Serviços de saúde adaptam-se e garantem resposta às necessidades dos utentes através de videoconsultas
DATA
08/04/2020 12:32:32
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Jornal Médico
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Serviços de saúde adaptam-se e garantem resposta às necessidades dos utentes através de videoconsultas

Adaptação é, sem sombra de dúvida, a palavra de ordem nos tempos que correm, em que o distanciamento social imposto pela pandemia de Covid-19 está a alterar a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Os serviços de saúde – “no olho do furacão” da infeção pelo SARS-CoV-2 – não são exceção a esta imperiosidade de ajuste. Com o dever ético de responder às necessidades dos seus utentes, mas também de garantir a segurança de todos os intervenientes na prestação de cuidados, as unidades estão a apostar na prática assistencial remota, através de videoconsultas.

“Ainda não temos equipamentos de proteção individual e é perigoso para nós e para os doentes assumirmos o contacto direto numa consulta presencial”.

O alerta parte do médico de família (MF) e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Rui Nogueira, que face à pandemia de Covid-19 defende que “os centros de saúde (CS) devem atender as pessoas de porta fechada, sendo as consultas substituídas por avaliações sumárias por telefone”.

Estas são algumas das recomendações plasmadas num documento intitulado “Pede-se rigor, rapidez e radicalismo em medidas corajosas” que o também coordenador de Internato em Medicina Geral e Familiar (MGF) da Região Centro fez chegar à agência Lusa, no passado dia 27 de março. “O contacto direto com doentes com suspeita ou já com diagnóstico de Covid-19 – e ainda assim com as devidas precauções e proteções – apenas deveria ser possível nas áreas dedicadas a este atendimento”, refere Rui Nogueira, preconizando que “todos os outros doentes beneficiam mais e correm menos riscos se forem contactados por telefone pelo seu médico”.

Face aos atuais constrangimentos, medidas e recomendações para a prevenção do contágio da Covid-19, os serviços de saúde vêem-se forçados a adaptar a sua prática assistencial de forma a poderem continuar a responder às necessidades dos seus utentes. Para tal, começam a virar-se para uma prática assistencial remota, nomeadamente através de videoconsultas.


Disponibilização de teleconsulta em toda a rede CUF

É o caso das unidades de saúde que integram a rede CUF que, desde o passado dia 24 de março, passaram a disponibilizar a opção de teleconsulta, por videoconferência, aos médicos da sua rede, de norte a sul do país.

Num comunicado enviado à nossa redação, a José de Mello Saúde (JMS) esclarece que “a opção de teleconsulta estará disponível nas várias especialidades, para todas as situações compatíveis com a prestação de cuidados de saúde à distância”, estando as especialidades de MGF, Medicina Interna e Pediatria “disponíveis desde o arranque”. E justifica: “a disponibilização do serviço de teleconsultas revela-se uma ferramenta valiosa para assegurar a continuidade dos cuidados aos doentes habitualmente seguidos nas unidades CUF, para todos os casos em que a mesma seja clinicamente adequada”.

A marcação de teleconsultas na rede CUF poderá realizar-se através do site, da app My CUF ou do telefone – “canais através dos quais os clientes poderão consultar se o seu médico se encontra disponível nesta modalidade”, avança a instituição. Para poderem realizar uma teleconsulta, os clientes devem assegurar que têm um dispositivo com câmera e microfone (smartphone, tablet ou computador) e ligação à internet.

No contexto do lançamento deste serviço, “os clientes passam a poder marcar consultas em telemedicina para os médicos disponíveis nesta opção e mantêm a possibilidade de agendar consultas urgentes e importantes de forma presencial, após validação do seu médico”, explica fonte da JMS.

Volvida uma semana da implementação das videoconsultas, o Jornal Médico conversou com uma especialista de MGF da rede CUF que tem estado a trabalhar nestes novos moldes e cujo testemunho nos remete para a velha máxima de que a crise pode ser uma incubadora de oportunidades.

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Para Sara Torres, médica da CUF Almada Clínica, a prática assistencial remota é uma experiência completamente nova, que admite ter inúmeras vantagens: “face à consulta tradicional, a videoconsulta é de acesso mais fácil e imediato, é mais rápida e também mais cómoda, quer para o doente, quer para o médico”. E acrescenta que “o facto de termos atualmente ao nosso dispor tecnologias tão boas facilita bastante a adaptação à nova estratégia de prestação de cuidados de saúde e permite que a videoconsulta se assemelbastante à consulta presencial, porque não só vemos e ouvimos o doente perfeitamente, como temos o doente à nossa frente e a internet é rápida”.

De acordo com a médica da CUF, “não podemos deixar de dar resposta aos nossos utentes e, nesta fase, o que a maior parte necessita é essencialmente do esclarecimento de dúvidas, renovação de receituário crónico ou mostrar um exame, por exemplo”. O grosso destas consultas, refere, são as de rotina e a maioria dos doentes consultados são os doentes crónicos. Segundo a especialista, o feedback por parte dos doentes tem sido “muito positivo”.

A principal limitação das videoconsultas, destaca, é a impossibilidade de realização do exame objetivo. Ainda assim, “tentamos colmatar com algumas perguntas-chave que nos permitem aferir se há ou não necessidade de o doente recorrer a consulta presencial ou ao serviço de urgência”. Em relação à Covid-19, Sara Torres nota que há uma preocupação por parte dos doentes. “Os utentes fazem perguntas e esclarecem dúvidas connosco. As pessoas estão em casa e a seguir as recomendações. Todas as pessoas que consultei estavam em casa e isso é bom”, sublinha.

