Frederico Carmo Reis: “Vestimos uma bata para trabalhar e munimo-nos de ferramentas cibernéticas para poder exercer”

Na sessão “A Bata e o Byte: Perspetivas em telessaúde”, no âmbito do 23.º Congresso Nacional da Ordem dos Médicos (OM), no dia 1 de junho, Frederico Carmo Reis, urologista e responsável de acesso à informação da OM frisou que a “telessaúde ajuda o utente a ceder aos cuidados e poderá trazer uma melhoria desses mesmos cuidados.”

A pandemia COVID-19 obrigou os serviços de saúde a repensarem a forma de manter os cuidados prestados à comunidade, tendo sido privilegiado o acesso à consulta por via telefónica ou videochamada.

“Cada vez mais, enquanto médicos vestimos uma bata para trabalhar e munimo-nos de ferramentas cibernéticas para poder exercer”, salientou o urologista, defendendo que este método já é “utilizado há muito tempo”, uma vez que a informática tem vindo a substituir o papel.

No que diz respeito aos benefícios da telessaúde, o especialista reiterou que tanto o médico, como o utente “apercebem-se de que pode haver melhoria na qualidade da informação”, ao permitir uma coordenação continua entre prestadores de saúde.

A melhoria da segurança é também referida como benefício, ao “evitar ou minimizar situações que possam causar dano”, ou que suscetíveis de o “causar na prática clínica”.

Por esta via, é igualmente possível promover uma política de funcionamento em que é desejável, desde logo para o utente, que ele vá cada vez mais cedo e seguro para o seu domicílio. “Se as ferramentas nos permitirem fazer essa vigilância precoce, há obviamente um benefício para o utente, para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e para todos nós, médicos”, argumentou.

Frederico Carmo Reis enfatizou ainda a melhoria do acesso e da eficiência, relevando atenções especiais “a cuidados de saúde no local e tempo certos; independentemente do status socioeconómico, localização física ou nível cultural, a informação passou a estar estruturada e houve uma redução da duplicação de meios complementares de diagnóstico”.

Contudo, segundo o urologista existem dificuldades na implementação da telessaúde. “O grande problema que nós vimos enquanto profissionais e, às vezes, o próprio utente, é a confiança neste novo modelo”, assinalou.

“Tivemos de aceitar uma nova tecnologia e, agora, temos de ter a capacidade de avaliar se a aceitação foi correta, perceber se estas aplicações nos foram úteis e se o que estamos a fazer é útil”, acrescentou Frederico Carmo Reis, explicando que “essa avaliação depende muito da qualidade do sistema, dos serviços de suporte e, naturalmente, da informação.”

Ainda nas necessidades resultantes do novo modelo, o especialista aponta para sistemas informáticos de qualidade, o que passa pela “melhoria global dos computadores e outros dispositivos utilizados na consulta”, as redes de telecomunicações devem “ser lestas e ubiquitárias” e os “sistemas de armazenamento de informação terão de ser redundantes”.

Além disso, considera “preponderante uma correta gestão de acessos: quer nos recursos humanos, a nível das instituições; quer nas plataformas informáticas, que devem, cada vez mais, permitir uma maior granularidade e definir níveis de acessos precisos a cada classe; eesmo dentro de uma classe profissional como a nossa, acesso seriado a cada área e obviamente a correta certificação dos profissionais.”

Antecipando o futuro, questionou: “O que é que podemos propor? Naturalmente, boas práticas de acesso na criação e uso da informação”.

Se “ser médico é um privilégio, os logins de médicos são ultraprivilegiados, acedem de uma forma quase universal a múltiplos diários clínicos; e nós temos de ser formados a utilizar corretamente, a não ter curiosidade indevida, a saber qual a informação pertinente e como criá-la, ajudando a delinear estratégias e a promover a aplicabilidade das mesmas no dia a dia dos profissionais”, fez questão de dizer Frederico Carmo Reis. E, quase a terminar o seu discurso, deixou um desafio: “Nós, OM, podemos dar ainda mais uma achega de segurança ao nosso doente e às instituições que trabalham com os nossos profissionais”.

Esta sessão contou ainda com a presença de Luís Goes Pinheiro, presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS); Rafael Franco, coordenador do laboratório de inovação da SPMS; e de Gustavo Cordeiro, coordenador da Rede Regional da Via Verde do AVC da região Centro. A moderação do encontro foi partilhada por Daniela Seixas, médica neurorradiologista e membro da Comissão Nacional para as Tecnologias de Informática na Saúde da OM e por Jorge Penedo, cirurgião e vice-presidente do Conselho Regional do Sul da OM.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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