Retinopatia diabética: Uma doença silenciosa, mas incapacitante
DATA
29/10/2018 15:36:47
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Jornal Médico
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Retinopatia diabética: Uma doença silenciosa, mas incapacitante

No âmbito da sua nova rubrica “Portas Abertas” – que pretende divulgar projetos inovadores na área da Saúde – o Jornal Médico foi conhecer o rastreio de retinopatia diabética (RD) promovido pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT). No caso específico do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Almada-Seixal, esta iniciativa foi implementada em 2017, com a particularidade de decorrer em estreita colaboração com o serviço de Oftalmologia do Hospital Garcia de Orta (HGO).

De acordo com os estudos internacionais, a RD afeta aproximadamente 90% das pessoas com diabetes 20 anos após o início da doença, sendo considerada a principal causa de cegueira na população entre os 20 e os 64 anos. Numa fase inicial, a RD é assintomática e pode permanecer indetetável durante a progressão, o que dificulta, muitas vezes, uma intervenção clínica precoce.

No sentido de travar esta tendência, a ARSLVT desenvolveu um programa de rastreio da RD que abrange toda a Região, mas que no ACES Almada-Seixal assume características especiais: embora os doentes sejam identificados e convidados a realizar o rastreio pelas unidades de saúde do ACES, é uma equipa do serviço de Oftalmologia do HGO que realiza o rastreio da RD no Núcleo Oftalmológico de Almada (NOA), localizado no antigo centro de saúde daquela cidade.

Cabe à equipa comunitária do NOA interpretar os resultados do exame e sinalizar os doentes que necessitem de seguimento e tratamento em consulta hospitalar. O NOA é um prolongamento da oftalmologia do HGO, que trabalha assim em grande proximidade com os utentes e em plena articulação e integração com os cuidados de saúde primários (CSP), disponibilizando assistência oftalmológica numa área diagnóstica de alta especificidade, de forma simples e imediata.  “Os ACES são importantíssimos nesse sentido, não podíamos fazer nada sem os ACES, tal como não poderíamos fazer nada sem o apoio da ARS”, sublinhou o responsável do NOA. Através desta atuação conjunta é possível alcançar ganhos de eficiência, de rentabilidade maiores e chegar à população. Quem o diz é o responsável do NOA e diretor do serviço de Oftalmologia do HGO, Nuno Campos, salientando que o principal objetivo deste projeto é diagnosticar a RD numa fase precoce e evitar a sua consequência última: a cegueira.

A responsável regional pelo rastreio da RD, Carolina Santos, lembrou que o projeto-piloto se iniciou em 2016 em quatro ACES. De acordo com a responsável, os indivíduos apenas são identificados para o rastreio se já estiverem codificados como diabéticos nos CSP. “Toda a população diabética está sinalizada numa plataforma de rastreios, sendo que cabe aos MF aceder a essa plataforma e identificar as pessoas que são elegíveis [para rastreio]”, explicou.

Após a seleção dos doentes, um administrativo dos CSP fica encarregue de enviar as respetivas cartas. Dado que os convites são enviados para a morada dos utentes, e os que faltam ao rastreio são contactados, Carolina Santos frisou que é fundamental manter esses dados [morada e contactos telefónicos] atualizados.

Quanto ao rastreio propriamente dito, o exame consiste na captura de imagens do fundo do olho, através da realização de uma retinografia. Por sua vez, estas imagens são inseridas no software Retmarker”, que faz uma primeira triagem. Caso seja necessária leitura humana, as mesmas são enviadas para o HGO ou para o Instituto Oftalmológico Dr. Gama Pinto, centros de leitura humana da ARSLVT, responsáveis por fazer a classificação das imagens de acordo com o que que está estabelecido no Plano Nacional da Visão. “Feito isto, o indivíduo que seja identificado como um caso positivo referenciável é encaminhado pelo MF para um hospital do Serviço Nacional de Saúde (SNS) – no ACES Almada-Seixal, para o HGO. No caso de ser negativo, o indivíduo é reconvocado para rastreio no ano seguinte”, indicou a responsável.

