“Os doentes oncológicos precisam do seu médico de família”
DATA
08/03/2021 08:59:16
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Jornal Médico
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“Os doentes oncológicos precisam do seu médico de família”

“Os doentes com doenças crónicas, e não só os oncológicos, precisam de ter novamente os seus médicos de família”. Estas palavras de Ana Raimundo, proferidas enquanto médica oncologista que é, simultaneamente, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, traduzem a sua visão sobre a importância da Medicina Geral e Familiar no rastreio e diagnóstico do cancro, um papel que entende não estar a ser plenamente desempenhado por aqueles médicos terem sido desviados para o seguimento de doentes covid.

Na sua opinião, Portugal precisa de desenhar um plano de contingência para os doentes oncológicos, de modo a atenuar o impacto da pandemia de Covid-19 nos diagnósticos e tratamentos, reduzindo as listas de esperam que estão a crescer e intervindo na curva de sobrevivência a médio prazo

Olhando para a repercussão de um ano em que os serviços de saúde lidam com o novo coronavírus, confirma a perceção – “da população em geral, dos profissionais de saúde e dos próprios dirigentes” – de que “está a haver um impacto nos doentes não-covid, porque, quer a nível dos recursos humanos, quer das instalações, os serviços estão a ser desviados para o tratamento dos doentes covid, que são a prioridade”.

“Quando olhamos para dados mais objetivos, aquilo que chama mais a atenção é a diminuição do número de diagnósticos, a não realização de rastreios, o adiamento ou a não realização de consultas médicas, a não realização de consultas”, destaca, numa leitura abrangente: “É óbvio que isso vai ter impacto noutras doenças, em particular nas doenças crónicas, que precisam de cuidados de continuação.”

Embora entenda que a perceção geral é correta, considera que vai ser necessário esperar pelos dados dos registos oncológicos, nomeadamente do Registo Oncológico Nacional, para saber, efetivamente, quantos diagnósticos houve durante o ano de 2020, em que estadios foram efetuados, quais foram os tipos de cancro. “Muito provavelmente, se compararmos com o período homólogo de 2019, o que se vai verificar é que houve uma diminuição do número de diagnósticos. Sabemos que, com a não realização de consultas e com a não realização de exames complementares, houve diagnósticos de cancro que ficaram por fazer e que, depois, vão ser feitos em fases mais avançadas. Só quando tivermos acesso a esses dados é que vamos ter a noção do real impacto desta pandemia e do efeito indireto que teve sobre os doentes não-covid, nomeadamente nos doentes com cancro”, sublinha.

Um dos cenários que a oncologista define como “bastante preocupante” é o que envolve os cuidados de saúde primários, na medida em que o facto de os médicos de Medicina Geral e Familiar terem sido desviados para o seguimento de doentes com Covid-19 os impossibilitou de seguirem os seus doentes. “Basta pensarmos que a maior parte das pessoas com sintomas suspeitos de cancro entra no sistema através do seu médico de família, que investiga, que pede meios complementares de diagnóstico e que orienta para o hospital, para tratamento, se esse diagnóstico se confirma. Ora, há um afunilamento nessa entrada no sistema, o que é bastante preocupante”, argumenta Ana Raimundo, reforçando ainda que são igualmente os médicos de família os responsáveis pela realização de rastreios, como o cancro do colo do útero e do cancro do cólon. “Com a redução acentuada de consultas nos centros de saúde, é óbvio que estes rastreios também não estão a ser feitos”, nota.

Só os números poderão confirmar este cenário. Mas a médica oncologista não tem dúvidas de que assim será e de que, “provavelmente daqui a três ou quatro anos”, as consequências serão visíveis: “Se os diagnósticos são mais tardios, os tratamentos passam a ser paliativos e não potencialmente curativos e, dessa forma, terá impacto nas curvas de sobrevivência por tipo de cancro, com aumento das taxas de mortalidade”.

“Sabemos que quanto mais cedo ou em estadios mais precoces for diagnosticado maior a probabilidade de sucesso dos tratamentos e de cura. Se a doença for detetada em estadio IV, avançada, mestastizada, os tratamentos são mais complexos, mais longos e a probabilidade de cura baixa. As taxas de sobrevivência vão diminuir. A três anos, quatro anos, vai-se começar a verificar esse impacto, de uma forma global, mas, em tumores de comportamento mais agressivo e de evolução rápida, como as leucemias, os do pâncreas e do pulmão, poderemos começar a ver mais cedo”, realça.

Não obstante a diminuição de consultas e de exames, os serviços de saúde estão a responder às situações que a lei previu como prioritárias: afinal, há cancros em que o tempo de resposta tem de ser mais curto. Mas “é preciso que se cumpra”, comenta, deixando uma reflexão: “Temos de compreender que o sistema está sob grande pressão e não pode ter a mesma capacidade de resposta. Mas, deve haver algum plano de contingência, de maneira a conseguir que estes casos mais graves sejam tratados em tempo útil, para que as consequências não sejam assim tão acentuadas. E, depois, mesmo para os casos que não são assim tão prioritários, é preciso dar-lhes resposta, para que as listas de espera não fiquem demasiado grandes”. Na perspetiva da presidente da SPO, impõe-se que os cuidados em Oncologia sejam concentrados em determinados centros, que equipas cirúrgicas sejam desviadas para esses hospitais, de modo a que não se atrasem muito as cirurgias oncológicas. Estas são – diz – algumas medidas que poderão ser tomadas. Sob pena de se engrossarem listas de espera que já vinham de trás: “Essa recuperação vai exigir um planeamento e uma reorganização dos cuidados em Oncologia”, enfatiza, chamando a atenção para a importância de esse plano ter em consideração as diferenças entre as regiões de saúde, já que as necessidades e as capacidades instaladas não são necessariamente as mesmas.

Ana Raimundo reconhece que, além da pressão que os serviços enfrentam, um dos fatores que tem contribuído para os atrasos no diagnóstico é o medo que os doentes têm de recorrer aos hospitais. Não obstante, reafirma ser importante retomar a atividade dita normal. Passada a primeira fase, nos hospitais começou a verificar-se essa normalização. Mas nos centros de saúde não, porque os médicos continuaram a fazer o acompanhamento dos doentes covid. Porém, quando se estava a recuperar, entrou-se novamente numa “fase mais complicada”, com a segunda e terceira vagas: “Agora, os doentes voltarão a ter mais receio, ainda por cima sabendo que existem variantes com uma capacidade de infeção muito maior”, comenta a especialista.

Crónicas de uma pandemia anunciada
Editorial | Jornal Médico
Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

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