Dois terços dos custos anuais com a dermatite atópica são suportados pelos doentes
DATA
14/09/2020 10:53:30
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Jornal Médico
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Dois terços dos custos anuais com a dermatite atópica são suportados pelos doentes

A dermatite atópica (DA) representa um custo anual de 1.018 milhões de euros, dois terços dos quais suportados pelos doentes, que recorrem maioritariamente aos serviços de saúde privados devido aos tempos de espera no Serviço Nacional de Saúde (SNS), revela um estudo divulgado hoje, no âmbito do Dia Mundial da Dermatite Atópica.

Em média, cada doente gasta 1.818 euros por ano na gestão da sua doença, nomeadamente em produtos, consultas, medicamentos, deslocações e tratamentos complementares, adianta o estudo realizado pela NOVA IMS da Universidade Nova de Lisboa, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV) e a Associação Dermatite Atópica Portugal (ADERMAP).

Só em gastos com medicamentos, um doente com DA ligeira gasta em média 530 euros, valor que aumenta para 2.054 euros nos casos mais graves.

A investigação pretendeu avaliar os impactos sociais, laborais, económicos desta doença inflamatória crónica da pele, sendo “o primeiro estudo desta natureza em Portugal”, adianta o coordenador do estudo, Pedro Simões Coelho, sublinhando que “a DA tem um impacto muito significativo, em alguns casos dramático, na qualidade de vida dos doentes, manifestando-se com níveis de intensidade diferentes [ligeiro, moderado e grave]”. Em todos estes níveis há “impactos sociais significativos” como mais de um terço dos doentes a manifestar sentimentos de “vergonha, ansiedade e frustração” devido à doença.

Em média, estes doentes gastam três quartos de hora por dia a tratar da doença e nos casos mais severos 81 minutos, refere o estudo a que o Jornal Médico teve acesso, o qual decorreu entre junho de 2019 e janeiro de 2020 e obteve 204 repostas de doentes diagnosticados.

“Tudo isto se propaga às atividades dos doentes”, disse o investigador à agência Lusa, explicando que esta doença afeta pessoas em idade ativa, o que tem impactos laborais.

Estes doentes perdem, em média, dois dias de trabalho por ano, chegando aos nove dias nos casos mais severos. “Mas, mais importante do que o absentismo são os dias de trabalho perdidos” por perda de produtividade, porque “a pessoa se sente mal”, sublinhou. Neste caso, estima-se uma perda equivalente a 50 dias de trabalho por ano, o que tem “uma expressão económica muito significativa”.

“Entre dias faltados, perda de produtividade, e também dias faltados por familiares ou cuidadores, nós estimamos que haja um impacto económico total na sociedade de perto de 1.500 milhões de euros (ME)”, salientou Pedro Simões Coelho. A doença também acarreta “custos significativos” anuais para o Estado (218 ME) e para os doentes (800 ME), mas “o investimento nesta doença tem “um significativo retorno positivo para a sociedade, que se traduz em qualidade de vida do doente, e numa importante mitigação do seu impacto económico”.

Cerca de 70% dos inquiridos recorreram ao sistema de saúde privado, 86% dos quais por esperarem menos tempo para uma consulta de dermatologia, que é oito vezes superior no SNS. “A relevância do sistema de saúde privado para estes doentes, mostra que existem questões de equidade que necessitam ser garantidas para um acesso à saúde justo para todos”, defende o presidente da SPDV, Miguel Peres Correia.

Segundo o estudo hoje divulgado, os doentes estariam dispostos a abdicar de 21% do seu rendimento anual para conseguirem eliminar a doença, cujo diagnóstico surge, em média, dois anos após os primeiros sintomas. Em 10% dos doentes demorou mais de seis anos.

“Na maioria das pessoas, acresce ainda outras comorbilidades que fazem piorar ainda mais” o estado de saúde e “agravar a qualidade de vida que nalguns casos é inexistente”, disse a presidente da ADERMAP, Joana Camilo, portadora da doença. Para Joana Camilo, a DA “tem de ser valorizada, pelos doentes, pelas famílias e pelo Estado”.

Estima-se que existam cerca de 440 mil pessoas em Portugal com DA, das quais 46% apresentam formas mais graves da doença, que tem como sintomas vermelhidão na pele, edema, comichão, pele seca, fissuras, lesões descamativas, crostas e exsudação.

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Editorial | Jornal Médico
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