Artrite psoriática: a importância do combate ao subdiagnóstico
DATA
16/03/2021 12:20:38
AUTOR
Pedro Mendes Bastos, especialista em Dermatologia e Venereologia
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Artrite psoriática: a importância do combate ao subdiagnóstico

O Grupo Português de Psoríase (GPP) da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV) emitiu novas guidelines destinadas a apoiar a prática clínica no que respeita à escolha do melhor tratamento biológico para adultos com formas de psoríase em placas moderada a grave, com ou sem artrite psoriática (AP). O objetivo destas recomendações é proporcionar aos dermatologistas um algoritmo atualizado de suporte à decisão terapêutica1.

Em particular, estas novas recomendações enfatizam a importância de uma abordagem terapêutica de acordo com a presença ou não de artrite psoriática. A artrite psoriática (AP) é um componente da mais abrangente doença psoriática – os dados disponíveis apontam para o seu desenvolvimento em cerca de 30% dos doentes com psoríase2 – sabendo-se também que 84% dos doentes com AP foram primeiro diagnosticados com psoríase2. Não obstante, encontra-se subdiagnosticada, estimando-se que, após o diagnóstico de psoríase, haja um atraso de dez anos no diagnóstico da doença articular.3,4 Este cenário aumenta o risco de dano estrutural irreversível, prejudicial ao prognóstico destes doentes5.

É por isso que, em linha com as recomendações do GPP, a abordagem do doente com psoríase deve contemplar o rastreio de AP6.  É precisamente este o propósito do Check AP, um projeto que nasce da parceria entre a Dermatologia e a Reumatologia portuguesas, em colaboração com a Novartis, com o objetivo de validar e implementar na consulta de Dermatologia, de forma sistemática, um questionário de rastreio de artrite psoriática. Atualmente, são seis os centros hospitalares nos quais já está a decorrer o kick of deste projeto – contando, cada um deles, com uma equipa multidisciplinar constituída por um dermatologista e um reumatologista (ver caixa).

Os doentes com psoríase podem apresentar queixas do foro musculoesquelético atribuíveis a AP ou a outras doenças reumáticas7. Alguns estudos salientam que 15,5% dos doentes com psoríase podem sofrer de AP não diagnosticada8. Entre os doentes com psoríase que são referenciados para o reumatologista, muitos apresentam já dano estrutural. O Check AP, como parceria entre dermatologistas e reumatologistas, pretende contrariar este subdiagnóstico ou diagnóstico tardio de AP. 

O questionário EARP [sigla da designação inglesa Early ARtritis for Psoriatic patients] é uma ferramenta de rastreio de artrite psoriática, simples e de fácil interpretação, cuja aplicabilidade real está extensa e robustamente documentada9. As equipas multidisciplinares de investigadores, através da implementação deste questionário de rastreio nas consultas de Dermatologia e avaliação clínica posterior de todos os participantes com psoríase na consulta de Reumatologia, pretendem determinar a performance desta ferramenta de rastreio na população portuguesa. Uma vez confirmada a sua sensibilidade e especificidade na deteção de AP para a nossa população, este questionário, agora traduzido na língua portuguesa (adaptação cultural submetida para publicação), terá potencial para vir a ser implementado em larga escala a nível nacional. A vantagem será facilitar a identificação atempada pelos dermatologistas dos doentes psoriáticos em risco de desenvolver AP e que necessitam de referenciação ao reumatologista.

Este é um projeto monitorizado pela Episaúde, em colaboração com a Novartis, e que se espera que concorra para um diagnóstico atempado de AP nos doentes com psoríase e, por consequência, para uma intervenção terapêutica mais precoce e adequada, com potencial impacto a nível da morbilidade.

 

Aceda aqui ao questionário EARP.

 

 

 

 

Um trabalho multidisciplinar

Dada a multidisciplinaridade associada ao diagnóstico e tratamento da artrite psoriática, o projeto Check AP envolve, na sua fase de implementação inicial e até ao momento, a colaboração de seis equipas, cada uma delas constituída por um especialista em Dermatologia e um especialista em Reumatologia, em seis centros hospitalares, a saber:

- Centro Hospitalar do Baixo Vouga/Unidade de Aveiro – Manuela Loureiro (Dermatologia) e Anabela Barcelos (Reumatologia);

- Centro Hospitalar de Leiria/Hospital de Santo André – Martinha Henrique (Dermatologia) e Marília Rodrigues (Reumatologia);

- Centro Hospitalar de Lisboa Norte/Hospital de Santa Maria – Joana Antunes/Miguel Alpalhão (Dermatologia) e Elsa Sousa (Reumatologia);

- Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental/Hospital de Egas Moniz – João Sousa (Dermatologia) e Fernando Pimentel dos Santos (Reumatologia);

- Centro Hospitalar de São João/Pólo do Porto – Sofia Magina (Dermatologia) e Alexandra Bernardo (Reumatologia);

- Hospital CUF Descobertas – Pedro Mendes Bastos (Dermatologia), Paulo Ferreira (Dermatologia) e Patrícia Nero (Reumatologia).

 

Referências:

1.Torres T et al. Eur J Dermatol. 2020;30(6):645-654. 2. Gotllieb AB, et al. J. Dermatolog Treat 2006; 17:279. 3. Mease PJ, et al. J. Am Acad Dermatol 2013; 69:729. 4. Gladman DD, et al. Amm Rheum Dis 2005; 64 Suppl 2: ii14. 5. Eder L, et al. Arthritis Care Res (Hoboken) 2011; 63:619. 6.  Christophers E, et al. J Eur Dermatol Venereol 2010; 24:548. 7. Mease PJ, Gladman DD, Papp KA et al. Prevalence of rheumatologist- diagnosed psoriatic arthritis in patients with psoriasis in European/North American dermatology clinics. J Am Acad Dermatol 2013; 69: 729–735. 8. Villani AP, Rouzaud M, Sevrain M et al. Prevalence of undiagnosed psoriatic arthritis among psoriasis patients: Systematic review and meta-analysis J Am Acad Dermatol 2015; 73: 242–248.  9. Tinazzi I, Adami S, Zanolin EM, et al. The early psoriatic arthritis screening questionnaire: a simple and fast method for the identification of arthritis in patients with psoriasis. Rheumatology (Oxford). 2012;51(11):2058‐2063. doi:10.1093/rheumatology/kes187.

 

IIHD/006/022021

 

 

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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