Em jeito de conclusão, a especialista de MGF destaca a rápida capacidade de adaptação da rede CUF perante as limitações impostas pela conjuntura atual. “É de louvar a forma como a CUF rapidamente se adaptou e conseguiu arranjar uma solução para continuarmos a dar resposta aos nossos doentes e manter a prestação de cuidados, em proximidade, sem o doente ter que se deslocar, mas deslocando-se a CUF – por assim dizer – a casa das pessoas”, defende Sara Torres, para quem “esta foi uma solução implementada em tempo de crise, mas que pode e deve ser perpetuada no futuro, paralelamente e em complemento às consultas presenciais, abrangendo mais do que as três especialidades médicas atualmente abrangidas, em situações de renovação de receituário cónico, pessoas com dificuldades de acesso físico às unidades, utentes em viagem ou outras”.

Lusíadas Saúde lança serviço de videoconsultas

Também a Lusíadas Saúde lançou, a 23 de março, um novo serviço que permite aos médicos realizar consultas através de vídeo e evitar as deslocações não essenciais dos doentes às unidades do grupo. O serviço de Consultas Médicas Online vai estar disponível em todas as unidades no Norte, Grande Lisboa e Algarve, e será alargado de forma progressiva, de acordo com fonte da instituição.

“Vamos estar articulados com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) para ajudar o país a combater a pandemia de Covid-19, mas reconhecemos a necessidade de continuar a cuidar de todas as pessoas, garantindo o normal funcionamento das consultas de todas as especialidades médicas. Assim, este serviço vem dar resposta a essa necessidade, ao mesmo tempo que garante a máxima segurança dos profissionais de saúde e da população”, explica Vasco Antunes Pereira, CEO da Lusíadas Saúde, em comunicado de imprensa.

UntitledEm declarações ao Jornal Médico, o director de Marketing, Communications & Customer Management do grupo, Nuno España, adianta que a criação do Serviço Médico Online foi “o acelerar e o antecipar de uma solução de futuro que acreditamos ser incontornável”. E explica como funcionam: “O doente faz o agendamento da consulta através do Contact Center da Lusíadas Saúde e, posteriormente, recebe um e-mail e SMS de confirmação da consulta. No dia da consulta, minutos antes da mesma se iniciar, o doente recebe um link de acesso à videoconsulta. Este link funciona na grande maioria dos browsers, no desktop, tablet ou smartphone, sem necessidade de instalar qualquer software ou aplicação. Caso surja algum imprevisto, a ferramenta disponibiliza ainda um chat de apoio. Quando a consulta termina, o doente é contactado pela equipa administrativa para que possa fazer o agendamento de consultas subsequentes, em caso de necessidade, e/ou exames complementares de diagnóstico, caso sejam prescritos pelo médico. Todas as receitas médicas são também enviadas para o doente via e-mail e SMS”.

Nuno España refere que “na primeira semana realizámos perto de meio milhar de consultas e para os próximos dias já temos mais de um milhar agendadas”. De acordo com o director de Marketing, Communications & Customer Management da Lusíadas Saúde, “o número de médicos e clientes a demonstrar vontade de usar o serviço cresce diariamente e acreditamos convictamente de que estamos a dar os primeiros passos numa área que inevitavelmente marcará o nosso negócio no futuro”. Apesar das vantagens inegáveis deste novo serviço – à cabeça, “a capacidade de mantermos a proximidade entre os profissionais de saúde e os doentes, ao mesmo tempo que garantimos a segurança máxima de ambas as partes” –, este responsável destaca como desafio a barreira tecnológica, lembrando que “Portugal tem uma vasta percentagem de população envelhecida” e que “nem todos os doentes têm acesso à tecnologia ou estão totalmente familiarizados com a mesma”.

Em declarações à nossa redação, a coordenadora da Unidade de MGF do Hospital Lusíadas Lisboa, Patrícia Maia, adianta que “as videoconsultas são uma forma facilitada de nos conseguirmos aproximar dos doentes e de lhes mostrarmos que continuamos cá para eles e acredito que esta disponibilidade é fundamental”. A especialista lembra que, “em MGF há a particularidade de serem relações com muitos anos e, por isso, os nossos doentes também estão preocupados com a nossa saúde e tem sido muito gratificante”. E conclui: “Faço um balanço muito positivo deste novo serviço”.

Já o imunoalergologista das Unidades Lusíadas Algarve, Nuno Neuparth, descreve-nos a sua experiência com as videoconsultas como “excelente, até mesmo fora do contexto de Covid-19”. De acordo com o médico, “todas as plataformas são user-friendly, nunca colocando de lado a segurança. Nas videoconsultas destaco de imediato o facto de tudo funcionar muito bem sem grande necessidade de treino”.

Por sua vez, Sandra Marques, da direção da Clínica Lusíadas Almada, sublinha que “para doentes que residem longe dos hospitais, para os que têm dificuldades de locomoção e para todos os doentes com outras situações clínicas que os impeçam de se deslocar às unidades de saúde, a videoconsulta é algo a considerar posteriormente [à pandemia de Covid-19]”.

COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência terminou e o estado de calamidade passou, mas o problema de saúde mantem-se ativo. É urgente encontrar uma visão inovadora e adotar uma nova estratégia. As unidades de saúde precisam de encontrar respostas adequadas e seguras.

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