A DPOC e a Oxigenoterapia
DATA
14/07/2020 09:47:15
AUTOR
Mariana Serino e Marta Drummond
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A DPOC e a Oxigenoterapia

A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) é uma doença prevenível e tratável, caraterizada por limitação do fluxo aéreo persistente e sintomas res­piratórios crónicos, secundários a respostas anormais da via aérea e dos alvéolos à exposição a partículas e gases nocivos.

A DPOC representa um importante problema de saúde pública, sendo das principais causas mundiais de morbimortalidade.

Estima-se que a prevalência da DPOC venha a aumentar nas próximas décadas, graças à exposi­ção crescente a inalantes tóxicos e ao envelheci­mento populacional.

De facto, o principal fator de risco da DPOC é o fumo do tabaco, mas a exposição aos fumos da com­bustão do diesel e da biomassa são também impor­tantes fatores de risco. A suscetibilidade genética individual tem, igualmente, um papel importante no desenvolvimento da doença. Veja-se que apenas 20% dos fumadores vêm a desenvolver DPOC.

A tríada sintomática típica da DPOC carateriza-se por dispneia de esforço, tosse e expetoração.

O subdiagnóstico é uma realidade preocupante e, em parte, pode dever-se ao caráter insidioso e pro­gressivo dos sintomas, permitindo aos doentes uma adaptação às incapacidades, desvalorizando-as.

O diagnóstico pressupõe a realização de espiro­metria, mas para tal é necessário que se suspeite da doença e se faça o encaminhamento adequado do doente.

O diagnóstico é tanto mais importante, quanto sabemos que o armamentário terapêutico de que se dispõe atualmente permite tratar sintomas, melhorar a tolerância ao exercício e aumentar a qualidade de vida dos doentes que sofrem de DPOC. Mais ainda, a terapêutica existente permite atuar na história na­tural da doença e reduzir a mortalidade, sobretudo à custa de redução de exacerbações.

Também o aumento da sobrevida se pode conse­guir através do uso de oxigenoterapia de longa dura­ção (OLD) para tratamento da insuficiência respirató­ria crónica que se vai instalando ao longo do curso da doença. De facto, na década de 80 do século passado, dois estudos, Nocturnal Oxygen Therapy Trial (NOTT) e Medical Research Council (MRC) permitiram perceber o papel da OLD no tratamento da DPOC. Estes estu­dos, conseguiram demonstrar que a OLD ≥ 15 horas/dia se associa a melhoria da hipoxemia e aumento da sobrevida dos doentes com DPOC, parecendo, inclusi­ve haver correlação entre sobrevida e horas de uso de OLD por dia.3,4

Têm, ainda, sido reportados benefícios da OLD a nível da qualidade de vida, morbilidade cardiovascu­lar, depressão, função cognitiva, capacidade de exer­cício e frequência de hospitalizações.

Em face destas evidências, é de fulcral importân­cia, diagnosticar atempadamente a presença de insu­ficiência respiratória crónica e hipoxemia no contexto da DPOC, a fim de que a instituição de OLD seja atem­pada e não se prive nenhum doente dos benefícios que o seu uso acarreta.

O seguimento desta patologia pressupõe uma abordagem multidimensional baseada na avaliação regular de sintomas e exacerbações, bem como na monitorização da função respiratória através da ava­liação espirométrica anual. A medição da saturação periférica de O2 (SpO2) permite o despiste de insu­ficiência respiratória e a evolução para realização de gasimetria sempre que justificado.

A presença de SpO2 < 92% em ar ambiente, sín­drome ventilatório obstrutivo grave (FEV1 30-50% do previsto) e muito grave (FEV1 < 30% do previs­to), cianose, policitemia ou sintomas e/ou sinais de Insuficiência Cardíaca direita devem levar ao des­piste de insuficiência respiratória e à realização de estudo gasimétrico.

Os critérios para prescrição de OLD no contexto da DPOC estão bem definidos:

  • • PaO2 ≤ 55 mm Hg (na presença ou ausência de hipercapnia) ou SpO2 ≤ 88 %, confirmada pelo menos duas vezes, num período de três semanas;
  • • PaO2 entre 55-60 mm Hg ou SpO2 ≤ 88 %, se as­sociadamente houver diagnóstico de cor pulmonale, hipertensão arterial pulmonar ou poliglobulia (hema­tócrito > 55 %).

Uma vez iniciada OLD, é recomendada reavalia­ção clínica e gasimétrica dos doentes, num período de 60 a 90 dias. A longo prazo, é necessário ir moni­torizando a evolução da insuficiência respiratória com gasimetria periódica (a cada seis meses ou a cada ano, dependendo da gravidade e estabilidade da si­tuação), oximetria de 24 horas e, até, capnografia.

A oxigenoterapia de deambulação (OD) pode ter, também, um papel no tratamento da DPOC. A doentes que dessaturem durante o exercício e que beneficiem de uso de oxigenoterapia comprovada através de pro­vas da marcha com e sem 02, deve ser-lhes oferecido este tipo de tratamento. A condição de deambulação diária deverá ser comprovada a fim de que o doente possa ser elegível para OD. São importantes os dispo­sitivos que monitorizam a atividade física diária dos doentes para que estas prescrições, tão onerosas para o erário público, sejam de facto usadas pelos doentes. Assim, são candidatos a OD6 doentes normoxémicos em repouso que, na prova de marcha de seis minutos, apresentem PaO2 ≤ 55 mmHg ou SpO2≤ 88 % ou uma redução de quatro por cento para valores SpO2< 90 % com correção pela administração de O2.

Para ser elegível para OD, o doente deve estar ou ter estado integrado num programa de reabilitação respiratória.

A OD tem como objetivo aumentar a autonomia e a mobilidade dos doentes, contudo não existe evi­dência de benefício na mortalidade na ausência de critérios para OLD, nem atraso da evolução para insu­ficiência respiratória crónica, hipertensão pulmonar e insuficiência cardíaca direita. A sua implementação pressupõe não condenar o doente ao sedentarismo e confinamento domiciliário, mas sim, permitir-lhe uma vida social ativa e a prática de algum exercício físico, desconstruindo a espiral de isolamento, depressão e descondicionamento muscular.

BIBLIOGRAFIA

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National institute for health and care excellence. Chronic obstructive pulmonary disease in over 16s: diagnosis and management. 2018. https://www.nice.org.uk/guidance/ng115/chapter/Recommendations#managing-s­table-copd. (accessed 06 july 2020).

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Clini E, Vitacca M, Foglio K, et al. Long-term home care programmes may reduce hospital admissions in COPD with chronic hypercapnia. Eur Respir J 1996; 9:1605.

Norma DGS n.º 18/2011 de 28/09/2011 atualizada a 11/09/2015.

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