Covid-19: Investigadores defendem medidas combinadas para controlar a pandemia
DATA
17/06/2020 10:28:35
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Jornal Médico
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Covid-19: Investigadores defendem medidas combinadas para controlar a pandemia

O isolamento de casos de Covid-19 e o rastreio dos contactos são vitais para o controlo epidémico da doença causada pelo novo coronavírus, de acordo com um estudo desenvolvido no Reino Unido e publicado na revista científica Lancet.

“Combinar o auto-isolamento e o rastreio de contactos com medidas moderadas de distanciamento físico, como limitar reuniões sociais e promover o trabalho remoto, poderá permitir o controle contínuo da epidemia de Covid-19”, de acordo com os autores do trabalho hoje divulgado.

Os resultados indicam que estratégias combinadas de isolamento de casos e rastreio de contactos parecem reduzir a transmissão mais do que apenas o teste em massa ou o auto-isolamento.

“Num cenário em que não houvesse distanciamento social e 1.000 novos casos sintomáticos fossem relatados todos os dias, entre 15.000 a 41.000 contactos precisavam de ser colocados em quarentena todos os dias se dependesse do rastreio de contactos o controle da infeção”, lê-se no documento divulgado esta terça-feira.

Na ausência de uma vacina ou de tratamentos de elevada eficácia contra a Covid-19, a combinação de isolamento e de um intenso rastreio de contactos, juntamente com medidas de isolamento social, seja nos contactos sociais ou nos locais de trabalho - poderá ser a forma mais eficaz e eficiente de controlo da pandemia, de acordo com as conclusões publicadas.

Os investigadores usaram dados de contacto social de mais de 40.000 pessoas do banco de dados “Pandemic”, da BBC, para simular a transmissão de SARS-Cov-2 em diferentes ambientes e sob diferentes combinações de medidas de controlo.

Estimam que uma elevada incidência de Covid-19 exigiria “um número considerável de indivíduos” colocados em quarentena para controlar a infeção.

“Por exemplo, um cenário em que 5.000 novos casos sintomáticos foram diagnosticados todos os dias, provavelmente exigiria que 150.000 a 200.000 contactos fossem colocados em quarentena todos os dias, se não houvesse distanciamento físico”, descrevem.

É a primeira vez que os investigadores usam dados de contacto social, num estudo, para quantificar o impacto potencial de medidas de controlo na redução da transmissão ao nível individual de SARS-CoV-2, em ambientes específicos.

O objetivo foi identificar não apenas o que teoricamente controlaria a transmissão, mas quais seriam as implicações práticas dessas medidas, em termos de números de pessoas em quarentena.

No entanto, os autores observam que o modelo se baseia numa série de suposições sobre a eficácia dos testes, rastreio, isolamento e quarentena, nomeadamente, quanto tempo leva a isolar casos com sintomas (média de 2,6 dias) e a probabilidade de os contactos aderirem à quarentena (90%) - que, “embora plausíveis, são otimistas”.

"As nossas descobertas reforçam o crescente corpo de evidências que sugere que não podemos confiar numa única medida de saúde pública para alcançar o controlo de epidemias", afirma Adam Kucharski, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, citado no comunicado hoje divulgado.

O especialista defende que a enorme escala de testes e rastreio de contactos necessários para reduzir a disseminação da Covid-19 consome muitos recursos, enquanto o novo rastreio baseado numa aplicação, se adotado amplamente ao lado do rastreio tradicional de contactos, poderia aumentar a eficácia na identificação de contactos, “principalmente aqueles que de outra forma seriam perdidos”.

Os investigadores analisaram dados sobre como 40.162 pessoas circularam pelo Reino Unido e interagiram com outras pessoas, antes da Covid-19 surgir, para simularem como combinações de diferentes cenários de teste podem contribuir para reduzir os casos secundários.

Analisaram também a taxa mediante a qual o vírus é transmitido – conhecido como número reprodutivo (R) ou o número médio de pessoas que cada indivíduo com o vírus provavelmente infetará num determinado momento, sob estratégias diferentes, sendo que para manter a epidemia em declínio, R tem de ser inferior a 1.

No modelo, a taxa de incidência secundária (a probabilidade de um contacto próximo de um caso confirmado ser infetado) foi estimada em 20% entre os contactos da família e 6% entre outros contactos.

Os investigadores calcularam que, se nenhuma medida de controlo tivesse sido tomada, R seria 2,6 - o que significa que uma pessoa infetada infetaria, em média, mais 2 ou 3 pessoas.

A análise sugeriu ainda que o teste de massa sozinho, com 5% da população submetida a testes aleatórios a cada semana (ou seja, 460.000 testes por dia no Reino Unido), reduziria R para apenas 2,5, porque muitas infeções “seriam perdidas” ou detetadas tarde demais.

Comparando com a ausência de medidas de controlo, o auto-isolamento de casos sintomáticos (em casa) reduziu a transmissão em cerca de 29% (redução de R para 1,8), embora a combinação de estratégias de auto-isolamento, quarentena doméstica e rastreio possa reduzir potencialmente a transmissão até 47% (R 1.4).

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Editorial | Gil Correia
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