Pandemia leva médicos de família a fazer medicina de prioridades
DATA
01/03/2021 09:21:10
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Jornal Médico
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Pandemia leva médicos de família a fazer medicina de prioridades

Em finais de janeiro, a Unidade de Saúde Familiar (USF) Rainha D. Leonor, nas Caldas da Rainha, no distrito de Leiria, tinha em vigilância “mais de 200 pessoas” infetadas ou em isolamento. Esta situação refletiu-se num dos maiores picos de trabalho para os médicos de família que fazem “o acompanhamento telefónico diário, incluindo aos fins de semana ou datas festivas como o Natal”, refere a especilista em medicina geral e familiar e coordenadora da unidade, Paula Oliveira.

A rotina desta profissional implica agora “chegar de manhã, atualizar a plataforma ‘Trace-covid’, distribuir os novos casos pelos médicos de família”, fazer escalas para acompanhamento daqueles que não têm médico de família e distribuir por outros os doentes dos médicos afetos ao ADR Comunitário (Área de Doenças Respiratórias), para onde são normalmente encaminhados os casos suspeitos.

A braços com uma plataforma “complicada e muitas vezes sobrecarregada”, nesta USF os médicos optaram por criar um ficheiro Excel, no qual inscrevem todos os utentes a seguir.

“Sabemos quais são os que inspiram mais cuidados e a esses tento ligar sempre de manhã, a saber como passaram a noite”, contou Paula Oliveira, acrescentando que, depois, faz “algumas consultas gerais”, no intervalo das quais contacta mais alguns utentes em vigilância, antes de regressar às consultas e restantes tarefas diárias.

“Nota-se um enorme acréscimo de contactos por ‘e-mail’, seja para dúvidas em relação a sintomas, pedidos de receita ou pedidos de exame”, explicou a coordenadora da USF, somando a reposta a estes pedidos ao rol das tarefas diárias dos médicos.

Pelo meio, mais uns telefonemas para saber se os utentes infetados ou em isolamento precisam de “certificado de incapacidade temporária, se têm apoio para não terem de sair de casa, para informar sobre juntas de freguesia que prestam apoio e farmácias que levam medicamentos a casa ou  para dar altas clínicas”, relatou a médica.

Acresce, por cada telefonema, a azáfama de “preencher todos os dados na plataforma, passar as baixas, as altas, as receitas, os exames…”. Por isso, na maior parte dos dias, “priorizam-se os contactos, ficando os menos urgentes para fazer em casa, no final do dia, já fora das horas de trabalho”, sublinhou a médica.

No pico da terceira vaga, a coordenadora da USF chegou a “contactar doentes às 22:00”, tal como acontece com outros colegas que telefonam de casa e dos telemóveis pessoais. 

“Há sobrecarga dos telefones fixos do Centro de saúde, que só tem uma central que não conseguia dar resposta e teve que ser remodelada, além de que já há pessoas que não atendem números privados”, afirmou, ilustrando o dia a dia de quem anda há um ano “a fazer medicina de prioridades”.

Em 2020, apesar da pandemia, realizaram-se na USF 70 mil consultas, 60% das quais presenciais e que abrangeram 11 mil dos 14 mil utentes inscritos.

A diferença relativamente ao período pré-pandemia é que “ao fim do dia se fecha o cacifo com “a sensação de que fica sempre alguma coisa por fazer. Acorda-se de noite a pensar se nos esquecemos da tarefa x, do doente que nos ligou, da baixa que não passámos, se passámos a declaração de alta ou se o doente recebeu o ‘e-mail”, rematou Paula Oliveira.

Crónicas de uma pandemia anunciada
Editorial | Jornal Médico
Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

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