12 mil futuros médicos nas faculdades de Medicina. Onde é que vamos por estas pessoas? Não podemos esperar que se formem 12 mil médicos nos próximos seis anos”, alerta afirmando, contudo, que isto pode significar que para receber todos estes jovens e dar continuidade à sua formação seja necessário baixar a idade de reforma dos médicos ou, caso contrário, haverá gerações de médicos indiferenciados, “a trabalhar num sistema que não funciona. É incongruente”.

Também a falta de especialistas em Anestesiologia põe em risco a realização de cirurgias. “Há menos cirurgiões a operar e menos capacidade para formar”, pese embora o facto de esta ser uma das especialidades que “mais cresceu e evoluiu tecnicamente nos últimos anos. É a terceira especialidade que mais médicos forma por ano, mas que não permanecem no setor público. Continuamos sem gente no bloco operatório e sem formadores”.

Alexandre Lourenço sublinhou a cumplicidade vivida na reunião, na esperança de que os diretores de internato médico tenham percebido que a Ordem é “um aliado na defesa da qualidade da formação nos hospitais”.

Aprovação de revisão de "Harrison" pode estar para breve

A Prova Nacional de Acesso à Formação Específica, comumente apelidada de “Harrison”, poderá vir a conhecer uma nova versão. A aguardar parecer ministerial desde o dia 10 de abril deste ano está uma proposta lançada pela Comissão Nacional e que contou com a coordenação do médico infeciologista e intensivista, Prof. Doutor António Sarmento. Alexandre Lourenço contou ao Jornal Médico que a Ordem terá recebido uma proposta do Ministério e que deverá responder até ao final do dia de hoje, não podendo, contudo, revelar o seu conteúdo. “Trata-se um parecer fundamentado, que vai elevar a prova nacional de seriação a outro patamar, com vista a uma forma de organização e com a qual a Ordem dos Médicos tem cada vez mais vontade de se envolver”, e que tem por base a proposta desenvolvida pela Comissão Nacional.

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Editorial | Jornal Médico
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