Luiz Miguel Santiago: “O acompanhamento do doente com dislipidemia tem de ser complexo, acessível e longitudinal”

Especialista em Medicina Geral e Familiar e Professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Luiz Miguel Santiago sublinha a importância que a atividade física e a dieta equilibrada assumem no tratamento do doente com colesterol elevado, além da terapêutica farmacológica. Em entrevista, aponta as mais valias da literacia em saúde e antevê mudanças na organização dos serviços.

Complexo, acessível e longitudinal. É assim que o especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) Luiz Miguel Santiago descreve o papel do médico de família, no acompanhamento do doente com dislipidemia.

“A complexidade advém, desde logo, de sabermos o modelo pelo qual a terapêutica, por exemplo, farmacológica, é importante e deve ser mantida”, refere, acrescentando a necessidade de “não esquecer que todos os estudos sobre os lípidos dizem que há melhorias, do ponto de vista da redução da morbilidade e da mortalidade, mas todos têm como base medidas não farmacológicas como dieta equilibrada e prática regular de atividade física”.

Aponta, por isso, os instrumentos de avaliação da MGF como “extremamente importantes” na orientação dos doentes, tornando-se imprescindível “aplicar bem as escalas”, de forma a identificar as pessoas que têm risco “suficientemente importante” para necessitarem de terapêutica farmacológica. O professor universitário reforça a relevância de testar várias medidas, como o índice aterogénico, a relação LDL-HDL, a relação triglicerídeos-HDL e o cálculo dos remanescentes de colesterol. “Tudo isto é realizável só com base em três valores: colesterol total, HDL e triglicerídeos, e dá-nos uma grande indicação sobre como proceder”, sustenta.

Posteriormente, é necessário explicar ao doente o que está em causa e perceber, em conjunto, qual a “melhor tática para o objetivo estratégico”, sendo que se pretende reduzir a morbilidade e mortalidade – que não está dependente apenas do valor do colesterol. “É dependente, fundamentalmente, de outros efeitos terapêuticos pleiotrópicos das estatinas”, exemplifica. A comunicação com os utentes inclui, assim, indicações sobre o tratamento, que vai implicar um seguimento a longo prazo, mas também uma componente pessoal e familiar, averiguando quem e como, poderá ajudá-los, em casa, a seguir uma alimentação equilibrada e a praticar exercício.

A questão da literacia em saúde ocupa uma posição de destaque, na visão de Luiz Miguel Santiago. Refere-se à “passagem de mensagens-chave, para que as pessoas adquiram conhecimento sobre a sua patologia; e ao empoderamento, que é, no fundo, a pessoa passar a tomar as decisões de saúde em conjunto com o médico”. Desta forma, “o médico deixa de ser paternalista e a pessoa deixa de ser o problema e passa a ser elemento de tratamento”, realça.

Em relação ao contexto pandémico, que exigiu uma reorganização dos serviços, o especialista considera que poderá ter aberto uma porta para se repensarem os modelos de trabalho pré-Covid-19, antevendo um hipotético cenário em que os médicos terão um regime parcial de teletrabalho. Acredita também que, “cada vez mais, as agendas dos médicos serão dominadas, não tanto, pela pressão das pessoas que querem consulta, mas pela marcação dos próprios médicos, em relação às queixas que lhes apresentam, havendo prévia triagem médica para a consulta presencial”.

Não tem “grandes dúvidas” que, com o confinamento, os riscos aumentaram e defende a necessidade de se levarem a cabo “bons estudos” e trabalhos sobre esta situação. “Na MGF, dentro do Sclínico e de duas outras plataformas de clínica de dados, existe possibilidade de fazermos, para memória futura, um cálculo do risco. O risco cardiovascular deve ser calculado, e inclui muitos aspetos, como a obesidade, a diabetes, o tabaco e o colesterol”. O grau de risco para várias doenças pode ser calculado por várias escalas que também servem como base para capacitação sendo alteráveis os determinantes de risco.

Luiz Miguel Santiago aponta um défice de estudos sobre a adesão à terapêutica em Portugal, mas afirma que há muitas pessoas que “têm medo” dos efeitos adversos que pode estar relacionada com desconhecimento, apesar de lhe reconhecer interesse.

Entende que as superestatinas, “com semividas mais longas”, são “belíssimos medicamentos”, se utilizadas nas indicações formais, e nas situações em que os médicos, individualmente, percebem qual o risco do doente. Sublinhando que, nestes casos, a associação com ezetimiba para reduzir a absorção do colesterol tem “todo o interesse”. Refere que estas estatinas vieram responder aos problemas “mais complexos”, e representam um “avanço na Medicina para os casos mais complicados de dislipidemia”. Trata-se, fundamentalmente, daqueles que são reencaminhados pela MGF para consultas de Cardiologia e outras especialidades, nos quais o uso “pode e deve valer a pena” para o controlo da sua patologia.

“Ainda assim, há casos em que estatinas menos potentes têm o mesmo resultado de redução do colesterol, quando, simultaneamente, as pessoas alteram os seus padrões alimentares e de atividade física”, remata. A redução do flagelo do acidente vascular não é algo que incumba somente à Medicina.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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