As reações à nomeação de Manuel Pizarro como ministro da Saúde
DATA
12/09/2022 11:27:04
AUTOR
Jornal Médico
As reações à nomeação de Manuel Pizarro como ministro da Saúde

Manuel Pizarro é o novo ministro da Saúde, tendo tomado posse do cargo no dia 10 de setembro. Vários representantes dos profissionais de saúde já se pronunciaram acerca da escolha do ex-secretário de Estado e eurodeputado. A Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), a Ordem dos Médicos (OM), a Federação Nacional dos Médicos (FNAM), ou o Sindicato dos Enfermeiros (SE), manifestam sinais de esperança no sucessor de Marta Temido, porém, deixam o alerta de que medidas impostas pelo Governo podem dificultar avanços e negociações nas melhorias do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O presidente da APMGF, Nuno Jacinto, sublinha que a associação representativa dos médicos de família portugueses encara com esperança a etapa que agora se inicia: “desejamos os maiores sucessos ao Dr. Manuel Pizarro nestas novas funções, ansiando que seja capaz de corrigir o rumo que tem sido seguido pela tutela e que conduziu o sistema de saúde português em geral, e o SNS em particular, a uma situação de extrema gravidade”.

Mais ainda, Nuno Jacinto declara que da parte da Associação tudo será feito para manter um espírito construtivo e de diálogo com os novos interlocutores da João Crisóstomo: “a APMGF mostra-se desde já disponível para reunir e colaborar com a nova equipa ministerial, de modo a que possamos construir soluções que permitam aos médicos de família exercer a sua atividade com qualidade e segurança, valorizando e respeitando o seu trabalho. Só assim será possível garantir que cada residente em Portugal tenha ao seu lado um verdadeiro Médico de Família e assim tenha acesso aos cuidados de saúde que precisa e merece”, lê-se na mensagem partilhada na página da APMGF.

Para Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, a escolha de Manuel Pizarro para ministro da Saúde é “uma decisão sensata” que recai sobre alguém “tecnicamente preparado e com peso político”, com o desafio imediato da falta de profissionais no SNS. Além de conhecer bem o sistema de saúde português e os sistemas europeus, “tem mostrado ao longo da sua carreira ser um excelente gestor de recursos humanos”, que demonstra respeito pelos profissionais de saúde e pelas estruturas que os representam, como a Ordem dos Médicos, ao que acresce o facto de já ter sido secretário de Estado Adjunto e da Saúde, de ser médico e conhecer os problemas do SNS.

Porém, o desempenho de Manuel Pizarro, a quem reconhece potencial para exercer o cargo, estará bastante limitado pelas condições que o primeiro-ministro, António Costa, lhe der, acrescenta. “Se o senhor primeiro-ministro não der as condições adequadas ao doutor Manuel Pizarro para ele exercer o cargo de ministro como deve ser e como ele deseja, seguramente, é óbvio que podem acontecer poucas alterações. E nós precisamos com urgência de alterações estruturais ao nível do SNS, precisamos de tornar o SNS mais competitivo, precisamos de melhorar as carreiras médicas e dos outros profissionais, precisamos de melhorar o dia-a-dia das pessoas, que mais médicos optem por ficar no SNS”, defendeu Miguel Guimarães.

A mesma opinião tem a FNAM, tendo em conta que considerou que se o primeiro-ministro, António Costa, insistir em aplicar o programa do Governo, o Sistema Nacional de Saúde (SNS) vai “acabar dentro de pouco tempo”, independentemente de quem for o ministro da Saúde. “Se o primeiro-ministro diz que vai aplicar o programa do Governo, é evidente que o SNS vai acabar dentro de pouco tempo. Estamos perfeitamente exaustos, nós e os senhores enfermeiros”, afirmou.

O presidente do SE, Pedro Costa, espera que o novo ministro da Saúde "tenha capacidade e disponibilidade para continuar a negociar com os profissionais de saúde", uma vez que "há problemas urgentes a resolver na enfermagem em Portugal". Nesse sentido, refere ser importante que o processo negocial com a classe prossiga.

O sindicato reitera a sua disponibilidade "para dialogar com o próximo titular da pasta da Saúde e para ser uma força mobilizadora para a resolução dos problemas que afetam os enfermeiros portugueses".  Por isso, o presidente do SE “espera que se mantenha a reunião agendada para o próximo dia 14 de setembro, com vista a dar continuidade ao processo negocial que tem vindo a ser acordado desde maio”.

Manuel Pizarro, especialista em Medicina Interna, e ex-secretário de Estado da Saúde nos dois executivos socialistas liderados por José Sócrates, entre 2008 e 2011, tomou posse como ministro da Saúde no sábado, 10 de setembro, sucedendo a Marta Temido, que se demitiu do cargo em 30 de agosto.

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
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