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Walk With a Doc: uma caminhada por mês para promover a literacia em saúde
DATA
15/02/2019 11:58:52
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Jornal Médico
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Walk With a Doc: uma caminhada por mês para promover a literacia em saúde

Quem olha o passo acelerado de Alfredo Basílio, dificilmente sabe que quase oito décadas já lhe passaram pelos pés.

Antigo cobrador da Companhia das Águas de Lisboa, subiu e desceu muita escadaria da antiga capital desprovida de elevador. Somam-se 20 anos como árbitro de futsal e mais 15 de hóquei. Agora, caminha ao lado da sua mulher, juntamente com mais participantes, na iniciativa Walk With a Doc.

Cristiano Figueiredo não se recorda ao certo como a iniciativa Walk With a Doc lhe chegou ao Facebook, mas logo percebeu que “seria interessante implementar no nosso país”. O especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) da Unidade de Saúde Familiar (USF) da Baixa, em Lisboa, é um dos coordenadores do projeto e afirma que o objetivo é múltiplo: desde “ajudar a desbloquear algumas pessoas para a prática de atividade física, aproveitar o momento para educá-las em questões de saúde até à promoção do convívio, benéfico para a saúde mental”. A iniciativa consiste, nada mais, que numa conversa de meia hora, seguida de uma caminhada em grupo. Acontece todas as últimas quartas-feiras do mês, às 18 horas. Em cada edição existe um tema explicado e discutido desde o início da conversa até ao final do percurso. Sem inscrição e sem burocracia. Basta aparecer!

“Sempre tentámos que as caminhadas fossem o mais abrangente possíveis”, mas acabam por vir, “essencialmente, pessoas idosas ou adultos com mais de 40 anos”. Há ainda uma “preocupação constante” em chegar à comunidade de imigrantes (que constitui uma grande fatia da população abrangida pela área geográfica da USF da Baixa), algo “difícil por ser um tipo de população ativa, com horários de trabalho com mais de 12 horas diárias, incompatíveis com a iniciativa”.

Independentemente do número de pessoas ou das condições climatéricas, a caminhada realiza-se. Na USF da Baixa, a sala esperava os participantes com maçãs e águas para quem se quisesse servir. O tema do mês de janeiro foi “A constipação”, tendo sido abordados os mitos, as diferenças em relação à gripe e a vacinação. Com direito a uma viagem até ao Largo de São Carlos…

“Temos a sorte de estar localizados no centro de Lisboa, pelo que este acaba por ser um passeio histórico e turístico. De certa forma, damos a descobrir a cidade aos que vivem e trabalham nela e que, por motivos vários, nunca a exploraram”, salienta o médico da unidade. Alfredo Basílio alertou, para quem quisesse ouvir, que a Rua da Conceição onde passavam era a antiga Rua da Retrosaria. A chuva – miúda, mas constante – não deixou parar e olhar. A fileira de guarda-chuvas tentava desviar-se das poças de água enquanto seguia o “Capitão”, figura escolhida pelos colegas para designar o percurso. À chegada, procurou-se abrigo nas arcadas do Teatro São Carlos: contavam-se 24 minutos de caminhada e dois quilómetros percorridos. No largo, explicava Cristiano Figueiredo, tinha nascido Fernando Pessoa e, pelos vistos, também o poeta se constipava. O médico da unidade leu o poema “Tenho uma grande constipação”, de Álvaro de Campos, mas pela dor “indistinta” de cabeça e por só querer estar na cama, “não estava constipado, estava com gripe”, diagnosticou, entre gracejos. Para além de saudável, a atividade é ainda vincada por uma vertente cultural. “Um dos participantes, que trabalha na Mouraria há 20 anos, nunca tinha visitado o Castelo [de São Jorge] até termos ido lá”, conta o médico. “Existe uma componente de atividade física, mas também de integração que não pode ser descurada”, refere.

“Promovemos a caminhada como sendo um evento para a comunidade, independentemente de serem nossos utentes ou não”, explica o profissional de saúde ao Jornal Médico. “Temos conseguido manter um grupo de 20 pessoas, sendo que há um núcleo que vem sempre, cujos participantes já se tratam pelo nome próprio e se cumprimentam quando entram na sala”.

O acompanhamento e a promoção da literacia em Saúde não se fazem apenas nesta iniciativa nesta USF lisboeta. Para além do Walk With a Doc, existe também a Prescrição Social Lisboa, projeto “que procura responder a problemas sociais dentro da consulta médica e de enfermagem, criando uma rede de recursos na comunidade aos quais a pessoa pode recorrer através de referenciação”. Junta-se, ainda, o bengalisboa Community Health Project, “uma iniciativa de saúde comunitária, criada em 2016, com o objetivo de melhorar os cuidados de saúde prestados à comunidade imigrante do Bangladesh residente na cidade de Lisboa”.

Cristiano Figueiredo confessa que o ingrediente-chave para o sucesso na implementação das iniciativas é a diferença e a liderança horizontal. “Todos [médicos e restantes profissionais de saúde da equipa da USF da Baixa] temos características diversas, contributos distintos para a equipa, com personalidades bastante diferentes, mas focadas no mesmo: prestar bons cuidados de saúde, sendo proactivos e inovadores”, conta, acrescentando que “todas as pessoas são ouvidas e todas têm uma palavra a dizer”.

De volta à USF da Baixa, o balanço foi positivo: quase 3,8 quilómetros trilhados e quase 50 minutos de caminhada. Só esperamos que a chuva e o tempo frio da edição de janeiro não nos tenham deixado com uma “grande constipação”, mas, caso aconteça, já saberemos como a tratar.

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Editorial
Rui Nogueira
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“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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