Rui Cernadas: Doenças vasculares requerem cuidados dialogantes
DATA
17/11/2022 16:19:42
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Jornal Médico
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Rui Cernadas: Doenças vasculares requerem cuidados dialogantes

No chapéu que cobre a pluralidade de doenças que são as principais causas de morte a nível mundial, bem no topo figuram as patologias vasculares. São estas, segundo a Organização Mundial da Saúde, em relatório de 2015, as responsáveis por mais de 30% dos óbitos à escala global. Um panorama preocupante que confere importância crítica, logo na primeira linha, à Medicina Geral e Familiar e à Enfermagem de Família, bem como ao seu diálogo subsequente com a Cirurgia Vascular. Ideias que a 10.ª edição da Porto Vascular Conference cuidou de fixar. E sublinhar. Saiba mais na edição 135 do Jornal Médico.

A Cidade Invicta foi, a 7 e 8 de outubro, espaço e tempo de atenções dedicadas ao que de mais pertinente envolve a doença vascular, ao ser palco da 10.ª edição da Porto Vascular Conference (PVC). A agenda trouxe à reflexão artigos científicos, casos clínicos, abordagens terapêuticas, revisões e diferentes experiências compartilhadas, num encontro onde a MGF – desde o internato à experiência aportada pela prática clínica –, a enfermagem de família e a especialidade de cirurgia vascular, convergiram na leitura e perceção comuns da importância-chave de uma intervenção articulada e cada vez mais próxima entre cuidados de saúde primários (CSP) e cuidados de saúde secundários (CSS). Olhando o programa, aqui respigamos o essencial de algumas sessões, a começar na palestra “O tempo passa, os artigos científicos também”, por Rui Cernadas, especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) que voltaria a intervir sobre o tema “Doença Arterial Periférica”, tendo por suporte um caso clínico.

Os enfermeiros Isabel Dantas e Joaquim Pereira, do ACeS Porto Ocidental (USF Ramalde) percorreram diferentes etapas que relevam no “Tratamento: Cuidados de Penso da úlcera de perna nos CSP e sua articulação com os CSS”, numa exposição valorizada pelo reporte de um caso prático. Por seu turno, Madalena Braga e Leonor Ferreira Silva, internas em formação especializada de MGF, no ACeS Porto Oriental (USF Arca d’Água), dispostas a aprofundar uma resposta bem sustentada à “Abordagem da trombose venosa profunda [TVP] e da trombose venosa superficial [TVS]: reconhecer e orientar atempadamente nos CSP”, elegeram uma revisão clássica pontuando os tópicos principais que o tema deve suscitar.

“O tempo passa, os artigos científicos ficam" 

Rui Cernadas desenvolveu o tema desta sua palestra alicerçando-o em dois artigos, sendo o primeiro intitulado “Referenciação e Articulação de CSP e Cuidados Hospitalares de Angiologia e Cirurgia Vascular – Experiência de um Centro”. Publicado em 2018 pela Revista Portuguesa de Cirurgia Cardio-Torácica e Vascular, com o Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular do Centro Hospitalar Universitário São João (CHSUJ), este trabalho científico teve o propósito de “perceber e avaliar que tipo de referenciação chegava ao CHSUJ para esta especialidade, e que melhorias seriam possíveis introduzir”, avançou o palestrante.

Ao passar em revista as motivações da equipa envolvida no referido estudo, Rui Cernadas lembrou o sentimento comum da relevância do “esforço de formação específica” então proporcionado aos colegas das Unidades de Cuidados de Saúde Primários [UCSP] das áreas de referenciação ao CHSUJ”, que, no âmbito deste trabalho, receberam a visita de equipas de cirurgia vascular – missão: “explicar e sensibilizar sobre o que é que em patologia venosa e em patologia arterial seria possível promover” tendo em vista o diagnóstico precoce e, consequentemente, a obtenção de respostas adequadas e atempadas.

