Tiago Maricoto: “O médico de família é, provavelmente, o profissional mais bem colocado para acompanhar os doentes com DPOC”
DATA
17/07/2020 10:16:20
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Jornal Médico
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Tiago Maricoto: “O médico de família é, provavelmente, o profissional mais bem colocado para acompanhar os doentes com DPOC”

Quais as principais causas da doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC)? Que papel ocupa o médico de família (MF) no acompanhamento destes doentes? E há, ou não, relação entre a Covid-19 e a DPOC? Estas foram algumas das questões às quais o especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) Tiago Maricoto respondeu, em entrevista ao Jornal Médico.

“O tabagismo é, inevitavelmente, um dos fatores associados à DPOC”, afirma o MF e membro da direção da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Fami­liar (APMGF) Tiago Maricoto, que salvaguarda que há outras situações que podem contribuir para o desen­volvimento desta patologia. Trabalhar em indústrias como as de biomassa, de poerias, ou a mineira, são exemplos disso, devido à exposição a poluentes am­bientais e a produtos químicos. “O que acontece é que estes fatores e a exposição a agentes que agridem os pulmões, ao longo dos anos, vão levar à inflamação das vias aéreas e essa inflamação vai fazendo com que os pulmões comecem a produzir muita secreção, muito muco, e os brônquios começam a defender-se, diminuindo – digamos assim – o seu calibre. Portanto, perdem a dilatação normal, levando a uma obstrução que impede a entrada do ar de forma adequada nos pulmões”, explica o especialista.

Os principais sintomas da DPOC são cansaço, dispneia e tosse persistente e produtiva de muco. No entanto, “os doentes podem passar muitos anos a desenvolver a doença e a perder capacidade de ar, sem terem grandes sintomas pelo que, muitas vezes, quando aparecem na consulta pode já ser tarde demais”, alerta o médico. Por sua vez, esta patologia pode levar ao desenvolvimento e ao agra­vamento de outras doenças: “Frequentemente, os doentes com DPOC têm mais predisposição para ter excesso de peso, hipertensão arterial e apneia do sono, por exemplo”.

E que papel ocupa o MF no acompanhamento destes doentes? “É, provavelmente, o profissional que está mais bem colocado para acompanhá-los”, responde Tiago Maricoto, justificando que este é um elemento importante na prevenção, no diagnóstico e no seguimento, a longo prazo.

Consciencializar e pedir às pessoas para deixa­rem de fumar, para usarem proteções nos seus locais de trabalho e para fazerem exercício físico são as primeiras medidas a tomar, nos doentes saudáveis, mesmo antes de desenvolverem DPOC. É também fun­damental que o MF esteja atento e faça um diagnós­tico precoce para prevenir o agravamento da doença e, quando confirmado, deverá seguir o doente, garan­tindo “uma avaliação de sintomas, da função respira­tória e pulmonar, através da realização de exames”.

O especialista em MGF frisa ainda a importân­cia da parceria estabelecida com pneumologistas, pois os doentes podem precisar de “intervenções mais diferenciadas, como a reabilitação respira­tória, ou a desabituação tabágica”, que requerem uma gestão partilhada.

Apesar de não existirem muitos estudos sobre a doença, em Portugal, o MF da Unidade de Saúde Familiar (USF) Aveiro-Aradas refere que o panorama epidemiológico verificado não é muito diferente do de outros países. “Um estudo muito recente, realiza­do na região de Lisboa, numa população mais adulta, revelou que, de facto, os números de prevalência em alguns locais podem atingir até 14% da população, sendo que, provavelmente, a prevalência global de­verá andar por volta dos oito a 10%”, afirma, ressal­vando que, ainda assim, se trata de uma em cada dez pessoas. Por outro lado, e embora tenha “alguma prevalência no país”, o clínico considera que a DPOC está “muito subdiagnosticada”, devido ao “desconhe­cimento da população e de alguns profissionais de saúde, e à falta de recursos”, sobretudo, à espirome­tria, que é “essencial para o diagnóstico”.

DPOC E COVID-19: QUE RELAÇÃO?

No atual contexto pandémico, os doentes com DPOC apresentam um maior risco de terem uma com­plicação grave se infetados pelo vírus SARS-CoV-2, mas não se encontram em maior risco que a popula­ção em geral de contrair a doença. “O que acontece é que o seu sistema respiratório é muito mais debili­tado e não tem a mesma capacidade e a mesma per­formance funcional para responder de forma eficaz a uma infeção”, sustenta.

A pandemia obrigou também à reorganização dos serviços, mas Tiago Maricoto afirma que o acom­panhamento dos doentes se manteve, apesar de ter sido garantido, em grande parte, à distância, por via de e-mail, telefone ou videochamada. O médico refe­re ainda a importância de serem mantidas as tera­pêuticas, sublinhando que não há problema em fazer terapia com corticoides ou qualquer outro fármaco, pois ter a DPOC “bem controlada”, aumenta a proba­bilidade de “sucesso” no combate da infeção.

Em termos de terapêutica, são várias as opções à disposição dos clínicos, devendo a escolha da mesma deve ser adaptada ao “perfil e ao historial” de cada doente. Além das intervenções não farmacológicas, as terapêuticas farmacológicas integram dispositivos inalatórios, fármacos broncodilatadores – “que são medicamentos que fazem dilatar as vias aéreas, para que o fluxo de ar consiga ocorrer com mais facilida­de e permita respirar melhor” –, havendo ainda casos em que são necessários corticoides “para diminuir a inflamação das vias aéreas”. Já nos doentes mais gra­ves, pode ser necessário recorrer a combinações de vários fármacos, conclui o MF.

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
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Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

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