Plataformas de Apoio à Decisão Clínica
DATA
03/10/2019 11:47:20
AUTOR
Jornal Médico
Plataformas de Apoio à Decisão Clínica

Uma nova era para o SNS

O projeto Sistemas de Apoio à Decisão Clínica (SADC) é uma parceria entre a Ordem dos Médicos (OM) e o Ministério da Saúde. Apresentado no final do mês de junho e com data de arranque marcada para outubro, o SADC tem como principal objetivo proporcionar informação clínica de alta qualidade a qualquer momento para suporte às decisões assistenciais, às atividades de educação pós-graduada e ao desenvolvimento profissional contínuo dos profissionais de saúde. Visa ainda dar apoio às decisões de gestão em saúde, às políticas do setor, ao mesmo tempo que procura aumentar a literacia em saúde dos cidadãos.

“O projeto SADC parte de uma proposta feita pela OM à tutela, há aproximadamente um ano, e serve três objetivos fundamentais. O primeiro é o apoio à decisão clínica, fundamental no mundo de hoje, em que a informação científica se desenrola muito depressa e é difícil aos médicos tomarem as melhores decisões sem terem acesso à informação clínica atualizada – e isto aplica-se também aos outros profissionais de saúde porque estas plataformas servem não só os médicos, como também a farmacêuticos, enfermeiros, etc. e doentes; o segundo objetivo é a formação e desenvolvimento profissional contínuo; o terceiro, mais alargado e particularmente importante, é a melhoria da literacia digital em saúde e em português”.

A explicação foi avançada pelo bastonário da OM, Miguel Guimarães, na sessão de apresentação do projeto SADC, que decorreu na sede da OM, em Lisboa, tendo o mesmo acrescentado que “a informação fidedigna e (para os doentes) em português é uma necessidade, sendo cada vez mais procurada, tanto por profissionais de saúde, como pelos próprios doentes, com o objetivo de desenvolverem conhecimentos mais avançados sobre as suas patologias, tornando-os um elemento ativo na prevenção e tratamento das mesmas”. 

De acordo com o responsável da OM, “num país onde a utilização de sistemas informáticos e sobretudo da Internet é tão elevada, este projeto pode de facto ter um impacto global importante na área da saúde pública – por exemplo, no campo da vacinação, onde a informação pode ajudar a competir a atual e crescente tendência antivacinação”.

O acesso a este género de plataformas permite a tomada de decisão de acordo com as boas práticas e guidelines internacionais, independentemente do local de acesso do profissional de saúde, sublinhou Miguel Guimarães, notando que esta é uma forma de fazer frente à variabilidade na prática clínica, que foi um dos oito grandes desafios definidos pela administração Obama.

O bastonário concluiu que “este é um investimento na saúde, no conhecimento científico, na evolução científica e na formação médica portuguesa”.

 

UpToDate, DynaMed Plus, BMJ Best Practice e Cochrane Library: Transparência da informação e facilidade de uso

O coordenador do projeto SADC, António Vaz Carneiro, apontou o racional para esta iniciativa da OM: "Publicam-se dois milhões de artigos por ano, sete mil por dia, ou seja, cinco por minuto… Assim sendo, o que deve o médico realmente ler no meio de toda esta informação”.

De acordo com o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, “um médico com 18 doentes internados, tem de lidar com mais ou menos 60 diagnósticos e se quiser ler as normas de orientação clínica pertinentes aos seus doentes, teria de gastar 126 horas por dia a uma média de mais de quatro mil páginas diárias”. Pelo que, advoga: “Este é um problema sério! Ainda para mais é difícil localizar informação relevante de qualidade, quanto mais aplicá-la! O desafio aqui está em perceber onde é que está a informação de alta qualidade, localizá-la, avaliá-la criticamente, sintetizá-la e disponibilizá-la pronta à utilização”. 

Com o exercício da Medicina cada vez mais focado no doente e na promoção da sua autonomia, "os doentes tornaram-se cada vez mais satisfeitos com os cuidados prestados, mas nem tudo são vantagens, existem por vezes algumas dificuldades de comunicação, onde também estamos a trabalhar, fazendo uma translação do conhecimento para um nível de linguagem acessível a todos. Uma mensagem que gostaríamos de dar aos nossos concidadãos é que a partir deste momento têm uma fonte de informação fidedigna e não necessitam de ir à Internet”, sublinhou António Vaz Carneiro. 

Para o especialista, “o grande enfoque do projeto é que esta ferramenta seja de fácil operacionalização e que a utilização possa ser feita quando estamos junto dos doentes”. Quanto aos sistemas de apoio à decisão selecionados, “a transparência da metodologia, a qualidade da informação e a facilidade de uso foram as variáveis com mais peso na decisão”, esclareceu. 

Os quatro sistemas de apoio à decisão selecionados pelo projeto são o UpToDate, o DynaMed Plus, o BMJ Best Practice e a Cochrane Library.

Vaz Carneiro explicou também a natureza do conteúdo presente em cada um dos softwares e o nível de aplicação prática na assistência clínica direta: "A UpToDate é um sistema onde a informação se encontra em bruto, é muito detalhada e em texto corrido. Pode ser considerado o software mais completo de todos e a aplicação direta é moderada a alta. A DynaMed Plus sintetiza e estratifica em bullets a informação, fornecendo a evidência de base muito detalhada e a sua aplicação direta é bastante elevada. A BMJ Best Practice é um software muito completo com evidência de base selecionada e referenciada e com uma alta aplicação direta. Por fim, a Cochrane Library apresenta revisões sistemáticas da literatura sobre intervenções terapêuticas (diagnósticas e prognósticas), com uma aplicação direta moderada a alta”.

 

Combater o movimento anticientífico e aumentar a literacia

No entender do coordenador do projeto SADC, a baixa literacia em Saúde está associada a um aumento da taxa de complicações e também a um aumento da taxa de mortalidade em idades mais avançadas. “Se pesquisarmos o número de sites sobre saúde na Internet há qualquer coisa como cinco biliões, onde existem mensagens fraudulentas do ponto de vista técnico-científico e onde o impacto nas decisões dos doentes é muitas vezes negativo, o que promove uma posição anticientífica em que se trata tudo como semelhante”, afirma o coordenador do projeto PADC.

A este propósito, Vaz Carneiro aproveitou a ocasião para partilhar os seus receios relativamente às terapias alternativas: “O que aí vem não é bonito! Na minha opinião, as terapias alternativas vão entrar no SNS como valências iguais às outras e vamos estar a ter uma consulta de cardiologia e na sala ao lado medicina tradicional chinesa, sem que ninguém questione a nulidade científica desta opção”.

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