Livro sobre relação médico-doente desafia UNESCO a considerá-la Património Cultural Imaterial da Humanidade
DATA
27/11/2019 15:02:27
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS




Livro sobre relação médico-doente desafia UNESCO a considerá-la Património Cultural Imaterial da Humanidade

O livro “A relação médico-doente: Um contributo da Ordem dos Médicos” foi lançado na segunda-feira, com um momento musical e depoimentos sobre a obra, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Composto por 81 testemunhos e reflexões sobre a valorização e preservação da relação e dimensão humana da medicina, o objetivo do livro, publicado pela editora By The Book, é “elevar esta relação milenar” a Património Cultural Imaterial da Humanidade, da UNESCO.

 “É antiga, com tradição firme, em constante transformação, mas renovada e sempre permanente”. É assim que o sociólogo António Barreto descreve a relação entre médico e doente, afirmando não haver equivalente, apesar de reconhecer outros intervenientes na área da saúde. Por considerar que está propensa à dependência do doente pelo médico, o orador afirma que a desigualdade entre médico e doente deve ser evitada, promovendo a “autonomia, liberdade de escolha e decisão informada do doente”. Neste contexto, relembra ainda o juramento de Hipócrates, o mais antigo do mundo – com mais de 2500 anos –, que compromete estes especialistas a “tratar todos da mesma maneira”.

Resultado de um esforço conjunto que se iniciou há um ano e meio, o médico José Poças esclarece que a obra “não será candidata a nenhum prémio”, o que não impossibilita que seja um projeto de “reflexão plural dos membros da classe e de outros membros relevantes para esta visão holística”. Baseado em valores de “coragem, isenção e celeridade”, o objetivo do livro só será “atendido se for compreendido pelos doentes e pelos decisores políticos”, declara.

Destacando o papel do médico como “defensor dos doentes”, cujo chamamento para “socorrer o seu semelhante” pode estar presente em todas as etapas da vida até à morte, José Poças assegura que a medicina é tanto arte como ciência: “é uma arte no modo de relacionamento, na anamnese e na abordagem das emoções, mas aspira a utilizar a ciência, não se reduzindo a ela”.

No âmbito desta apresentação, foram ainda abordados alguns dos atuais desafios, os quais, não sendo o foco do trabalho desenvolvido, estão patentes. Entre eles destacam-se o impacto tecnológico na profissão e nos utentes, mais ávidos e exigentes no respeitante à informação, as pressões administrativas e burocráticas, o peso das medicinas alternativas, o sensacionalismo dos média, e a abundância de fontes não fidedignas de informação acessíveis facilmente.

“A relação médico-doente está a sofrer uma pressão exagerada naquilo que é a produção de números, nomeadamente consultas e cirurgias, o que significa na prática dar pouco tempo aos médicos e doentes para conversarem. Isto é péssimo”, afirma o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, aos jornalistas. O responsável apela ainda aos utentes que se pronunciem, através das associações de doentes, sobre os regulamentos de tempos padrão para consultas e exames.

Nesse sentido, terminou a sessão de lançamento deixando algumas ideias chave sobre o contributo desta obra. Invocando o apelo do Papa Francisco ao cultivo das relações humanas, que estão “a ser ultrapassadas ou desprotegidas”, o representante deste grupo profissional afirma ser necessário haver “mais humanização, compaixão e entendimento entre as pessoas, evitando que estas fiquem bloqueadas na tecnologia”.

Para além disso, o objetivo do livro também é desafiar UNESCO a “dar este passo de valorizar as relações humanas” ao reconhecer a interação médico-doente como património. Para isso, Portugal está a abordar outros países para assinarem o documento, por forma a facilitarem o processo de aprovação, já que o bastonário considera não haver um “apoio do Estado, que está a desvalorizar a questão”. Por fim, Miguel Guimarães comenta que as tecnologias podem ser aliadas, mas não devem ocupar o espaço dos médicos: “devem ser integradas a nosso favor e nunca contra nós” pois a relação médico-doente é “o último reduto”.

2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos
Editorial | Rui Nogueira
2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos

Este ano está quase a terminar e uma nova década vai chegar. O habitual?! Veremos! Na saúde temos uma viragem em curso e tal como há 40 anos, quando foi fundado o Serviço Nacional de Saúde (SNS), há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções.

Mais lidas