De forma a auxiliar o trabalho dos hospitais neste processo, verificar a prioridade dada a estes utentes, já identificados como doentes, foi criada uma consulta de subespecialidade de RD, que funciona como uma espécie de “Via Verde”. Segundo Carolina Santos, a adesão ao rastreio “tem sido muito positiva”, sendo que em 2017, a ARSLVT registou uma taxa de participação de 52%. É importante salientar que para isto em muito contribui o trabalho que tem sido realizado com as instituições da comunidade local de cada ACES, no sentido de divulgar o rastreio. Também de salientar a colaboração de várias autarquias no transporte dos utentes para o centro de saúde, quando a distância e a menor acessibilidade de transportes o justifica.

“Ao identificarmos a doença numa fase precoce, conseguimos tratá-la mais facilmente, o que se traduz em menos custos para o doente e para o SNS. É importante salientar que, muitas vezes, a doença só se manifesta tardiamente. Assim, aquilo que pretendemos é que o rastreio seja realizado ainda antes do utente começar a ter queixas de acuidade visual”, reforçou a responsável regional. 

Segundo Nuno Campos, o rastreio da RD permite identificar outras patologias do foro ocular, nomeadamente cataratas, glaucoma grave ou neoplasia da retina, uma vez que “tudo é captado na fotografia do fundo do olho [retinografia]”.

Já o coordenador regional para Diabetes da ARSLVT, Armando Braz, lembrou que a diabetes representa uma fatia importante do orçamento do Ministério da Saúde, representando um grande peso ao nível dos custos do Estado. Desta forma, o principal objetivo da ARS passa por “evitar as complicações da diabetes”.

A RD pode ter um impacto significativo na qualidade de vida dos doentes, nomeadamente deixando-os incapacitados para trabalhar, exercer os seus papéis sociais e familiares, ou dependentes de um cuidador. Alguns serão institucionalizados na Rede Nacional de Cuidados Continuados ou num lar de terceira idade.

No caso da diabetes tipo 1, o rastreio é realizado cinco anos após a doença ser diagnosticada, já na diabetes tipo 2 o rastreio é realizado imediatamente após o diagnóstico.

Através desta avaliação precoce, a ARSLVT conseguiu reduzir drasticamente, em 50%, num ano, a incidência de RD graves. “Desta forma, estamos a evitar custos pessoais para os utentes, bem como a promover a eficácia do tratamento ao nível dos serviços de Oftalmologia”, frisou a responsável do rastreio.

De salientar que o rastreio da RD está implementado nos 15 ACES e em todas as unidades de saúde da ARSLVT (mais de 400).  Note-se que, no ano passado, de um total de 259.388 mil utentes com diabetes na ARSLVT foram rastreados 74.744 mil, dos quais 10,6% foram encaminhados para uma consulta de Oftalmologia, 4,7% com o diagnóstico de RD.

De acordo com os dados estatísticos da ARS, verificou-se uma melhoria significativa ao nível do número de rastreios realizados em 2016, pela via do alargamento do projeto a todos os ACES. Em 2016, foram contabilizados 47.784 rastreios, dos quais 7,0% foram encaminhados para uma consulta de Oftalmologia especializada em RD.

Este ano, o objetivo é ultrapassar os 80 mil rastreios, o que representa rastrear 30% dos doentes diabéticos da Região. Com o aumento da adesão, aspiramos erradicar, a médio prazo, a cegueira por RD na Região. 

Para Carolina Santos, a lógica de proximidade entre os vários organismos no terreno [CSP, hospital e ARS] é um dos principais benefícios do projeto desenvolvido pelo ACES Almada-Seixal, em articulação com o HGO e o NOA. “A mais-valia está na verdadeira integração de cuidados, o que significa que não há descontinuidade no percurso do doente dentro do SNS”, frisou.

Recordando o III Encontro Nacional das Unidades Coordenadoras Funcionais da Diabetes, que decorreu em março último, Armando Braz sublinhou a importância da articulação do programa nacional da Diabetes, com os programas de alimentação e atividade física. Falou-se, ainda, da necessidade de reforçar os recursos humanos, com o objetivo de alcançar um rastreio de base populacional de RD, eficaz e equitativo, a nível nacional.

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Editorial | Jornal Médico
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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