Intervenção terapêutica no doente hipertenso com fatores de risco associados
DATA
28/09/2022 15:20:01
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS



Intervenção terapêutica no doente hipertenso com fatores de risco associados

A propósito do Dia Mundial do Coração, recuperamos a experiência de Ana Correia de Oliveira, especialista em Medicina Geral e Familiar e coordenadora da USF Cedofeita, na gestão da hipertensão, ilustrada através de um caso da sua prática clínica, demonstrativo da intervenção terapêutica adequada ao doente hipertenso, com fatores de risco associados.

O doente descrito no primeiro caso trata-se um fumador de 62 anos, medicado com losartan e hidroclorotiazida 100/25 mg. Quando se apresentou na consulta programada de hipertensão o doente registava uma pressão arterial de 152/85 mmHg, uma frequência cardíaca de 78 bpm e um índice de massa corporal (IMC)= 30.46 kg/m2, com aumento de peso durante a pandemia.

O estudo analítico revelou uma hemoglobina=14.4 g/100ml, glicose=86 mg/dl, uma função hepática normal, creatinina=0,85mg/dl, um colesterol LDL de 98,6mg/dl e uma microalbuminúria em amostra de urina <0.3 mg/mmol. Em relação a este parâmetro, a especialista alerta para a relevância da sua pesquisa na deteção precoce de lesão renal, independentemente dos valores da creatinina. Do quadro clínico em geral, Ana Correia de Oliveira realça ainda obesidade indicada pelo IMC e o tabagismo como fatores de risco cardiovascular (CV), conforme preconizado nas guidelines da Sociedade Europeia da Cardiologia (ESC) de 2021.

“Uma das novidades presente nestas guidelines, em relação a edições anteriores é referente ao SCORE usado para o cálculo do risco aterosclerótico e cardiovascular: o SCORE 2 que passou a contemplar a previsão de eventos cardiovasculares fatais e não fatais, nomeadamente o enfarte agudo do miocárdio (EAM) e o acidente vascular cerebral (AVC), a partir da avaliação das comorbilidades e fatores de risco associados. Para doentes com idades superiores a 70 anos deve ser usado o SCORE 2-OP”, aponta.

Ainda sobre a avaliação do risco CV, Ana Correia de Oliveira reitera a “importância da avaliação e abordagem do risco CV no contexto global do doente, neste caso o doente hipertenso, com todas as consequências que esse risco comporta”. 

“Uma vez determinado o risco CV através do SCORE 2, deve ser consultado o algoritmo terapêutico incluído nas guidelines para saber como atuar. Sendo o tabagismo um dos principais fatores de risco cardiovascular, as guidelines recomendam um breve aconselhamento e incentivo à cessação tabágica, apontando as suas vantagens. As guidelines também incluem recomendações sobre os hábitos alimentares que devem ser adotados para minimizar o risco CV, sendo privilegiada a dieta mediterrânea e a redução do consumo de sal, restringindo-o a um máximo de cinco gramas diários”, afirma.

“Para um adequado controlo da hipertensão arterial as guidelines recomendam a Auto-Medição da Pressão Arterial (AMPA), quando a Monitorização Ambulatória da Pressão Arterial (MAPA) não for viável. A AMPA deve ser feita pelo menos durante três-quatro dias, mas preferencialmente durante sete dias consecutivos, em dois períodos do dia: duas medições de manhã e outras duas ao final do dia, com um intervalo de um a dois minutos entre elas. É importante que o aparelho esteja calibrado e sugere-se que tenha memória para avaliar a evolução da pressão ao longo do tempo”, acrescentou.

Neste caso clínico, a média das medições por AMPA foi de 148/82 mmHg, o que indicou que o doente não se encontrava controlado, justificando por isso uma intervenção terapêutica. Esta foi então decidida segundo as evidências e os critérios da melhor prática clínica, nomeadamente: a importância de definir o valor alvo da pressão arterial a alcançar com a respetiva terapêutica e o uso precoce de associações terapêuticas fixas e eficazes em primeira linha com evidência demonstrada e que aumentem a adesão terapêutica.

“Ao consultar as guidelines, que foram concebidas a partir das melhores evidências disponíveis, recomenda-se como primeira linha terapêutica uma associação dupla à base de um Inibidor da enzima de conversão da angiotensina (IECA) ou antagonista do recetor da angiotensina II (ARA II) associado a um bloqueador dos canais de cálcio ou diurético”, referiu. Quanto à escolha entre IECA ou ARA II, o estudo ASCOT revelou benefícios no uso da associação do perindopril com amlodipina na redução da mortalidade CV e mortalidade total.

Quanto à escolha do diurético, Ana Correia de Oliveira manifesta preferência por diuréticos thiazide-like, como a indapamida, devido à redução de eventos CV e mortalidade que esta classe confere. Assim, foi escolhida a associação perindopril/amlodipina/indapamida que, segundo as evidências, demonstrou o controlo da pressão arterial ao fim de quatro meses após o início da terapêutica. Com efeito, foi precisamente isto que se verificou no doente descrito, cuja pressão baixou para 128/74mmHg logo ao fim de três meses.

 

Este artigo é da exclusiva iniciativa e responsabilidade do Jornal Médico

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade

No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.