Quanto maior o risco cardiovascular, maiores os benefícios de controlar a pressão arterial

“Nova estratégia para controlo da pressão arterial no horizonte?” foi o tema apresentado pelo cardiologista Carlos Aguiar, no âmbito do simpósio virtual promovido pela Tecnimede durante o 15.º Congresso Português de Hipertensão e Risco Cardiovascular Global, que decorreu de 26 a 28 de fevereiro. O coordenador da Unidade de Insuficiência Cardíaca Avançada do Hospital de Santa Cruz deu a conhecer algumas estratégias para o controlo dos diferentes valores da pressão arterial.

Enquadrando o tema do simpósio, o cardiologista recordou que se trata a hipertensão arterial (HTA) porque esta “é a principal razão para a mortalidade a nível global”, “responsável por 18% dos enfartes de miocárdio” e “35% de todos os acidentes vasculares cerebrais”.

Num país como Portugal, “o controlo de todos os hipertensos conseguiria evitar 2.000 enfartes agudos do miocárdio e 6.000 acidentes vasculares cerebrais a cada ano, no mínimo”, ou seja, evitaria “pelo menos um enfarte agudo do miocárdio a cada cinco horas e um AVC a cada duas horas”.

“Também sabemos que há muito trabalho pela frente, pois os dados do estudo PHYSA indicam que a maioria dos doentes portugueses hipertensos não estão controlados, não sendo muito diferente do que observamos em outros países”, sublinhou.

Controlar a pressão arterial “efetivamente reduz eventos cardiovasculares, como os enfartes agudos do miocárdio, os acidentes vasculares cerebrais, os eventos relacionados com doença arterial periférica”, mas também outros como a “insuficiência cardíaca”. “Existem outros benefícios associados ao controlo da pressão arterial, porque a HTA a longo prazo pode levar a fibrilhação auricular, a doença valvular cardíaca, a síndromes aórticos, a demência e a disfunção erétil, entre outras complicações”, explicou.

Carlos Aguiar apontou que, independentemente do valor inicial de pressão arterial, “cada 5 mm Hg de descida de tensão arterial sistólica faz reduzir o risco de AVC em 13%, de eventos coronários em 7%, de insuficiência cardíaca em 14% e de morte vascular em 5%”. Em valor absoluto, isto significa que os benefícios da redução da pressão arterial “vão ser tanto maiores quanto maior for o risco cardiovascular”.  “Assim, quando o risco cardiovascular inicial é elevado ou muito elevado, obtêm-se grandes benefícios cardiovasculares mesmo com descidas pequenas da pressão arterial sistólica, e até valores inferiores a 120 mm Hg”, indicou.

No que diz respeito às implicações dos dados mais recentes em termos práticos, o especialista apontou três: no início do tratamento, na continuação do tratamento e nos valores até aos quais se deve descer a pressão arterial sistólica.

As guidelines da Sociedade Europeia de Hipertensão e da Sociedade Europeia de Cardiologia “recomendam fortemente que o doente hipertenso deva ser avaliado quanto ao seu risco cardiovascular”. Sublinhou, a propósito, que os “alvos terapêuticos foram modificados nas últimas guidelines”: “Se o risco cardiovascular é elevado ou muito elevado, o tratamento deve ser iniciado assim que a tensão arterial seja superior a 130/85 [normal/elevada]. Se o risco cardiovascular for baixo ou moderado, o tratamento deve ser só iniciado a partir dos 140/90”, explicou.

Quanto à continuação do tratamento, aludiu que, “na maioria dos doentes, deve ser otimizado até que a pressão arterial sistólica esteja abaixo dos 130, desde que tolerado”. “Caso contrário, não estaremos a prevenir complicações associadas à hipertensão, mas apenas estaremos a adiá-las e isso não é o princípio que move a prevenção”, lembrou.

A terminar, deixou a nota de que descer a tensão arterial até valores de 120 mm Hg, em vez dos 130 mm Hg, “pode parecer um preciosismo, mas traduz-se em ganhos reais que serão substanciais na morbilidade e na mortalidade cardiovascular, particularmente nos doentes com risco cardiovascular elevado ou muito elevado”.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
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O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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