Premência da otimização da anemia em doentes sujeitos a cirurgia eletiva
DATA
30/06/2021 09:36:29
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Jornal Médico
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Premência da otimização da anemia em doentes sujeitos a cirurgia eletiva

Com a situação pandémica gradualmente a melhorar em Portugal, e quando se começa a preparar a recuperação da atividade assistencial não realizada e fortemente impactada pela pandemia de COVID-19,  consideramos essencial a correta otimização da  anemia e da deficiência de ferro no doente candidato a cirurgia eletiva, resultando não só na eficaz  gestão de recursos como também na melhoria do desempenho das unidades hospitalares e da qualidade do tratamento prestado aos doentes.

De acordo com dados do Ministério da Saúde,  nos hospitais, a atividade assistencial em 2020, comparada com 2019, registou uma enorme diminui ção nas principais linhas de atividade. Em 2020 houve menos 1,2 milhões de consultas e, concomitantemente, a quebra de atividade foi também extensível  às cirurgias, com uma descida de 126 mil cirurgias  face a um volume de 704 mil cirurgias em 2019. 

Estamos, portanto, num momento adequado para definir e implementar estratégias que visem uma retoma efetiva da atividade assistencial. 

Entre estas estratégias, existe uma simples e  fácil de implementar: a otimização da anemia e da  deficiência de ferro, tanto em contexto pré-operatório como pós-operatório, o que impactará positivamente a gestão das reservas de sangue, a duração do internamento, a taxa de reinternamento e outros  indicadores de qualidade assistencial: 

 › Ao garantir um eficiente consumo de sangue, haverá uma melhor gestão das reservas disponíveis,  

A identificação e tratamento da anemia em contexto cirúrgico é parte integrante e essencial  do programa de gestão do sangue do doente (PBM  – Patient Blood Management), amplamente conhecido, discutido e afirmado pela Organização Mundial da Saúde e pela Comissão Europeia, e cujo  programa, em Portugal, está explanado na Nor ma de Orientação Clínica 011/2018, desenvolvido  pela Direção Geral de Saúde. Com esta gestão é  expectável diminuir em 51,2% as transfusões, em  mais de 10% os internamentos e 37,2% os rein ternamentos, apresentando também uma redução de custos (mortalidade, internamento, consultas, etc.) de 6,3% (o que perfaz uma poupança de um  valor estimado em cerca de 67,7 milhões de euros). A pandemia mostrou claramente as vulnerabi lidades do nosso sistema de saúde. Não obstante, mostrou-nos que ainda há tempo para refletir sobre normas de orientação clínica e procurar oportunida des para melhorar os resultados em termos de saúde. Sabemos que esta recuperação da atividade cirúrgica será gradual. Mas também sabemos que é possível atuar no imediato.  Cabe assim a todos nós unir esforços e valorizar a  atempada e apropriada identificação e tratamento da  anemia e da deficiência de ferro, o que permitirá o agendamento atempado das intervenções cirúrgicas necessárias. 

› Em contexto pré-operatório, a atempada otimização do doente anémico terá impacto positivo nos desfechos clínicos associados da cirurgia,  traduzindo-se em menor número de complicações,  menor necessidade de transfusões, menor morbilidade e, consequentemente, menor mortalidade. 

› Resultará também na redução do tempo de inter namento pós-cirúrgico e na redução da taxa de readmissões, permitindo uma permanência mais  curta em contexto hospitalar por parte do doente  e uma maior disponibilidade de camas de internamento que, também, permitirá uma recuperação  mais eficaz da atividade cirúrgica. É igualmente  importante que esta otimização da anemia e da deficiência de ferro seja também avaliada e efetuada em contexto pós-operatório. 

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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