Fazer da insuficiência cardíaca uma prioridade nacional

Atualmente, a insuficiência cardíaca (IC) afeta cerca de 380 mil pessoas em Portugal e as estimativas apontam para que, em 2060, acometa um número superior, atingindo as 500 mil. Perante este cenário, o Grupo de Estudos de Insuficiência Cardíaca (GEIC), da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), organizou, num apelo à ação, o colóquio “Tempo de Agir – Portugal, 400 mil doentes com IC: organizar, AGORA!”, no passado dia 24 de janeiro, em Lisboa.

Os números da IC pesam não apenas pela incidência crescente. Em termos de prognóstico, verifica-se que a IC é responsável pela morte de metade dos doentes nos cinco anos após o diagnóstico. A taxa de mortalidade é superior à dos cancros mais comuns – mama, próstata, cólon, leucemia. A nível económico, a IC representa 2,6% da despesa pública em saúde, sendo a segunda maior causa de dias de utilização de camas hospitalares em Portugal, com 182.512 dias de internamento.

O debate, marcado pela presença de intervenientes de diversos setores – médicos, associações de doentes, entidades governamentais –, teve como objetivo desafiar os participantes a discutir os principais obstáculos e apresentar soluções e estratégias capazes de impulsionar a mudança.

“O que é a IC?”: O desconhecimento em torno da patologia como problema de fundo

“O mais premente é a questão do conhecimento, que é fundamental. Quando não há conhecimento, não há motivação para a ação”, referiu o médico e coordenador do GEIC, José Silva Cardoso. Embora, no geral, os participantes tenham concordado com a necessidade de colmatar este problema de fundo, a tónica é colocada em diferentes setores-alvo.

Com ênfase no facto de haver um desconhecimento geral em relação à IC – confundível com outras doenças –, uma das mensagens-chave da sessão foi a importância de informar a população e desenvolver mais iniciativas e campanhas de proximidade e de sensibilização do público. Na visão da representante da HF-PN/Universidade Católica, Sara Marques, a população tem tendência para “minimizar os sintomas da IC, que são inespecíficos, e não procurar a ajuda de um profissional de saúde”. Por isso, não obstante o impacto das campanhas, que acredita ser crescente, Sara Marques afirmou que “longo é o caminho para que reconheçam a IC e se arranje um modelo capaz de dar resposta à problemática”.

Nesse sentido, foi abordada a necessidade de uma “estratégia focalizada e massiva de colocar na opinião pública o tema da IC”, acrescentou o presidente da Associação de Apoio aos Doentes com IC (AADIC), Luís Filipe Pereira. Ter um alvo e saber como tratar e divulgar/difundir a informação, jogando a nível de probabilidades e adequando ao meio e ao público, são dois aspetos de relevância. Adicionalmente, referiu que, a par da prioridade de informar, também é importante “chamar a atenção para o facto de os indivíduos serem ou poderem ser atores na gestão da sua própria saúde”.

Apesar de considerar a sensibilização uma abordagem importante, o presidente da SPC, Victor Gil, declarou que não é a maior “guerra” a travar. Para defender a sua posição, argumentou que nem sempre as pessoas são recetivas à informação (razões sociais, culturais) e que os indivíduos, perante sintomas de muito cansaço, de falta de ar e de inchaço, só não vão ao médico se não tiverem acesso, independentemente do conhecimento que tenham sobre IC. Ressalvou ainda que o sedentarismo, muito prevalente em Portugal, pode levar à expressão de sintomas comuns à IC, induzindo em erro. “Mais do que o problema de awareness da população, falta capacidade de organização, de trabalhar em conjunto, complementaridade e acesso”, fincou.

Acompanhar o doente com IC: acessibilidade, organização e articulação dos cuidados

“Os cuidados multidisciplinares e integrados são a espinha dorsal do acompanhamento destes doentes”, sustentou José Silva Cardoso. O apelo à integração dos níveis de cuidados de saúde (primários e hospitalares) e à colaboração por parte de vários profissionais de saúde em equipa de IC – médico de família (MF), cardiologista, internista, enfermeiro, farmacêutico – vem no sentido de prevenir “hiatos na transmissão do conhecimento e da informação” e de prestar cuidados ao doente de forma mais abrangente. Isto significa, como explicou, atuar desde o primeiro momento, a referenciação, mas também na prevenção de internamentos por IC, cuja mortalidade intra-hospitalar – 12,5% – é superior à do internamento por enfarte agudo do miocárdio (EAM)”, através da intervenção precoce na acumulação de líquidos, e nos cuidados de transição. Adiantando que, em todo o processo, “é importante haver um registo clínico eletrónico acessível a estes intervenientes e reconciliação terapêutica”, referiu como pontos-chave a “fluidez e integração dos cuidados e o acesso aos cuidados e à informação”, o que exige, nas suas palavras, “capacidade de ceder protagonismo e colaborar de forma harmoniosa”.

