Webinar debateu “efeitos secundários da comunicação” na pandemia
DATA
22/07/2021 10:07:02
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Jornal Médico
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Webinar debateu “efeitos secundários da comunicação” na pandemia

A problemática da desinformação em contexto pandémico esteve em foco no 3.º Webinar ISBE & Plataforma Saúde em Diálogo, que decorreu no dia 9 de julho, e que juntou um vasto painel de convidados especializados na área das ciências sociais e da saúde para debater o tema: “Pandemia: Efeitos Secundários da Comunicação”.

A sessão, que teve como parceiros a Roche e a PLMJ, centrou-se na importância da comunicação durante a pandemia de COVID-19 e os efeitos da mesma no setor da saúde, bem como na análise das melhores formas de comunicar, tendo em conta o momento atual.

Alguns dos episódios comunicativos mais marcantes, e exemplos de avanços e recuos, durante a pandemia, relacionados com os temas das máscaras ou da vacinação, serviram de cenário e ponto de partida ao debate, que foi aberto por António Vaz Carneiro, presidente do conselho científico do Instituto de Saúde Baseada na Evidência (ISBE) e moderado por Ana Peneda Moreira, jornalista da SIC, Joaquim Ferreira, professor de Farmacologia Clínica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e Joana Sousa, diretora de comunicação na FMUL.

“Esta pandemia veio demonstrar de uma maneira absolutamente devastadora as nossas dificuldades em comunicarmos os conceitos em saúde, no sentido em que a quantidade e qualidade da informação dada é de facto extraordinariamente variável e independentemente das fontes”, contextualizou António Vaz Carneiro, lançando o debate sobre os “efeitos secundários” que podem ser diagnosticados a uma comunicação que no último ano e meio nem sempre foi clara, correta ou rigorosa.

Todos os participantes, sem exceção, traçaram o seu diagnóstico, considerando que “faltou profissionalismo na comunicação”.

“É exatamente para lidar com o imprevisto que existem peritos em comunicação”

Fausto Pinto, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) apontou mesmo que a “falta de profissionalismo na abordagem da comunicação por parte da tutela e dos seus organismos foi o aspeto que mais contribuiu para o problema da comunicação”, lembrando que “é exatamente para lidar com o imprevisto que existem peritos em comunicação”. Outro elemento que o orador considera que “falhou” foi o envolvimento da população. “É fundamental que as pessoas se sintam envolvidas no processo e de uma forma transparente se sintam esclarecidas, mesmo em situações de grande incerteza, algo que falhou muitas vezes, por múltiplas razões, pelo receio, pela incerteza e por tentar minorar o impacto da pandemia na população de forma a não criar o pânico”. Por fim, outro fator negativo mencionado pelo diretor da FMUL foi “o palco dado a qualquer indivíduo de poder dizer o que lhe apetece sem qualquer filtro ou avaliação – isso de facto aconteceu e continua a acontecer – e às vezes até com pessoas com responsabilidades significativas e que nunca foram confrontadas com outro tipo de opinião ou outros aspetos que poderiam ajudar a elucidar a população”.

Cristina Sampaio, professora associada de Farmacologia Clínica na FMUL, concordou em absoluto com Fausto Pinto, acentuando que “existe uma especificidade de comunicação em termos de saúde pública e esta especificidade não foi posta em prática durante este processo”. “A comunicação do Governo e da Direção-Geral da Saúde (DGS) falhou por não se ter socorrido de suficiente número de profissionais e técnicos e de não ter preparado as suas comunicações de uma forma precisa”, reforçou a oradora, acrescentando que “os efeitos secundários que temos assistido de má comunicação têm sido a perda de confiança nos interlocutores, depois a perda de confiança generalizada e ainda a perda de confiança nos profissionais de saúde, que ouvimos e vemos dizer mensagens contraditórias todos os dias”.

Incerteza inicial abriu caminho a correntes comunicacionais “obscurantistas”

Fazendo uma retrospetiva, o vice-almirante Gouveia e Melo, coordenador da task-force para a vacinação COVID-19, salientou que “no início da pandemia, devido à incerteza, confusão e desorientação foi aberto o caminho para outras correntes comunicacionais – que chamo de obscurantistas - poderem ser exploradas, em termos do negacionismo das vacinas e outras ou correntes com interesses bem específicos, essas sim bem estruturadas, muitas vezes subliminares, que envolveram por exemplo qual a campanha de qual era a vacina melhor ou pior e as limitações das vacinas”. Desta forma, sublinhou, “a superexposição dos atores tradicionais do palco informativo num período de incerteza criou uma grande oportunidade para outros atores terem entrado no círculo mediático e condicionarem muitas agendas, muitas vezes apenas para perturbarem a perceção da realidade”.

Por outro lado, para o coordenador da task-force para a vacinação COVID-19, “hoje, muita da comunicação não é moderada, fruto das redes sociais, e como tal, é permitida uma expansão quase que exponencial e em rede de certo tipo de fenómenos sociais”.

Maria do Rosário Zincke, presidente da Plataforma Saúde em Diálogo salientou que os efeitos da má comunicação “não foram secundários, mas sim diretos”, uma vez que “a informação contraditória gera insegurança e descrença, seja no uso de máscara, seja na vacinação”. Depois, segundo a dirigente, “comunicou-se demais a pandemia, o que gerou insegurança e desânimo nas pessoas que têm outros problemas de saúde, nomeadamente doenças crónicas, ou pessoas vulneráveis do ponto de vista social ou que vivem isoladas, com efeitos diretos no acesso a consultas, exames ou diagnósticos”.

Para Ricardo Costa, diretor-geral de Informação do Grupo Impresa, “estes efeitos secundários da comunicação não foram possíveis de evitar por ninguém”, considerando que “foi a primeira pandemia que se viveu num período de comunicação total, em tempo real e em canais de comunicação paralelos”.

Na opinião de Ana Delicado, socióloga e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, “as pessoas têm mais tolerância para os desacertos da ciência do que se pensa”, alertando que “o que as pessoas não gostam é de ter mensagens dissonantes por parte do poder político”. 

“Os portugueses podem ser pouco instruídos, mas não são estúpidos”

Roberto Roncon, intensivista e professor associado da FMUP, chamou a atenção para a necessidade de gerar confiança, antecipando os problemas e fazendo uma correta gestão das expetativas”, considerando que “muitos dos erros de comunicação feitos ao mais alto nível estiveram relacionados com esta má antecipação dos problemas, a uma péssima gestão de expectativas e ainda a uma politização da ciência, muitas vezes instrumentalizando os dados científicos quando interessava ou ignorando alguns dados científicos quando não interessava”. E na sua opinião, “os portugueses podem ser pouco instruídos, mas não são estúpidos e perceberam à distância quando isso aconteceu ou acontece”.

Por fim, Eduardo Nogueira Pinto, advogado, partner da PLMJ onde é coordenador da área saúde, ciência da vida, observou que “o que falhou neste último ano e meio na comunicação da pandemia foi, em primeiro lugar, não se terem criado canais oficiais que falassem menos, mas com maior clareza e maior consistência, algo que deixou o caminho aberto a todas as outras formas de comunicação e outros intervenientes que quiseram avançar para o palco e ter protagonismo”. Ora, como defendeu, “temos de ser transparentes até a anunciar a nossa própria ignorância”.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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