Victor Ramos, vencedor do Prémio Miller Guerra: “Cuidados de saúde não são cadeia de montagem”
DATA
27/11/2017 10:35:56
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Jornal Médico
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Victor Ramos, vencedor do Prémio Miller Guerra: “Cuidados de saúde não são cadeia de montagem”

O vencedor do prémio de carreira médica da Ordem dos Médicos lamenta que haja cada vez menos tempo para os doentes e avisa que a medicina e os cuidados de saúde não são uma cadeia de montagem.

Dedicando-se há quatro décadas à Medicina Geral e Familiar, Victor Ramos é o vencedor da edição de 2017 do Prémio Miller Guerra de Carreira Médica.

“É preciso tempo suficiente para os doentes”, afirma o galardoado em declarações à Agência Lusa, entendendo que o aumento das listas de utentes dos médicos de família e os sistemas informáticos vieram “consumir tempo” às consultas.

“Menos tempo traduz-se em stress. O médico não perde a sua deontologia e isso angustia-o. Tem de ouvir as pessoas, observar, acordar com o doente o plano de cuidados. E sabe que há um conjunto de pessoas à espera”, relata Victor Ramos.

Também os sistemas informáticos, que deviam facilitar a vida aos profissionais, estão “a comer tempo e atenção”, por serem múltiplos e por muitas vezes terem problemas.

“Se não tivermos cuidado, às tantas nem se olha para as pessoas, mas para os ecrãs e teclados. É uma infernização e tira tempo”, afirma o clínico.

A população está também mais envelhecida, vai acumulando problemas de saúde, o que requer mais tempo para as consultas.

“Temos de ter o tempo minimamente necessário para cuidar com qualidade e rigor das pessoas. Isto não pode ser um modelo industrial de cadeia de montagem”, sublinha Victor Ramos.

O médico pede ainda que o discurso político sobre a importância dos cuidados de saúde primários se traduza em prioridades concretas, nomeadamente de investimento e de recursos humanos.

Contudo, apesar de um cenário com dificuldades, Victor Ramos assinala a evolução que a medicina geral e familiar teve em Portugal, nomeadamente com a constituição das unidades de saúde familiar (USF).

Além disso, estima que se avizinham “bons tempos”, com uma renovação e transição geracional de médicos de família.

“Neste momento, os cerca de seis mil médicos de família colocados há 35 anos estão quase todos em idade de ir saindo. Vai haver substituição de médicos. E os jovens médicos de família têm uma formação muito mais específica e qualificada”, considera.

Victor Ramos lê a atribuição do Prémio Miller Guerra como “um estímulo para continuar e dar mais algum contributo”, apesar de estar perto do fim da sua carreira, que já leva 40 anos.

Talvez mais do que a atribuição do Prémio, tocou-o “profundamente” a apresentação da sua candidatura, que foi da responsabilidade de um grupo de colegas.

Victor Ramos é o vencedor da terceira edição do prémio de carreira Miller Guerra, galardão instituído pela Ordem dos Médicos, pelo seu “trabalho impulsionador” na área dos cuidados primários de saúde.

A entrega do Prémio Miller Guerra de Carreira Médica 2017, no valor de 50 mil euros, vai decorrer na quarta-feira em Lisboa.

O Prémio Miller Guerra foi criado em 2012 e atribuído pela primeira vez em 2014 como uma homenagem à memória de Miller Guerra (1912-1993), médico responsável pelo Relatório das Carreiras Médicas e discípulo de Egas Moniz, único Nobel da Medicina português.

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve

É quase esquizofrénico no mesmo mês em que se discute a carência de Médicos de Família no SNS empurrar, por decreto, os doentes que recorrem aos Serviços de Urgência (SU) hospitalares para os Centros de Saúde. A resolução do problema das urgências em Portugal passa necessariamente pelo repensar do sistema, do acesso e de formas inteligentes e eficientes de garantir os cuidados na medida e tempo de quem deles necessita. Os Cuidados de Saúde Primários têm aqui, naturalmente, um papel fundamental.