Médicos de família encetam nova década com ambição, mas muitas dificuldades…
DATA
19/10/2020 12:14:52
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Jornal Médico
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Médicos de família encetam nova década com ambição, mas muitas dificuldades…

Organizado pela Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), o 37.º Encontro Nacional de MGF – inicialmente previsto para março, em formato presencial – decorreu em modo exclusivamente online, de 21 de setembro a 1 de outubro, sob o mote “MGF: Projetar 20-30”.

Na reunião magna dos médicos de família portugueses uma miríade de temáticas científicas e organizacionais esteve em debate, durante 10 dias de trabalhos, com as sessões, conferências, debates, workshops e simpósios da indústria a decorrerem predominantemente em horário pós-laboral.

Na cerimónia de abertura do evento, a ministra da Saúde garantiu que conta com todos os médicos e em especial com os médicos de família (MF) para ultrapassar a fase delicada que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) atravessa, mesmo que tal implique um esforço adicional.

“Temos consciência das dificuldades que as equipas enfrentam, dos desafios que se colocam no futuro próximo, mas não tenho dúvidas de que em conjunto vamos conseguir ultrapassá-las e garantir melhor acessibilidade. Respostas para coisas simples, como garantir que os doentes que nos procuram por telefone conseguem, efetivamente, contactar-nos, para coisas eventualmente mais complexas, como investir numa carteira de serviços mais alargada (no sentido de reforçar a capacidade para intervenção em situações agudas de menor gravidade), ou para coisas importante como seja o aumento da capacidade de resolução dos cuidados de saúde primários (CSP), através do reforço dos MCDT, ou nas respostas da Saúde Oral, Fisioterapia, Psicologia e Pediatria”, referiu Marta Temido.

A governante acrescentou que, no âmbito deste grande esforço global, o executivo pondera tomar medidas para “melhorar as condições de trabalho dos vários profissionais dos CSP, designadamente dos especialistas em MGF, considerando a compensação do trabalho no Trace COVID-19 ou considerando pacotes financeiros adicionais para recuperar atividades de vigilância e de rastreios”.

A ministra sublinhou, ainda, que o Plano da Saúde para o Outono/Inverno 2020/2021, divulgado no dia de arranque do Encontro Nacional, “é um exemplo da vontade de manter a prevenção a um nível elevado e garantir todo o nosso foco na preparação das respostas, envolvendo ao mesmo tempo a sociedade portuguesa”, frisando que “é objetivo do Governo continuar a investir nos CSP, conferindo-lhes maior diferenciação para que eles possam continuar a responder em proximidade às necessidades dos portugueses, em articulação com toda a malha de serviços do SNS”.

Por sua vez, o presidente da APMGF, Rui Nogueira, assegurou na abertura dos trabalhos, que é fundamental que os MF “se preparem da melhor maneira possível para os próximos meses” e que é possível “contar com os MF para o que aí vem, para atuar na defesa da saúde da população e do SNS, assim lhes sejam dados os meios para trabalhar”.

Já o bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Miguel Guimarães, deixou claro que Portugal necessita que os MF se dediquem cada vez mais ao seu core business, para que não se instale outra catástrofe sanitária.

“Estamos a precisar que os nossos MF façam aquilo que melhor sabem fazer, ao nível das primeiras consultas, do seguimento dos utentes com doenças crónicas, entre outras competências. Neste momento, estes colegas necessitam de mais liberdade para executar as suas funções e não estarem tão presos à Covid-19. Sabemos que a missão que têm em mãos é muito importante para o país, mas era igualmente relevante para o país que pudessem dedicar mais tempo aos seus doentes. Fazer as duas coisas, em simultâneo, é que se revela muito difícil”, sublinhou o bastonário da OM.

Projetar 20-30 é mais do que apenas um momento

“Muito participado e inovador”. Foi desta forma Rui Nogueira, descreveu o 37.º ENMGF, no rescaldo do evento.

No encerramento da reunião major dos médicos de família (MF) portugueses, o responsável congratulou-se com “o sentimento geral de satisfação dos mais de 800 participantes nas 42 sessões realizadas”. Apesar de todos os desafios inerentes à situação atual de pandemia de Covid-19, este sentimento é “um alento para a década que agora iniciamos, cuja antecipação foi o mote inspirador do 37.º Encontro Nacional”. Um futuro que se antevê difícil, mas seguramente repleto de oportunidades, para a Medicina Geral e Familiar (MGF) e para os cuidados de saúde primários (CSP).

“Temos de estar preparados para um novo normal, mas disponíveis para projetar 20-30. E projetar 20-30 é mais do que apenas um momento… é uma tarefa que não será desenvolvida em poucos meses e que não se esgotou numa ou em várias sessões desta iniciativa. É preciso criar um movimento novo para o desenvolvimento da nossa especialidade e um trajeto para uma década, um movimento de aproximação a todos quantos estão envolvidos na evolução da MGF, não deixando ninguém para trás”, referiu Rui Nogueira.

O presidente da APMGF lamentou o facto de o inédito formato virtual não ter permitido o habitual “Encontro de encontros”, mas disse acreditar que “este Encontro de encontros [informais, de partilha de ideias e conhecimento e de convívio] será possível, dentro do ‘novo normal’, em março de 2021”.

Depois da pujança, a incerteza…

Depois de uma década de grande “pujança e robustez” para a MGF – com  a realização do congresso europeu da especialidade em Lisboa, em 2014, traduzindo a forte projeção da MGF em Portugal e na Europa; com a criação e o desenvolvimento de muitas unidades de saúde familiar (USF); com um grande crescimento a nível académico, materializado num elevado número de doutoramentos –, “entramos agora numa nova década com muita ambição, mas com muitas dificuldades”, sublinhou Rui Nogueira, em declarações ao Jornal Médico.

“Os primeiros anos desta nova década configuram um cenário inédito de incerteza. Após seis meses particularmente desafiantes, não sabemos o que vai acontecer no outono/inverno, mas vamos certamente enfrentar grandes dificuldades decorrentes da pandemia de Covid-19”, adiantou o MF ao nosso jornal, apontando uma dificuldade acrescida: a saída da carreira, por aposentação, de um número elevado de especialistas de MGF.

Paralelamente, e numa altura em que a necessidade é crescente, “estamos a perder 20 a 30% dos MF que formamos, devido aos atrasos e à forma inapropriada como os concursos para colocação de especialistas continuam a ser levados a cabo”, lamenta o presidente da APMGF, frisando que “com a necessidade que temos de MF não nos podemos dar a este luxo”. Assim sendo, advoga, “é preciso repensar urgentemente a forma como são feitos os concursos de ingresso na carreira após o internato da especialidade”.

De acordo com o responsável, “no mais recente concurso aberto pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), em 397 candidatos para 435 vagas, dificilmente conseguiremos preencher 300”. O grande risco desta desadequação no processo, conclui Rui Nogueira, “é o iminente retrocesso ao terrível número de 2015 de um milhão de cidadãos sem MF atribuído”, o que ganha contornos ainda mais preocupantes “se considerarmos o outono/inverno especialmente crítico que se vizinha”, tornando este início de década “particularmente negro”.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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