Covid-19: Excesso de mortalidade pode ser até cinco vezes superior aos óbitos associados à doença
DATA
28/04/2020 09:56:46
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Jornal Médico
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Covid-19: Excesso de mortalidade pode ser até cinco vezes superior aos óbitos associados à doença

O excesso de mortalidade verificado em Portugal, desde o início da pandemia, pode chegar aos 4.000 óbitos, avança um estudo publicado a revista científica da Ordem dos Médicos, Acta Médica Portuguesa.

De acordo com o estudo, entre os dias 1 de março e 22 de abril o número de mortes acima do esperado pode chegar aos 4.000, o que “corresponde a um valor cinco vezes superior ao explicado pelas mortes atribuídas à Covid-19”.

Os autores do trabalho, cinco especialistas do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública e do Instituto de Saúde Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, consideram que o excesso de mortalidade de março e de abril “não pode ser comparado com fevereiro, nem sequer com os anos homólogos”, defendendo que se deve ter como referência os meses de férias, em que há uma redução generalizada de atividade e circulação.

“O estado de emergência em que Portugal levou a várias medidas restritivas com impacto, por exemplo, na redução da mortalidade por acidentes de viação ou de trabalho e também a uma quebra no número de outras infeções características desta época do ano ou de alturas de menor isolamento social, que devem ser descontadas dos resultados analisados”, explica um dos autores do estudo, António Vaz Carneiro.

Acrescenta ainda que “quer isto dizer que o número de mortes a mais identificadas é ainda maior do que se pensava, ao não se considerar esta quebra nos óbitos na estrada ou de trabalho, entre outros”.

Para estimar o excesso de mortalidade por idade e região, entre 1 de março e 22 de abril, os especialistas utilizaram bases de dados públicas, propondo níveis basais ajustados ao período de estado de emergência em vigor.

As conclusões apontam para um excesso de mortalidade observada de 2.400 a 4.000 mortes.

O excesso de mortalidade encontra-se associado aos grupos etários acima dos 65 anos e os números absolutos indicam mais mortes nos distritos de Aveiro, Porto e Lisboa, “o que está em linha com as áreas com mais doentes diagnosticados com COVID-19 e também com mais densidade populacional”.

Se a análise dos números for feita em termos relativos, verifica-se que “não há diferenças regionais significativas”, ainda que se note uma tendência para maior excesso de mortalidade nos distritos mais envelhecidos.

A mortalidade por todas as causas aumentou em março e abril de 2020 comparativamente a anos anteriores, “mas este aumento não é explicado pelas mortes reportadas de Covid-19”, indica o estudo. 

Os dados sugerem uma explicação tripartida para este excesso, tendo em conta as suas causas, nomeadamente: mortes por Covid-19 identificadas pelas autoridades, mortes por Covid-19, mas não identificadas, e diminuição do acesso a cuidados de saúde.

"Neste estudo, o número de mortos em excesso não-Covid foi quatro a cinco vezes mais numeroso que os Covid. Para qualquer plano futuro imediato do SNS, temos de passar da gestão de risco da infecção Covid, para uma gestão de risco global (Covid e não-Covid), para evitar este excesso dramático da mortalidade”, defende António Vaz Carneiro.

O estudo avança alguns números que classifica como “preocupantes” e que podem justificar estes óbitos: no período em análise houve menos 191.666 doentes com pulseira vermelha nos hospitais, menos 30.159 com pulseira laranja e menos 160.736 com pulseira amarela.

Neste sentido, tendo como referência a mortalidade nas 24 a 48 horas após a admissão nos hospitais, antes da pandemia, estas quebras correspondem a um potencial de pelo menos 1291 mortes, sendo 79 em doentes triados com pulseira vermelha, 1206 com pulseira laranja e 6 com pulseira amarela.

Em linha com os dados, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães comenta: “Desde muito cedo que manifestámos a nossa preocupação com a forma como os serviços de saúde estavam a reorganizar-se, pelos riscos de deixar outros doentes de fora da resposta, com patologias que precisam também de acesso em tempo útil a cuidados de saúde e que não se compadecem com esperar pelo fim da pandemia”.

Sublinha ainda que “as autoridades de saúde, infelizmente, não dispõem de sistemas de monitorização adaptados a esta nova realidade e capazes de fazerem uma análise fina e em tempo real ao que está a acontecer aos chamados doentes não Covid”, e alerta para a urgência de se criar uma task-force que funcione de forma articulada e “que olhe rapidamente para estes dados para poder redesenhar a resposta aos nossos doentes que continuam a precisar de nós e a contar connosco”.

“O milagre de Portugal de que tanto se tem falado não nos pode deixar confortáveis se não conseguirmos melhorar a resposta em todas as frentes”, conclui o bastonário.

A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
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A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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