Adalberto Campos Fernandes: "A prevenção deve incidir no acesso universal aos cuidados de saúde”

Os achados, desafios e recomendações do último estudo da Comissão Europeia relativo ao estado da Saúde em Portugal estiveram em foco, pela voz do professor da Escola Nacional de Saúde Pública e ex-ministro da tutela Adalberto Campos Fernandes, no simpósio “Innovation and Healthcare Process in the Cardiovascular patient in Portugal”. A sessão, com a chancela da Ferrer, integrou o Congresso Português de Cardiologia, que decorreu de 30 de abril a 2 de maio, em formato virtual.

 

O estudo “State of Health in the EU Portugal Country Health Profile 2019” foi o fio condutor da intervenção do professor na Escola Nacional de Saúde Pública e ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes. E, nesse contexto, começou por recordar que as doenças cardiovasculares (dcv) “constituem a primeira causa de morte global e Portugal não é exceção a este cenário”. Na sua perspetiva, nos últimos anos, a prevenção primária tem sido insuficiente e a carga daquelas patologias tem vindo a aumentar “ao ponto de chegarem a ocupar também o lugar cimeiro nas causas de morte”.

Apesar dos esforços reconhecidos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) em garantir cuidados universais e transversais, permanecem por resolver algumas dificuldades de acesso e por atender necessidades, sobretudo nos estratos sociais mais pobres. Com efeito, “o acesso ao SNS é condicionado pela distribuição geográfica dos cuidados de saúde e pelas condições socioeconómicas da população”. Para o orador, "a sua integração é um fator crítico para a implementação de boas práticas no âmbito das doenças cardiovasculares das e doenças crónicas em geral”, reitera o ex-ministro.

Quanto aos principais achados do estudo, Adalberto Campos Fernandes alerta para “uma tendência preocupante das gerações mais novas na adoção de comportamentos de risco conducentes ao excesso de peso e às doenças cardiovasculares, incluindo o consumo de álcool e o sedentarismo”. A propósito, concretizou, na sua intervenção, que um terço de todos os óbitos em Portugal é atribuível a comportamentos de risco. “No entanto, apesar de as doenças cardiovasculares continuarem a ser a principal causa de morte, tem-se observado um declínio significativo na mortalidade provocada por dcv”, contrapôs, de seguida.

“O acesso aos serviços de saúde, em particular aos cuidados primários, é crucial para a deteção e tratamento adequado das dcv. E, neste ponto, Portugal destaca-se pela rede de cuidados de saúde primários amplamente distribuídos”, apontou o especialista. “Assim, quando necessário, os doentes podem ser atempadamente referenciados às unidades de saúde hospitalares especializadas para receber o diagnóstico e o tratamento adequados. Contudo, a educação dos doentes, familiares e cuidadores continua a ser fundamental para o sucesso do tratamento; e este processo deve envolver a comunicação e a coordenação entre os diferentes profissionais de saúde e o contacto com os doentes cardiovasculares”, assinalou.

No entanto, defende que a coordenação e a comunicação entre os diferentes profissionais de saúde envolvidos na gestão destes doentes carecem de melhorias, impondo-se, além disso, uma abordagem global para a inovação que inclua ferramentas digitais e a gestão de Big Data. Preconiza, por isso, que deve haver um plano para a promoção da inovação e ser considerados novos modelos criados por Big Data capazes de prever a incidência a partir dos fatores de risco.

“Será também importante promover o desenvolvimento de um programa nacional de adesão à terapêutica para quem sofre de dcv e motivar os doentes a participar ativamente nos processos de decisões clínicas e regulamentares e, desta forma, atender às suas necessidades”, acrescentou.

Como conclusão, o ex-governante realçou que “as estratégias para a prevenção de dcv devem incidir na redução máxima das desigualdades, no acesso universal e na melhoria da saúde; na garantia de tratamento e cuidados adequados às necessidades do doente e baseados na evidência; no incentivo à responsabilidade individual e coletiva pela saúde; repensar novas políticas de promoção de saúde que priorizem a prevenção daquelas patologias e coloquem o doente no centro”.

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve

É quase esquizofrénico no mesmo mês em que se discute a carência de Médicos de Família no SNS empurrar, por decreto, os doentes que recorrem aos Serviços de Urgência (SU) hospitalares para os Centros de Saúde. A resolução do problema das urgências em Portugal passa necessariamente pelo repensar do sistema, do acesso e de formas inteligentes e eficientes de garantir os cuidados na medida e tempo de quem deles necessita. Os Cuidados de Saúde Primários têm aqui, naturalmente, um papel fundamental.