Covid-19: OM quer DGS a acompanhar mais de perto situação dos lares
DATA
07/08/2020 09:17:21
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Jornal Médico
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Covid-19: OM quer DGS a acompanhar mais de perto situação dos lares

O bastonário da Ordem dos Médicos (OM) defende que a Direção-Geral de Saúde (DGS) deve acompanhar mais de perto situações como a do lar de Reguengos de Monsaraz, onde um surto de Covid-19 matou 18 pessoas.

“É preciso que a DGS controle mais de perto estas situações que envolvem lares”, salientou Miguel Guimarães, em declarações à agência Lusa, sublinhando: “Nesta altura de pandemia, a DGS deveria ter mais tentáculos, mais pessoas que permitissem atuar mais longe”.

O representante dos médicos insiste que, nestes casos mais específicos, “é preciso acompanhar de perto, perceber o que está a acontecer e saber se as coisas estão a ser feitas como deve ser. A nossa intervenção mais ou menos correta pode salvar mais ou menos vidas”.

De acordo com o relatório da comissão de inquérito da OM, o referido lar de Reguengos de Monsaraz não cumpria as orientações da DGS, sendo apontadas responsabilidades à administração. O documento avança que não era possível cumprir “o isolamento diferenciado para os infetados ou sequer o distanciamento social para os casos suspeitos” e que “não existia, por exemplo, definição de circuitos de limpos e de sujos, o que foi feito apenas a 26 de junho, nove dias depois de ter sido confirmado o primeiro caso”.

Em declarações à Lusa, Miguel Guimarães disse que o que mais o surpreendeu foi que “a autoridade de saúde e a Administração Regional de Saúde (ARS) [do Alentejo] nada tenham feito para que algumas coisas não tivessem acontecido”. E lamentou: “De uma forma geral, (…) dá-me ideia que as coisas não foram acompanhadas pela autoridade de saúde tão de perto como deveriam ter sido e por isso há vários passos importantes que acabaram por falhar”.

A comissão conclui que “os recursos humanos foram insuficientes para a prestação de cuidados adequados no lar, mesmo antes da crise de Covid-19, uma situação que se agravou com os testes positivos entre os funcionários, que os impediram de trabalhar”.

Uma das consequências mais graves é que “vários doentes estiveram alguns dias sem as terapêuticas habituais, por falta de quem as preparasse ou administrasse”, diz o documento, sublinhando que “houve casos de preparação e administração de fármacos por pessoal sem formação de enfermagem”.

O relatório afirma ainda que os doentes não foram tratados “de acordo com as boas práticas clínicas”, com responsabilidades “para quem, sabendo que não tinha os recursos humanos adequados e preparados, permitiu que esta situação se protelasse no tempo”.

Segundo o documento, foram criadas todas condições para a “rápida disseminação, com responsabilidades para quem geria o espaço, o processo de rastreio epidemiológico e a aplicação das normas da DGS”. E explica: “O processo inicial de rastreio – desde a primeira zaragatoa até aos resultados finais de todos os utentes e funcionários – demorou perto de três dias, período de tempo em que os potencialmente infetados conviviam e partilhavam espaços, quartos, corredores e casas de banho”.

Miguel Guimarães conta também que o que lhe “fez mais impressão” foi perceber que os idosos que estavam infetados foram retirados para “um pavilhão que não tinha condições para ser sequer um hospital de campanha”, justificando: “Se as pessoas têm doença mais grave têm de estar no hospital, porque depois não há os meios para escalar tratamentos”.

O surto no lar de Reguengos de Monsaraz provocou, até final de julho, 18 mortos – 16 utentes, uma funcionária do lar e um homem da comunidade – e provocou um total de 162 casos de infeção. No lar, foram contaminados 80 utentes e 26 profissionais, mas a doença propagou-se à comunidade e infetou outras 56 pessoas.

O relatório da OM já foi enviado ao Ministério Público, Ministério da Saúde, DGS e Ordem dos Advogados.

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Editorial | Jornal Médico
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