Jornal Médico Grande Público

Rui Oliveira Soares: “A tricologia tem tido um crescimento exponencial dentro da dermatologia”

É o ramo da dermatologia com foco nas doenças da pele do couro cabeludo, muitas das quais têm reflexo na haste pilosa (cabelo).

Tem técnicas próprias, como a tricoscopia (ver o couro cabeludo e os cabelos em aumento), o tricograma e o fototricograma (permitem avaliar a fase do ciclo em que os cabelos estão, a espessura e o crescimento do cabelo) e outras, comuns à dermatologia, como a biópsia cutânea.

A tricologia tem tido um crescimento exponencial dentro da dermatologia. Isto deve-se a um melhor entendimento do processo patológico, mas sobretudo ao advento da tricoscopia. Esta técnica permite uma acuidade diagnóstica que ultrapassa em muito a correspondente à visualização do couro cabeludo e dos cabelos a olho nu, aproximando-se da acuidade do gold standard no diagnóstico em dermatologia, que continua a ser o exame histológico.

Quanto a medicamentos novos, os JAK-inibidores podem representar uma abordagem nova em algumas doenças, como a alopécia areata. Inibir a regulação negativa de diferenciação/proliferação de células pluripotenciais do bulge ou das células da papila dérmica (interferindo na via Wnt/beta-catenina) pode ser ferramenta útil de uma forma geral nas doenças que afetam o cabelo. O seu mecanismo pouco específico configura mais uma otimização geral que um tratamento específico. Também os avanços em técnica cirúrgica de transplante têm causado uma pequena revolução no tratamento. Finalmente, abre-se lentamente a porta para o uso eficaz de células pluripotenciais, que nos poderiam trazer, em algumas décadas, uma fonte inesgotável de folículos.

Esta Reunião da Primavera da SPDV integrou um curso de tricologia e patologia ungueal. Contámos com o Professor Eckart Haneke, referência mundial na histopatologia dos anexos, e com o Professor Juan Ferrando, que ensinou tricologia a alguns de nós e nos veio falar do sempre difícil tema das displasias da haste pilar. Grande enfoque foi dado à tricoscopia e como esta nova arma diagnóstica revolucionou a nossa prática. Além da óbvia utilização no diagnóstico, abordaram-se recentes novas aplicações, como prever a resposta terapêutica na alopécia areata, monitorizar essa resposta, bem como o seu papel como importante adjuvante no transplante de cabelo. No transplante, permite excluir doença cicatricial, avaliar a qualidade da área dadora, planear o transplante, detetar prontamente complicações, bem como monitorizar o resultado do próprio transplante e de tratamentos adjuvantes. No capítulo do tratamento, focaram-se abordagens novas na alopécia androgenética, nomeadamente o uso de minoxidil oral, finasterida e dutasterida em mesoterapia, plasma rico em plaquetas e lasers. O curso de tricologia e patologia ungueal dirigiu-se, não aos que se dedicam a sua atividade quase em exclusivo a estes temas, mas antes a todos os dermatologistas.

A melhor preparação de todos os dermatologistas nestes temas é a melhor forma de combater a vaga de “podólogos” e “tricologistas” não médicos e/ou não dermatologistas que florescem como cogumelos e lesam, por vezes de forma irreparável, os doentes.

 

Saúde Pública

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