ESC ATLAS: Portugal está entre os piores países europeus em relação ao AVC
DATA
21/01/2020 11:51:31
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS




ESC ATLAS: Portugal está entre os piores países europeus em relação ao AVC

Os resultados da segunda edição do estudo Atlas da Sociedade Europeia de Cardiologia (SEC) foram apresentados ontem na sede da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), em Lisboa. No panorama cardiológico, Portugal tem como grande desafio o “impacto do acidente vascular cerebral na mortalidade, anos de vida perdidos ajustados por incapacidade, anos de vida vividos com incapacidade e anos de vida perdidos”, onde os resultados são “claramente insatisfatórios”. A análise resulta da comparação com 51 países, incluindo todos os da Europa e alguns de África do Norte, Golfo Pérsico e antiga União Soviética.

Responsável por apresentar os resultados, o coordenador do Gabinete de Estudos da SPC, Sérgio Baptista, delineou um perfil da realidade portuguesa. Relativamente aos fatores de risco, afirmou que há uma situação a melhorar quanto à obesidade e tabagismo, desafios já “conhecidos” no respeitante à hipertensão e aos hábitos alcoólicos e, como “piores indicadores e com intervenção a fazer”, o sedentarismo e a diabetes. Sobre o último fator, o orador referiu que, comparando com países com dieta semelhante à nacional, por exemplo, a França, Portugal apresenta quase o dobro da diabetes.

Perante estes dados, há necessidade de fazer “a tradução em termos de saúde cardiovascular”. Logo, Sérgio Baptista afirmou que Portugal mostra resultados “francamente positivos” quanto à esperança média de vida e quanto ao impacto da doença coronária na mortalidade, anos de vida perdidos ajustados por incapacidade, anos de vida vividos com incapacidade e anos de vida perdidos. No documento lê-se ainda que Portugal também apresenta “resultados bons” quanto ao impacto da doença cardíaca hipertensiva.

Não obstante, Portugal tem taxas de mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC) superiores às de todos os países da Europa ocidental – na globalidade, está em 25ª posição entre as mulheres e em 28ª entre os homens. O coordenador refere que, “em termos de AVC, é preciso intervenção” por forma a reduzir o impacto na mortalidade, mas também nos anos de vida perdidos e na vivência com incapacidade.

Ciente deste panorama, o representante da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Guilherme Gonçalves Duarte, durante a intervenção, focou a necessidade de “promoção de saúde e prevenção da doença”, confirmando as palavras do coordenador científico da SPC, Jorge Ferreira, de que o controlo dos fatores de risco – procurando atingir os objetivos traçados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – é a melhor forma de prevenir as doenças cardiovasculares.

A nível de recursos, verifica-se que Portugal tem, em comparação com os outros países, um número elevado de hospitais com aparelhos de TAC e Ressonância Magnética Nuclear, embora não se incida sobre o potencial desgaste da tecnologia, e de hospitais a implantar pacemakers permanentes, desfibrilhadores, sistemas de ressincronização cardíaca e procedimentos de eletrofisiologia, mas apresenta um déficit de hospitais com camas de Cardiologia e de Cuidados Intensivos Cardíacos, bem como de programas de reabilitação cardíaca intra e extra-hospitalar. Analisando a componente humana, o estudo indica um número suficiente/excessivo de médicos e um número adequado de cirurgiões cardíacos, de cardiologistas e de eletrofisiologistas, ao mesmo tempo que aponta para um “número claramente deficitário de enfermeiros” e um desequilíbrio entre as subespecialidades de Cardiologia, com falta de Cardiologistas de Intervenção, que potenciam procedimentos minimamente invasivos.

“Portugal produz – com menos recursos – melhores resultados clínicos”, afirmou Guilherme Gonçalves Duarte. Destacando como aspeto positivo o desenvolvimento de Programas de Saúde Prioritários, o orador argumentou que Portugal precisa de investir na saúde, através de “ações de criação de valor” e da aposta também na prevenção terciária, “fundamental na redução da morbilidade e dos custos”, sociais e económicos.

A sessão de apresentação terminou com o depoimento do Secretário de Estado da Saúde, António Sales, que realçou a “responsabilidade de refletir o presente e de projetar o futuro”, sublinhando que “300 mil anos de vida saudáveis podiam ser poupados se os portugueses tivessem melhores hábitos de vida”. A aposta estratégica numa nova abordagem à prevenção, “desde os primeiros anos de vida”, no reforço dos recursos humanos – “a joia da coroa do SNS” – e na literacia em saúde são alguns dos exemplos mencionados. Adicionalmente, refere a importância de “envolver todos os intervenientes e aproveitar o trabalho desenvolvido pelos diversos atores” para tornar o “SNS mais justo e inclusivo para que responda às necessidades da população”.

O debate ficou marcado pelos comentários de diferentes médicos especialistas, desde pontos referentes ao facto de ser imperativo resolver desigualdades entre o litoral e interior e articular de forma mais eficiente e produtiva a relação entre diferentes profissionais de saúde e especialidades, visando uma partilha de conhecimentos que favoreçam os doentes, até à necessidade de reforçar os recursos humanos para colmatar o problema das listas de espera. Um dos assuntos destacados transversalmente teve a ver com a organização e a gestão dos recursos, sendo que vários intervenientes acreditam que, trabalhando em conjunto com a tutela e associações científicas, os próximos resultados do estudo podem ser mais positivos.

800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde
Editorial | Jornal Médico
800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde

Se não os tivéssemos seria bem pior! O reforço do Programa Operacional da Saúde com 800 milhões de euros pode ser entendido como sinal político de valorização do setor da saúde. Será uma viragem na política restritiva? O Serviço Nacional de Saúde (SNS) de 40 anos precisa de cuidados intensivos! Há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções. É urgente pensarmos na nova década com rigor e disponibilidade sincera.

Mais lidas