Casimiro Cavaco Dias: “A pandemia deverá ser ponto de viragem para um futuro sistema de saúde mais resiliente”

Na apresentação do livro “Pandemia: Resiliência do Sistema de Saúde”, com a chancela da editora Almedina, que decorreu a 12 de julho, o autor e especialista internacional em sistemas de saúde, Casimiro Cavaco Dias, manifestou a expectativa de que a pandemia “seja um ponto de viragem no sistema de saúde”. Espera, ainda, que a sua experiência no desenvolvimento de sistemas de saúde na Europa, Ásia Central, África, Américas e Caraíbas, contribua para o atual debate acerca dos mesmos.

O lançamento do livro, coapresentado por Adalberto Campos Fernandes e Constantino Sakellarides, que felicitaram o autor pela simplicidade, organização e fácil entendimento da obra, levou presencialmente à Livraria Almedina, em Coimbra, vários convidados para conhecer, em registo escrito, as reflexões e a visão de uma personalidade que, também por esta via, procura que a sua larga experiência no desenvolvimento de sistemas de saúde na Europa, Ásia Central, África, Américas e Caraíbas, possa contribuir para um debate da maior atualidade.

A pandemia colocou os sistemas de saúde sob pressão e testou a sua resiliência”, sublinhou Casimiro Cavaco Dias, razão pela qual o seu livro convoca a caminhar em cinco direções que permitam: posicionar a saúde na agenda de todos, transformar os sistemas de saúde, mudar o paradigma da resiliência, existir colaboração global e ter comunidades resilientes e inclusivas.

Nessa perspetiva, “devemos pensar e transformar o sistema de saúde, não apenas em termos das suas funções, mas sobretudo das suas inter-relações e dinâmica”.

Relativamente à avaliação que faz da prestação dos especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF), Casimiro Cavaco Dias, entende que “os cuidados de saúde primários [CSP] tiveram um papel central na resposta à pandemia, através de triagem, testagem, apoio ao isolamento e apoio psicossocial na comunidade”, considerando que são ainda mais importantes para assegurar “equidade na gestão de emergências de saúde pública e no acesso a serviços essenciais de saúde”.

“Os modelos de serviços de saúde devem ser centrados na pessoa e na comunidade onde vive, ao contrário do tradicional foco limitado a doenças específicas. Tal transformação do sistema de saúde para centrar os serviços na pessoa permite a distribuição adequada dos recursos onde estes são mais necessários. Os benefícios da prevenção, tratamento ou reabilitação podem ser assegurados não apenas nas unidades de saúde, mas também em casa, no local de trabalho e na comunidade”, acrescentou o autor.

Casimiro Cavaco Dias alertou, igualmente, para o facto de as crises serem um momento de “confusão, incerteza e desinformação para os profissionais e para os utilizadores dos serviços (…)”,o que torna “essencial reforçar o sistema (…), incluindo a coordenação entre centros de saúde, hospitais e outros serviços”. Para o especialista, a resposta à pandemia passa pela confiança e comunicação. “A confiança acontece quando as pessoas falam com o seu médico ou enfermeiro de família, que conhecem há muitos anos. Sem surpresa, as comunidades mais vulneráveis, com pouco contacto com o sistema de saúde, estão em maior risco de desinformação”, justificou.

Segundo o autor, o livro traz uma compreensão dinâmica da resiliência do sistema de saúde, não apenas para os especialistas, mas para todos os que participam na resposta à pandemia e na recuperação económica e social.  Pretende assim, contribuir para o debate sobre o “novo normal”, dar um sentido coletivo à crise e explorar ideias que abram caminho ao futuro.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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