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Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) mostra que um baixo consumo de peixe durante a gravidez pode ter impacto negativo e afetar o neurodesenvolvimento das crianças, foi hoje anunciado.

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antoniovazcarneiroA primeira vez que se falou no papel dos ácidos gordos ómega-3 como potenciais moduladores preventivos da doença coronária (DC) foi no início dos anos 70, através de trabalhos realizados por dois investigadores dinamarqueses - H.O. Bang and J. Dyerberg - que relacionaram a baixa prevalência de DC diagnosticada em Esquimós Groenlandeses com a dieta rica em gordura animal (baleias e focas) que estas populações ingeriam (Lancet 1971;1:1143-1145, Acta Med Scand 1972;192:5-94, Am J Clin Nutr 1975;28:958-966).

Com base nestes estudos e em diversos ensaios clínicos demonstrando benefício na incidência de DC com a ingestão destas gorduras (Lancet 1999;354:447-55, Lancet 2007;369:1090-8), tem sido recomendada por diversas sociedades profissionais nas suas normas de orientação clínica a ingestão de duas porções de peixe gordo por semana como prevenção primária (Eur Heart Journal 2012;33:1635–1701) ou 900-1.000 mg diários de ácidos gordos ómega-3 – que incluem o ácido alfa-linoleico, o ácido eicosapentaenóico e o ácido docosahexaenóico – em prevenção secundária (Circulation 2006;114:82-96).

[caption id="attachment_8603" align="alignleft" width="300"]jm025-5 Muitos estudos recentes e bem desenhados mostraram resultados ambíguos ou mesmo desmentiram as propriedades cardioprotectoras dos ácidos gordos ómega-3 e dos suplementos de óleo de peixe. O que não impediu que, com base fundamentalmente no trabalho de Bang e de Dyerberg, ainda sejam amplamente recomendados como parte de um plano de dieta “amiga do coração”, aponta o professor George Fodor director do Centro de Prevenção e Reabilitação do Instituto do Coração, da Universidade de Otava, Canadá[/caption]

Num artigo que irá ser brevemente publicado no Canadian Journal of Cardiology, uma equipa chefiada por Georg F. Fodor reviu o contexto em que os estudos de Bang e Dyerberg se realizaram, tendo chegado a diversas conclusões inesperadas: em primeiro lugar, os investigadores dinamarqueses não estudaram directamente a prevalência de DC nos Esquimós Inuit, antes lançando mão de estatísticas oficiais de saúde pública do Chief Medical Officer da Groenlândia para determinação de óbitos por DC naquela remota região (com a subsequente menor qualidade de dados deste registo); em segundo lugar, a descrição do padrão da dieta foi executada em apenas 7 pessoas durante uma semana, utilizando a técnica da porção-dupla (uma para comer e outra análoga posta de lado para análise); em terceiro lugar, a população do estudo era pouco representativa da população esquimó (a localidade tinha 1.300 habitantes representando apenas 2,3% da população groenlandesa); finalmente, estudos epidemiológicos recentes apontam para uma prevalência de DC que idêntica ou mesmo superior nos Esquimós do que no resto da população (JAMA 2004;291:2545-2546, Am J Public Health 1990;80:282-285). Tudo isto parece pôr em causa a relação entre ácidos gordos ómega-3 e a doença coronária.

Em termos práticos, como se deve encarar esta evidência?

Em primeiro lugar, os autores foram exaustivos na localização dos estudos originais - classificando-os em Evidência I (estudos com medições directas de outcomes clínicos), II (resultados e certidões de óbito ou processos clínicos hospitalares) ou III (outros) – pelo que a validade do estudo não parece ser questionável.

Assim sendo, e dado que o efeito modesto da ingestão de ácidos gordos ómega-3 tem sido amplamente reconhecido em vários estudos experimentais (Lancet 2008;372:1223-30, N Engl J Med 2010;363:2015-26), dever-se-á ter prudência no seu uso, até porque faltam estudos medindo directamente os putativos benefícios da ingestão de ácidos gordos oméga-3 na prevenção primária e secundária da doença coronária.

E, apesar das recomendações da American Heart Association (AHA) já citadas (Arterioscler Thromb Vasc Biol 2003;23:151-2), talvez nesta altura não seja boa prática a recomendação de ingestão regular de suplementos de ácidos gordos para prevenção (primária ou secundária) da doença coronária. Não estamos afirmando que se deixe de comer peixe (afinal parte da dieta mediterrânica), mas que se faça pelo prazer que dá e nunca por questões de prevenção…

António Vaz Carneiro, MD, PhD, FACP

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Crónicas de uma pandemia anunciada
Editorial | Jornal Médico
Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

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