Ana Paula Cunha: dermatite de contacto a cosméticos
DATA
12/09/2022 09:10:36
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Jornal Médico
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Ana Paula Cunha: dermatite de contacto a cosméticos

O simpósio “Dermatite de contacto alérgica – da relevância pessoal à ocupacional”, integrado no programa do dia 8 de julho da Reunião da Primavera, foi promovido pelo Grupo Português de Estudo das Dermites de Contacto (GPEDC) da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV). Esta sessão, moderada por Martinha Henrique e Teresa Correia, contou com um painel de três preletoras, cada uma das quais debateu um tópico específico no âmbito das dermatites de contacto. Ana Paula Cunha, que exerce atividade no Serviço de Dermatologia e Venereologia do Centro Hospitalar e Universitário de São João, no Porto, traz o tema relacionado com a dermatite de contacto a cosméticos.

A propósito da dermatite de contacto a cosméticos, Ana Paula Cunha começa por esclarecer que “a palavra cosmético deriva do grego ‘Kosmetikós’ e que significa hábil em adornar”. Na prática, esta palavra remete para “qualquer produto utilizado com a finalidade de limpar, embelezar ou modificar a aparência para a tornar mais atraente”. Há, contudo, produtos híbridos, que recebem a classificação de fármacos e de cosméticos, como é o caso de champôs anti-seborreicos (por exemplo, minoxidil tópico), antitranspirantes e produtos antienvelhecimento. “A busca pela beleza conduziu ao incremento de produtos cosméticos segmentados, por idade, por área corporal e por função”, apontou Ana Paula Cunha, referindo que “o aumento da quantidade e da variedade de produtos no mercado promove um maior contacto com diferentes alergénios nas múltiplas formulações, além de um aumento de efeitos adversos”.

“Apesar da ampla utilização de cosméticos, os eventos graves não são frequentes, ainda assim registam-se reações leves, como o prurido, ardor ou xerose, que podem ocorrer em mais de 10% da população adulta. As dermatites de contacto irritativas – as mais comuns – em geral, são ligeiras e transitórias. Já as dermatites de contacto alérgicas, que surgem devido a múltiplos alergénios, são, geralmente, mais graves e obrigam a utilizar terapêuticas farmacológicas mais interventivas.”

Conforme explicou Ana Paula Cunha, “as dermatites de contacto a cosméticos surgem tanto no âmbito pessoal, como em contexto profissional”, referindo, a título de exemplo, as cabeleireiras, as esteticistas ou as empregadas de limpeza. “Na dermatite de contacto a cosméticos, tal como em qualquer dermatite de contacto, é essencial uma história clínica cuidada. Devemos lembrar-nos que a reação surge nas 24 a 48 horas após o contacto com o alergénio.

O diagnóstico de certeza, além da clínica, assenta nos resultados da biópsia e em testes epicutâneos”, informa a dermatologista, destacando, ainda, a necessidade de realizar “um diagnóstico diferencial das dermatites de contacto (DC)”, dado que “as dermatites de contacto, por vezes, mimetizam outras dermatoses comuns na prática clínica”. No diagnóstico diferencial das DC a cosméticos, “embora na maior parte das vezes seja simples distinguir entre DC e outras dermatoses, é preciso ter em conta as dermatoses inflamatórias, como a psoríase, as placas eritematosas ou as placas eritemato-descamativas, que podem estar associadas a eczemas de contacto crónicas”.

E, segundo Ana Paula Cunha, “o mesmo acontece nas dermatites seborreicas”. Adicionalmente, a dermatologista menciona que “nas dermatites atópicas, por vezes, há concomitância com eczemas de contacto alérgico, uma vez que a barreira dermo-epidérmica está alterada em doentes com eczema atópico”. “Quando pensamos em dermatites de contacto devemos ter uma metodologia de estudo e devemos suspeitar da presença de alergénios, de acordo com os produtos que o doente usa e tendo em conta as zonas afetadas, recomendando-se a realização de testes a diferentes alergénios (séries básicas e séries complementares).” Quanto aos testes epicutâneos, Ana Paula Cunha lembra que, “apesar da simplicidade na sua realização, é necessária experiência para selecionar os alergénios, para interpretar e reconhecer a relevância clínica dos resultados obtidos”.

 

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