Desses encontros, dessa proximidade, resultou a convicção de que é preciso aumentar a eficiência na referenciação. E esse é, faz notar o especialista, o caminho que permitirá sustentar o avolumar das listas de espera, além de facilitar a adequação da resposta ao doente, desde logo em razão dos timings. “A boa notícia deste estudo, já com quatro anos de publicação, é que as coisas podem ser sempre mudadas”, vinca o palestrante. “De facto, o esforço de formação que foi realizado permitiu, por um lado, aumentar a atenção dos CSP às patologias que estão em causa, e depois, perceber que uma mais cuidada referenciação ajuda a que os médicos triadores possam dar respostas mais rápidas”.

O especialista de MGF elencou as principais conclusões deste artigo científico, relevando, em primeiro plano, a importância de fundamentar as decisões para a referenciação a cuidados hospitalares; acresce o facto de os CSP, além dos critérios de referenciação bem estabelecidos e “negociados” entre as partes, precisarem de formação, treino e atualização em áreas em que a especialidade não contemple formação obrigatória; a circunstância de a referenciação só tem a beneficiar com o acompanhamento e a confiança de quem ‘envia’ e de quem ‘recebe’; há que reduzir e evitar a intervariabilidade na metodologia de referenciação; é preciso contrariar a sugestão de ato meramente administrativo e financeiro subjacente ao Programa ALERT-P1, no sentido do financiamento dos próprios cuidados hospitalares; importa apostar mais na vertente clínica desta referenciação, cuja qualidade se repercute nos dois sentidos, poupa recursos, aumenta a satisfação dos utentes e melhora a imagem e a resposta do SNS.

Rui Cernadas sublinha que “a mudança é uma oportunidade, e os CSP estão em momento crítico da sua existência”. E reforça a ideia de que “os hospitais precisam de ser resguardados da procura indevida e excessiva”, o que passa por investir na melhoria dos CSP, desejavelmente “bem preparados”. Passando ao segundo artigo em apreço pelo palestrante, foi publicado em 2012, na Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, e versava uma revisão pedagógica e didática sobre doença arterial periférica (DAP) assinada pelo Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular do Hospital Garcia de Orta (Ferreira, M. J., Barroso, P., & Duarte, N. (2010). Doença arterial periférica. Revista Portuguesa de MGF, 26(5), 502–9. https://doi.org/10.32385/rpmgf.v26i5.10785).

No alinhamento das conclusões de significado maior extraídas deste artigo científico, Rui Cernadas faz destacar a correlação da DAP com o envelhecimento populacional; a prevalência estimada em 3-10% e que é mais relevante (7,5-8%) na faixa etária 75- 85 anos; a particularidade de os fatores de risco para DAP serem os mesmos que estão associados à aterosclerose. Das notas do orador sobressai igualmente a que refere à claudicação intermitente como sendo muito pouco a investigada e – ou – “demasiadas vezes, erradamente” confundida com diagnósticos ligadas a doenças neurológicas degenerativas ou osteoarticulares, designadamente as lombociatalgias e as dores musculares, “sobretudo quando hoje, com muita atividade física, é relativamente fácil numa primeira avaliação – ou numa avaliação demasiadamente artificial – não valorizar”.

Na interpretação do palestrante, “temos aqui um problema de subdiagnóstico, e como se isso não bastasse, os dados da ACSS [Administracao Central do Sistema de Saude], publicados em 2020, indicam uma taxa marginal de referenciação aos cuidados hospitalares, o que e, de facto, dramático”. Antes do sinal de partida para o jornal club que se seguiu, Rui Cernadas recordou que “a nossa prática clínica é conduzida por indicadores”, e em relação a muitas situações mais ou menos transversais “não há médico – seja em que especialidade for – que não tenha a possibilidade de diagnosticar ou, pelo menos, estar atento a um caso desta natureza”.

Mais ainda na MGF, vocacionada que está para “atuar sobre aquilo que constitui matéria de contratualização e não tanto naquilo que é matéria clínica”. Referindo-se aos tempos conturbados trazidos pela pandemia, o palestrante confessa-se preocupado com o que considera terem sido “dois anos de desperdício” afetando todas as áreas da patologia que foram relegadas para segundo plano em razão da COVID-19.

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.

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