Mulheres mais assíduas nos cuidados médicos, mas menos informadas

A saúde da mulher tem especificidades próprias e no mês em que se assinala o Dia da Mulher, Ana Sofia Marafona e Tatiana Bastos, médicas internas de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar na USF Douro Vita, ACeS Douro II Douro Sul, sob a coordenação de Vera Pires da Silva, coordenadora do Grupo de Estudos sobre a Mulher da APMGF, falam sobre as particularidades da saúde no feminino.

 

As especialistas começam por referir que, embora os serviços de saúde se caraterizem pela igualdade de acesso e pela imparcialidade nos cuidados prestados à população, o género feminino utiliza com maior frequência os cuidados de saúde primários, o que leva, muitas vezes, a uma sobre utilização. Também nas consultas programadas, as mulheres parecem ser mais assíduas e cumpridoras face ao que se verifica no género masculino.

A abordagem médica para os géneros é diversa no que toca aos tópicos focados na anamnese e ao exame objetivo. Do mesmo modo, determinadas hipóteses diagnósticas terão em consideração algumas particularidades adequadas ao género”. Como se verifica, por exemplo, nos rastreios oncológicos, que são, de igual forma, diferentes para ambos os géneros.

As médicas internas referem também que a mulher apresenta uma série de etapas da vida que, pela sua exigência e implicação no seu dia a dia, tornam a sua abordagem mais complexa. Como é o caso da fase de gravidez, e de todas as transformações que ela acarreta, ou da menopausa, com mais impacto a nível psicossocial do que maioria das situações de andropausa.

Por outro lado, a maior taxa de longevidade da mulher, que se deve, em parte, à proteção cardiovascular decorrente das hormonas femininas durante o período fértil e à menor prevalência de fatores de risco nocivos à saúde, não impede que lhe seja atribuída uma morbilidade superior. “A mulher, sendo mais frequentadora das consultas e, consequentemente, mais queixosa do que o género masculino, é tida como tendo uma morbilidade superior. O género feminino é mais assíduo nas consultas médicas, tem maior proximidade com os cuidados de saúde durante a sua vida e é mais frequentemente sobre utilizador dos cuidados de saúde”.

No presente existem consultas específicas para a mulher, que englobam vários aspetos da sua saúde, sejam as questões relacionadas com o planeamento familiar, a vivência de uma saúde materna saudável, a realização de rastreios cervicovaginais ou rastreios do cancro da mama, bem como para as questões relacionadas com menopausa, ou outros assuntos específicos das mulheres. As medicas internas chamam a atenção para a importância da educação: “As necessidades da mulher ao longo da vida fértil e não fértil são tidas em consideração nos cuidados de saúde primários, mas, ainda assim, a educação para a saúde, nas diferentes faixas etárias, será sempre necessária no âmbito dos cuidados prestados às mulheres”. 

Outra questão importante no que respeita à saúde feminina é o facto de a maior parte dos testes clínicos ser feita em sujeitos masculinos, o que pode causar algum impacto nos tratamentos aplicados às mulheres.  Para Ana Sofia Marafona e Tatiana Bastos, as diferenças físicas e fisiológicas entre os homens e as mulheres marcam as especificidades dos tratamentos, sendo que “a farmacocinética e a farmacodinâmica de cada fármaco são afetadas por inúmeros fatores, como, por exemplo, a composição corporal e as caraterísticas do metabolismo”. Defendem, neste contexto, que os testes clínicos devem ter em consideração também as questões do efeito na fertilidade e sobre o feto no caso de gravidez.

Alguns aspetos da saúde da mulher continuam, no entanto, a ser menos discutidos, como é o caso das questões relativas à vivência da sexualidade de forma saudável e segura, a perimenopausa, a incidência das doenças sexualmente transmissíveis, saúde e bem-estar da mulher e família. “O tema da violência, nomeadamente em relações de intimidade, é o mais complexo, não só pelo impacto negativo que tem na saúde, mas também pela falta de formação fornecida aos profissionais de saúde nesta área”, acrescentam as profissionais de saúde.

Já no que respeita às gravidezes tardias, o adiamento da maternidade, mais visível nos países desenvolvidos, tem sido crescente ao longo dos anos, resultado do nível de educação mais elevado das mulheres, do investimento na carreira, da busca de segurança financeira e de uma relação amorosa estável e ainda da existência de métodos de contraceção eficazes. Apesar de as mulheres não o reconhecerem, esta situação pode trazer implicações sérias para a saúde da mãe e da criança. “Existe evidência de que o avanço da idade materna traz uma maior prevalência de doenças crónicas como a diabetes mellitus e hipertensão arterial, mais abortos espontâneos ou nados-mortos, gestações múltiplas, restrição de crescimento intrauterino, pré-eclâmpsia, anormalidades da placenta, e maior prevalência de partos distócicos. É necessário explicar que, à medida que a idade avança, aumenta o risco de anomalias cromossómicas nos fetos, aumenta o risco relativo de paralisia cerebral, a incidência de baixo peso ao nascimento, parto pré-termo e necessidade de internamento em UCI. Assim, é importante garantir a vigilância regular das grávidas com idade mais avançada, de forma a que estas possam concretizar o seu projeto familiar em segurança”, explicam as especialistas.

Embora as mulheres sejam, normalmente mais frequentadoras dos serviços de saúde, verifica-se, muitas vezes, que estão pouco informadas, não porque não exista informação nem vontade de aprender, mas, sim, pela não existência de acesso a informação validada e com linguagem adequada a cada mulher. A desinformação é igual entre géneros, mas no feminino tem consequências que se podem repercutir nas gerações vindouras. “É fundamental que o profissional de saúde possa demonstrar aptidões no que diz respeito à educação para a saúde e estar disponível para o esclarecimento de dúvidas, utilizando uma linguagem percetível para todas as mulheres”, advogam.

E é aqui que os especialistas de Medicina Geral e Familiar, pela sua abrangência de atuação longitudinal e o seu acompanhamento de proximidade, podem ter um papel fundamental ao auxiliar na literacia, na prevenção de doenças e na promoção de um planeamento familiar seguro, bem como na validação de receios e inseguranças das mulheres. “A prática de uma medicina holística, sempre com base na melhor evidência, e o seu amplo conhecimento na área da saúde da mulher, torna o especialista de Medicina Geral e Familiar o indicado para ajudar as mulheres a priorizarem a sua saúde”, concluem as médicas internas.

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.