APMGF classifica de “profundamente desrespeitosas” declarações do ministro Manuel Heitor

A direção nacional da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) refuta, por completo, as palavras do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, relativamente à ideia de que a MGF não necessita de uma formação tão exigente como outras especialidades médicas.

Em entrevista ao Diário de Notícias (DN), Manuel Heitor afirmou que no “Reino Unido o sistema está diversificado, sobretudo aquilo que é a medicina familiar, que tem um nível de formação menos exigente” face a outras especialidades. O governante acrescentou ao DN que, “para formar um médico de família experiente, não é preciso, se calhar, ter o mesmo nível, a mesma duração de formação, que um especialista em Oncologia ou (…) em doenças mentais”.

Em comunicado, a APMGF considera que as citadas declarações do ministro são “profundamente desrespeitosas para com os médicos de família portugueses e surgem em completa contradição com a tendência verificada nas últimas décadas em Portugal, que assistiu ao consolidar da especialidade de MGF”. Sublinha, igualmente, que esta evidência é comprovada pela grande procura que estes especialistas têm no mercado global.

“A MGF deve ser respeitada enquanto especialidade médica autónoma, com aptidões e conhecimentos próprios”, desenvolvendo uma “abordagem generalista que não a torna menos complexa e exigente do que qualquer outra especialidade médica, antes pelo contrário”, assinala a associação.

A APMGF solicita, desde já, com carácter de urgência, uma reunião com a ministra da Saúde, para discutir as implicações das ideias sugeridas pelo seu colega de executivo. Nessa oportunidade, convidará o Governo a clarificar as suas propostas e intenções relacionadas com a formação médica e, em particular, no âmbito da MGF. O objetivo é entender “se o executivo pretende continuar a ser um agente de progresso na formação médica de qualidade em Portugal e na construção de um Serviço Nacional de Saúde (SNS) bem apetrechado de recursos humanos”; ou – sublinha a mesma nota – se o propósito é “reduzir o internato de MGF apenas e só com fins políticos, adotando uma lógica de formação ‘fast-food’”, em prejuízo da respetiva “qualidade técnico-científica (…)”, o que “em nada ajudará a atingir o objetivo de atribuir um médico de família a todos os Portugueses”, sendo certo, argumentam os responsáveis associativos, que pela via do “retrocesso” será ainda mais difícil a retenção destes especialistas no SNS.

Caso se venha a verificar este cenário de inversão, a APMGF deixa claro que “não pactuará com qualquer tentativa de abreviar e aligeirar a formação dos médicos de família portugueses”, ao sustentar que isso iria comprometer a abrangência da sua ação e, consequentemente, a qualidade na prestação de cuidados de saúde.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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