“Temos de ser médicos de família por inteiro”

O presidente da APMGF – Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Nuno Jacinto, não tem dúvidas da importância de exaltar o papel dos médicos de família através de um dia internacional dedicado. Um papel central nos sistemas de saúde e, em concreto, no Serviço Nacional de Saúde (SNS), pelo acompanhamento dos utentes ao longo de todas as fases da vida, garantindo, assim, o acesso universal, transversal e equitativo a cuidados de saúde de proximidade. 

 

A efeméride, que se assinala desde 2010, reconhece essa importância, mas esse reconhecimento – advoga – tem de se traduzir numa visão não tão hospitalocêntrica, mas mais centrada nos doentes e nos cuidados de proximidade, que são os que permitem dar resposta à maioria das necessidades em saúde.

“Esta centralidade dos médicos de família nunca foi tão evidente como durante esta pandemia, que veio reforçar ainda mais esse papel, veio acentuar essa importância. E veio mostrar que temos uma função decisiva enquanto gestores do percurso do doente e também enquanto gestores dos recursos disponíveis”, enfatiza.

E reforça esta ideia com um número “muito marcante”: “90 a 95% dos doentes com Covid ou suspeitos foram seguidos nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), no caso português”. “Se não houvesse médicos de família, imaginemos o que era este número avassalador de doentes a entrar pelos hospitais à procura dos cuidados que não tiveram noutro local”, comenta, rematando: “se há algo que a pandemia trouxe de bom aos CSP foi esse reforço de algo que já sabíamos – somos uma peça central deste puzzle que é o SNS.”

“Foi provavelmente o ano mais difícil das carreiras de todos nós”, sintetiza. A principal dificuldade foi perceber o que estava pela frente e de que forma havia que reorganizar os serviços, de modo a dar respostas à nova realidade. “E não foi fácil. Desmarcar consultas, criar áreas de atendimento a doentes respiratórios suspeitos de Covid, perceber como nós, enquanto médicos e enquanto cidadãos e membros de agregados familiares, podíamos lidar com este vírus”, relata.

Ao longo dos meses, a adaptação continuou, de modo a dar respostas às várias vagas da infeção por coronavírus. Houve que conciliar o atendimento telefónico praticamente diário, o apoio a estruturas de retaguarda, a presença em lares e nas equipas de testagem com a tentativa de manter a atividade primordial – os grupos de risco e vulneráveis, as crianças nos primeiros anos de vida, as grávidas, os rastreios…

“Agora que temos a pandemia com números mais controlados, temos a questão da vacinação, que está praticamente a cargo dos CSP. E, mais uma vez, temos os nossos profissionais – médicos, enfermeiros, assistentes técnicos – ocupados com esta tarefa que, sendo prioritária, não pode fazer com que os outros fiquem para trás. Não podemos resolver um problema criando outro. E, sendo absolutamente essencial vacinar a população e vacinar o mais depressa possível, temos de manter os restantes cuidados e manter a nossa vigilância”, adverte.

O desafio para os próximos meses é “como fazer a retoma” da atividade assistencial, sendo que, segundo Nuno Jacinto, é difícil dizer quem ficou por atender.

Estes foram os principais desafios e continuamos nos próximos meses – como conciliar a nossa atividade dita normal com as atividades da pandemia. E como fazer a retoma. “A verdade é que os CSP reinventaram o modo de funcionar. Sabemos que as consultas presenciais caíram para cerca de metade, mas também tivemos um enorme aumento dos contactos indiretos, para praticamente o triplo. Os utentes, talvez a maioria, se não foram vistos de uma forma foram vistos de outra. Claro que isso não substitui o primado que é a relação medico-doente, que é o contacto, a presença”, declara, reafirmando que “as consultas não presenciais não resolveram o problema”.

Em relação aos CSP não se pode aplicar a palavra recuperação: “Salvo exceções, como os rastreios, não temos atividade para recuperar. Uma grávida que não foi vista em 2020 não o vai ser em 2021, porque já não está grávida. Um diabético que tenha tido menos consultas em 2020 não vai ver isso compensado por ter o dobro das consultas em 2021.”

A palavra de ordem é retomar e conciliar a atividade com as tarefas da pandemia. E a retoma – afirma o presidente da APMGF – já está a acontecer. “Fomos forçados a encaixar no nosso dia a dia múltiplas atividades que não fazíamos anteriormente, e, a partir do momento em que essas tarefas diminuem, quer em volume, quer em frequência, automaticamente canalizamos todo esse tempo para as nossas atividades programadas, para a essência da nossa especialidade”, contextualiza.

“Esta é a mensagem principal – nunca parámos, nunca estivemos confinados a nível da MGF, tivemos foi de desempenar outras tarefas”, sublinha. E chama a atenção para o facto de já antes da pandemia os médicos de família terem uma “capacidade de resposta muito limitada”. “A pandemia veio acentuar essas dificuldades”, comenta.

Neste contexto, entende que é preciso reafirmar o papel dos médicos de família e que lhes sejam dadas condições para fazerem bem o que sabem fazer. “Temos de ser médicos de família por inteiro e não apenas médicos da pandemia”.

Há uma dualidade que vem ao de cima, lembra: “Ao percebermos que os médicos de família têm um papel importante e ao reforçarmos essa importância, estamos, ao mesmo tempo, a trazer à tona as carências dos locais onde trabalham. Basta pensar em coisas simples como o espaço físico das unidades, que ainda funcionam em prédios de habitação, com maus acessos, como a questão dos recursos humanos, com falta de médicos de família em muitos locais, em todas as carências a nível material e tecnológico”.

É neste cenário que a associação atua, para, de uma forma “atenta, positiva e construtiva”, continuar a defender a qualidade do exercício dos médicos de família. A prioridade das prioridades – reafirma o seu presidente – é colocar a visão do sistema no utente, não numa determinada instituição, uma visão alicerçada nos CSP, porque são eles que permitem gerir, de forma eficaz, quer o percurso do utente dentro do sistema, quer a utilização dos recursos.

 

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

Mais lidas