No seguimento desta tentativa de articulação de cuidados, o cardiologista Victor Gil destacou o papel do especialista de Medicina Geral e Familiar (MGF) na abordagem da IC, ao afirmar que é necessário, “em primeiro lugar, garantir prontamente, aos doentes que têm sintomas, um acesso aos serviços de saúde e, em particular, ao MF”.

Em destaque: o papel dos especialistas de MGF

Uma parte dos casos de IC surge na sequência de EAM, cujo desfecho é, com frequência, a disfunção ventricular. Como “a esmagadora maioria” destes eventos é detetada em ambiente hospitalar, os indivíduos são identificados e sinalizados, pelo que, “em princípio, terão acompanhamento”, elucidou Victor Gil. Todavia, a IC também se pode desenvolver no decorrer de casos de hipertensão arterial mal controlada, do envelhecimento e, em casos mais raros, de doenças valvulares, que nem sempre estão identificadas, também pela dificuldade de deteção.

Apesar de considerar que o acesso aos cuidados de saúde estar a “melhorar drasticamente”, tal como a qualidade dos especialistas de MGF, o presidente da SPC reforçou a necessidade de o MF observar o doente – dando o exemplo das “estenoses aórticas, que se diagnosticam por uma simples auscultação” –, e desafiou estes especialistas a fazerem diagnósticos clínicos. Sobre esta questão, referiu que o médico de família, face a sintomas de IC, deve avaliar a potencial presença da patologia tendo em conta o seguinte: quando o doente apresenta fração de ejeção diminuída, isto é, “contractilidade do coração diminuída, está feito o diagnóstico”; se a fração de ejeção estiver preservada, então diagnosticar é mais difícil. Aquando o último caso, o cardiologista informou que se tenta detetar um sinal de “dilatação da aurícula esquerda” para ajudar no processo diagnóstico e, em caso de IC, como não se consegue “melhorar o prognóstico”, prescrevem-se diuréticos para alívio da sintomatologia.

Ademais a necessidade de estar alerta para os sintomas de IC, o painel concordou ser imperativo garantir o acesso a testes de diagnóstico. No referente a este ponto, a representante da Heart Failure Association (HFA), da Sociedade Europeia de Cardiologia, Brenda Moura descreveu o ecocardiograma como “a melhor arma diagnóstica”, salvaguardando, contudo, que é necessário fazer uma boa interpretação. Victor Gil salientou ainda o papel do raio x e do eletrocardiograma, lembrando que “continua a estar nas guidelines que um eletrocardiograma normal dificilmente é compatível com um diagnóstico de IC significativo”. De forma não tão consensual, foi referido por Sara Marques o teste de despiste/exclusão de IC – o doseamento de péptidos natriuréticos – por ser elaborado através de uma análise de sangue e de fácil interpretação.

Incluir decisores políticos e apresentar potenciais soluções

A sensibilização não se deve restringir ao público em geral e à comunidade médica. Em consonância com esta ideia, Brenda Moura realçou que o tema “tem de ganhar volume”, assentindo que falta “penetração no setor político” para possibilitar uma estratégia coerente e articulada para a prestação de cuidados de saúde.

“Há uma multiplicidade de solicitações e os recursos são escassíssimos”, declarou o presidente da AADIC, como forma de explicar que os constrangimentos nas decisões políticas são uma realidade. Luís Filipe Pereira expôs que, por esse motivo, é necessário “decidir com base em evidência”, racionalmente. Para o coordenador do Programa Nacional para as Doenças Cerebro-Cardiovasculares da DGS, Filipe Macedo, uma boa opção, a nível de recursos, é investir na telemedicina, telemonitorização e na hospitalização domiciliária.

Tendo presente o objetivo da sessão – contribuir para reverter o cenário da IC, fazendo dela uma prioridade nacional –, o presidente da SPC insistiu na necessidade de não se “baixar a guarda na área cardiovascular” e de se continuar a investir no combate à IC. Sublinhando a importância deste tipo de reuniões, José Silva Cardoso concluiu ser essencial “haver um movimento multidisciplinar que envolva médicos, decisores políticos e os doentes” para, em conjunto, se estimular o conhecimento, se influenciar as decisões e se “atuar com urgência”.

Doença Venosa

Isolamento social com apoio de proximidade e em segurança
Editorial | Jornal Médico
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O futuro tem hoje 5 dias! Inacreditável! Quem é que tem agenda para mais de 5 dias? A pandemia COVID-19 alterou profundamente a vida quotidiana, a prestação de cuidados de saúde e a organização dos serviços de saúde está totalmente alterada. O isolamento social é a orientação primordial de confrontação da pandemia. Mas é necessário promover o apoio de proximidade essencial e aprender a fazê-lo em segurança.

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